eu não preciso passar um café novo hoje,
porque quero tomar o de ontem, 
mais amargo,
mais amargo pra disfarçar o amargo das brigas que temos
e dos ressentimentos que sinto
inclusive fumo agora um cigarro, mesmo com dor de garganta,
pra ver se na fumaça engulo coisas difíceis de descer

desde o colégio não sei usar pontuação em frases 
e o ponto e virgula é um enigma aberto na minha sintaxe 
porque vai bem em tudo;
igual nesse percurso que criamos de nunca encerrar 
e nem prosseguir linearmente, 
deixando aberto os lugares onde dançamos nossas histórias

os intervalos, alguns propositais outros não, 
que sumo

são pra redesenhar tudo que foi embaralhado 
desejo um tipo de plenitude; 
que abro mão pra olhar você bem de perto, 
porque quando olho devagar as suas mínuncias 
acontece uma abertura simétrica no lado de cá do meu peito

e você pode ver se quiser, mas as vezes seu olho as não vê, 
ou vê e se cala porque me torno facilmente irascível na exposição.

olhar do alto é atravessar um abismo, 
uma passarela que evidenciou a tensão da queda 
e o passeio é só vertigem até chegar do outro lado, seguro.

ou é mergulhar muito muito fundo no mar, na vontade de ver os peixes abissais mas ser atravessado pelo pânico da profundidade 
e então se contentar com revistas de noticias submarinas.

eu não sei de você, mas de mim eu vou até os limites dessa sanidade de capturações afetivas, 
só que volto muito cansada 
porque nunca se é o mesmo depois de ver belezas muito do alto ou muito profundas.

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