Bastidores: o que, por que e como escrevi em 2017

Gosto muito de pensar em bastidores e já escrevi sobre isso antes. Isso porque quando vemos o resultado incrível do trabalho de alguém, não sabemos a quantidade de dedicação, esforço, mão-de-obra, erros, estresse e tudo mais que a pessoa passou até chegar ali. Em outras palavras, é muito fácil, por exemplo, olhar pra Anitta onde ela está hoje e dizer que ela não tem talento e faz sucesso mostrando a bunda. A realidade é que ela trabalha MUITO pra estar e se manter onde está. E acho que esse trabalho deve ser valorizado, muito mais do que os resultados finais que vêm a público. É fácil menosprezar o que vemos, quando não conhecemos o que há por trás.

Cheguei a criar (e depois abandonar) uma newsletter com o nome Bastidores, pois sentia uma necessidade muito grande de me explicar pras pessoas. Sentia que, se eu conseguisse articular bem de verdade, ninguém me interpretaria mal ou teria qualquer opinião negativa sobre mim. Óbvio que isso não existe.

Pensando nesses bastidores e nos ganhos que tive em 2017, repassei na minha cabeça um filme do que foi esse ano para mim e de que forma tudo se manifestou na minha escrita. Já que estamos no fim e que foi um ano muito produtivo, vou aproveitar o clima de retrospectiva para repassar alguns dos textos que escrevi no Medium e em outras plataformas, com alguns comentários, divididos por temas recorrentes.

Autoestima

O texto com mais fãs foi Sobre autoestima e relacionamentos: nada é melhor que pouco. Gosto muito desse texto e ele levou mais de um ano para ser finalizado. Estava sempre aqui nos rascunhos e eu mexia, refazia e nunca ficava satisfeita. Só que isso também nunca saía da minha cabeça. Ainda penso muito sobre isso e creio que falta de autoestima e de autonomia são o cerne dos maiores problemas pelos quais passamos em nossas relações interpessoais. Não tem jeito: quanto mais nos valorizamos, mais acreditamos que merecemos coisa boa. Por consequência, menos nos metemos em furada. Autoestima é tudo.

Também nessa linha da autoestima que nos fortalece para não passar por situações horríveis em relações afetivas, escrevi A glorificação do sofrimento em relações amorosas. Em retrospecto, vejo esse texto como um ensaio para o da autoestima, que veio pouco tempo depois.

Responsabilidade afetiva

O da autoestima foi o que teve mais fãs, mas meu texto de 2017 mais acessado foi Responsabilidade afetiva — consigo mesma em primeiro lugar. Quanto mais reflito sobre esse assunto, mais tenho a dizer sobre ele, pois discordo muito dos comentários que vejo pela internet acerca disso. De tempos em tempos, vou escrevendo um pouco mais. Mal sabem as pessoas o quanto duvidar desse uso popular do termo fez bem pra minha vida pessoal.

Em setembro, publiquei Responsabilidade afetiva: por que sentimos tanta falta?, um novo texto sobre o tema no projeto #OValordoFeminino:

“ O problema é que todo mundo quer que seus sentimentos sejam respeitados e considerados (o que não tem nada a ver com amor), e essa distância quase obrigatória que muitos mantêm em relações ainda não definidas deixa todo mundo se sentindo sozinho. Logo, é claro que faz sentido que hoje em dia haja cobrança por responsabilidade afetiva mesmo entre pessoas que se consideram monogâmicas. Só que me parece que esse é só um termo bonito que resolvemos usar para pedir por coisas muito simples, como cuidado com o outro.”

Já em outubro, publiquei Responsabilidade afetiva x autonomia afetiva: por que vale mais olhar para dentro?, parte da trilha sobre autonomia afetiva da Comum, no conteúdo exclusivo para assinantes, um espaço que só tem amor. Sinto que esse texto, de certa forma, relaciona esse tema com o anterior.

Não-monogamia

Não é que escrevi muito menos sobre isso em 2017? Primeiro, porque, nos bastidores, fiquei solteira e com isso o tema saiu de evidência. Segundo, porque consegui organizar muito bem tudo que queria dizer no texto Liberdade, piranhice, não-monogamia e hipocrisia. Esse é um dos textos que mais gosto de ter escrito e até analogia com sanduíche do Subway tem.

O outro texto sobre não-monogamia foi, na verdade, sobre não se forçar a ser não-monogâmico se você não é: Você não precisa de um relacionamento aberto. Senti necessidade de escrever sobre isso por causa dos e-mails e mensagens que recebo de pessoas desesperadas tentando um relacionamento aberto ou livre e não conseguindo. Acabou sendo o terceiro texto mais popular do ano. Porque o importante não é seguir regras ou desconstruí-las, mas sim criar as próprias, conforme for mais satisfatório.

Traição

Nem sei se ainda concordo com tudo, mas escrevi o texto Traiu uma vez, vai trair outra vez?, analisando tudo que consegui pensar sobre traição. É um tema complicado e delicado e vivo pensando novas coisas a respeito. Ainda pretendo desenvolver mais esse tópico no contexto de relações não-monogâmicas.

Também falei de traição na Revista Tpm, no texto Amante e oficial: dá pra ter sororidade?. É um tema polêmico e fui xingada por aí. Li muitos comentários e continuo pensando do mesmo modo. Me disseram que esse texto era um desserviço, mas não aguento essa sororidade que só vale de um lado e nem acho que precisa de sororidade pra ser ético. E todo mundo faz coisa errada na vida às vezes, mas vamos nos responsabilizar, não é mesmo?

Compreensão

Não sei se ficou evidente pra todo mundo como estava pra mim nos bastidores, mas um tema frequente pra mim esse ano foi a compreensão, o perdão, ouvir o outro, ressignificar relações com base em humildade e aceitação. Comecei com Comunicação Não-Violenta, tema cujo estudo mudou minha vida, parti para A importância de ressignificar as nossas relações e fechei o ano com Demora pra responder nem sempre é sobre você. É provável que eu continue desenvolvendo esse tema no próximo ano.

Na mesma linha, pensando nos limites da compreensão, publiquei O amor e o respeito entre a liberdade e o egoísmo. É um texto extremamente pessoal, e depois fiquei me achando meio louca de ter publicado (seguindo a metáfora dos bastidores, sejam bem-vindos aos primeiros ensaios). Mas ele provocou reações tão lindas, recebi tanto carinho por ele, que valeu a pena. Ainda assim, não o releio com facilidade.

Séries e a vida

O fim da série Girls mexeu muito comigo e, a partir disso, escrevi Crescer é aprender a amar o que não foi. Eu amo esse texto. Minha mãe disse que ele é muito bom, pois fala coisas que são óbvias mas que são difíceis de falar e que funciona até pra quem não conhece a série. Escutem minha mãe.

A partir de outra série que também mexeu muito comigo, escrevi The Handmaid’s Tale e os cúmplices do opressor, minha primeira colaboração na Revista Subjetiva. Foi um texto DIFÍCIL, que me deixou muito insegura, mas curti o resultado final. De uma forma ou de outra, fiz o melhor que pude dentro do quão abalada esse tema tem me deixado.


O que mudou na minha escrita e o que há de vir

Ser compreendida sempre foi uma questão forte pra mim. Eu era muito tímida para falar, por isso sempre me expressei melhor escrevendo. Achava que escrevendo conseguiria me fazer entender. O problema é que eu confundia me fazer entender com ver todo mundo concordando comigo. Hoje sei que não é assim.

O bom é que, enquanto algumas pessoas não nos compreendem ou simplesmente não gostam da gente, outras se sentem agradecidas pelo que temos a dizer. E são nessas pessoas que devemos focar. Agora em dezembro, participei de um encontro do clube de leitura do grupo AmorVivo, que debate amor livre e relacionamentos. Eles tinham lido meu texto Vulnerabilidade, demonstrações de afeto e sexo casual e tiveram a ideia de me convidar para debater com eles. A sensação de pertencimento foi incrível. Gosto de ver que, por mais que nos bastidores eu me sinta uma esquisita, do lado de fora, tem tanta gente sendo atingida e reagindo positivamente e se identificando. Se eu sou uma ET, não sou a única — acho que isso significa que nenhum de nós é.

A grande mudança desse ano foi que a escrita passou a ser um trabalho, com prazos para respeitar, notas fiscais para emitir, editoras para dizer sim ou não. A relação muda completamente quando vira trabalho, mas é uma mudança que amadurece. Eu achava que escrita era desabafo e inspiração. Hoje sei que até pode ter disso também, mas é principalmente organização, edição e esforço.

Vejo que, enquanto nos holofotes tudo fluiu de maneira muito positiva nesse ano, nos bastidores, muita coisa aconteceu e tornou esse trabalho mais difícil. Prova disso foi que escrevi pouco, muito menos do que pretendia. Fico muito feliz e orgulhosa de mim mesma por ver os resultados positivos conhecendo meus próprios bastidores conturbados. Mas, hoje em dia, os mantenho pra mim.

Para 2018, quero continuar fazendo o que estou fazendo agora (TRENDR, Revista Tpm e #OValordoFeminino), o que mais surgir de interessante por aí e me organizar para montar e publicar um livro.

Sigo atualizando esse link com todos os textos que tenho publicados na internet.

Para entrevistas, convites para palestras, mesa redonda etc., envie um e-mail para laurampires@gmail.com .