A nossa dança

“I saw a lady dance yesterday / She was easily swayed / I cannot be tossed and turned in this way / I’m not a tiny dancer”

Algumas relações parecem fadadas à repetição dos mesmos aborrecimentos, como se estivessem presas a uma dinâmica pré-determinada. Sempre que me deparo com alguma relação assim, me lembro de um episódio de ER. Não me lembro exatamente do que acontecia na ocasião, mas a mãe da Abby, sendo uma bipolar que simplesmente parava de tomar os remédios de vez em quando, a decepciona mais uma vez. Ela aparece toda animada e depois deixa a Abby na mão e some. Abby não fica nada surpresa; não está feliz, mas já está acostumada a ser tratada dessa forma. Ela, então, diz ao Carter que é sempre assim, “it’s the dance we do”. Acho que o nome do episódio é esse, aliás: The Dance We Do.

Às vezes a gente nem sabe o que faz com que a nossa relação com determinada pessoa esteja sempre se repetindo; a gente aceita porque é apenas aquilo que conhecemos daquela relação. Nos esquecemos de que toda dinâmica é co-sustentada. Se a mãe da Abby acha que pode aparecer na vida dela e fazer o que bem entende e depois simplesmente desaparecer, é porque a Abby está sempre lá para recebê-la, independente do quanto está magoada. Se a sua filha de 18 anos se comporta como se tivesse 10 e você se preocupa que ela nunca vai crescer, é culpa dela que age assim e é sua também porque reforça esse comportamento, transformando a situação numa daquelas armadilhas de ovo e galinha. Se aquele cara por quem você está apaixonada te dá corda e depois desaparece, te manda indireta e depois começa a namorar outra, é porque você se deixa disponível para passar por isso.

Não estou falando de uma relação entre uma vítima e um vilão e tentando pôr a culpa na vítima. Acho apenas que, em relações interpessoais, essa dinâmica vilão X vítima não existe propriamente. Se a Abby mantém essa “dança que elas fazem”, é porque, apesar de todas as mágoas, ela deve ganhar alguma coisa com isso. Será que essa é a única forma de ela receber atenção da mãe? Será que, pra ela, isso vale a pena? Acho que tudo cai nessa questão: o que estamos ganhando nessa relação e se isso vale a pena. Nós escolhemos quais problemas somos capazes de suportar. Às vezes, tem coisa maior em jogo. Às vezes, amor é isso. Outras vezes, os problemas se tornam maiores do que as coisas boas. E é aí que a coisa começa a incomodar.

Enquanto estamos encarando alguma dinâmica como apenas “the dance we do”, está tudo bem: ambos aceitaram seus papéis naquela relação e estão apenas tratando de desempenhá-los. A partir do momento em que essa dança começa a doer o calcanhar, é hora rever a dinâmica. Não adianta esperar a outra pessoa se comover com o seu sofrimento. Também não adianta esperar que a outra pessoa mude por conta própria o que nos incomoda. O que podemos fazer é reconhecer nossa própria parcela de responsabilidade por aquele tipo de relação e mudar algo. Toda mudança provoca outra. Há também a possibilidade de a outra pessoa estar tão confortável com tudo isso, que não há nada que possamos fazer para conseguir uma relação que nos satisfaça. Nesse caso, nos resta apenas abandonar o barco.

Assim que nos descobrimos insatisfeitos com uma relação, não fazer nada para mudá-la nem abandoná-la é necessariamente uma forma de lhe dar boas vindas e dizer que sim, aceitamos passar por isso. Em outras palavras, pode vir, eu adoro sofrer por você. Seguindo, então, na metáfora da dança: se seu parceiro pisou no seu pé e você continuou dançando calada esperando a dor passar, ficar sentindo dor foi escolha sua; se seu pé já está doendo de tanto dançar desse jeito e aguentar as pisadas, mude o ritmo pra ver se melhora; se você não sabe dançar de outro jeito, se seu parceiro não sabe dançar de outro jeito, se você já mudou o ritmo, já pôs até um chinelinho confortável e seu pé continua doendo, talvez seja hora de você se sentar.


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Escrevo na área de Relacionamentos & Sexo da Revista Capitolina e atuo no Ajuda, Miga!, vlog de conselhos para as leitoras da revista. Trabalho como professora de inglês e sou mestre em Linguística Aplicada (Discurso e Práticas Sociais), com estudos focados em amor, relações amorosas, gênero e sexualidade.

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