Sorte, azar, destino e nossa total incapacidade de controle


É difícil aceitar que, muitas coisas que dão errado em nossas vidas são puro azar — ou, para quem acredita em destino, “não era pra ser”. Quando algo não sai da maneira como gostaríamos, tentamos olhar para trás e buscamos descobrir onde erramos. É mais fácil responsabilizar alguém, ainda que esse alguém seja nós mesmos. Talvez precisemos acreditar que podia ter sido diferente. Acontece que, às vezes, não podia, não.
Há uma série de coisas na vida que independem da nossa vontade e ação. Lembro que uma vez vi uma pessoa receber uma orquídea de presente e dizer assim:
- Ela vai durar muito. Sabe por quê? Eu cuido muito bem.
Fiquei pensando: ah se fosse simples assim. A gente se engana quando pensa que, se fizer tudo certinho, estamos salvos, as coisas ruins não irão nos atingir. Nada ao nosso alcance é capaz de nos proteger das coisas ruins que podem acontecer. O relacionamento que tanto cuidamos pode acabar ficando entediante ou desgastante para uma das partes. Não importa o quão saudáveis nos preocupemos em ser, ainda podemos morrer de câncer (a ironia Walter White com câncer no pulmão sem nunca ter fumado X todas as pessoas que fumam a vida inteira sem qualquer consequência). E correr faz muito bem para o coração, mas pode acabar com os seus joelhos.
Aprendo muito sobre a vida jogando Two Dots e, quando comecei, fui muito bem e passei o amigo que me indicou, com facilidade. Fiquei me achando melhor do que ele no jogo, até que, de repente, comecei a perder — e meu amigo foi subindo de nível alucinadamente. Falei pra ele que estava inconformada (eu me tornei uma péssima perdedora com o tempo) e ele me disse diversas vezes que eu precisava entender que o jogo dependia muito mais de sorte do que de habilidade ou, pelo menos, que a habilidade é posterior à sorte. E a sorte, a gente não cria nem controla.
Quanto mais jogo Two Dots, mais consigo observar que ele tinha razão. Algumas partidas começam com tudo propício: cores repetidas, quadrados fáceis; outras nem formam quadrados e tudo parece atravancado. Não adianta ser a jogadora mais habilidosa do mundo se eu receber muitas peças ruins ou na hora errada. É o mesmo na vida. Tudo o que fazemos é limitado pelas possibilidades que temos. Sorte ou destino, nossas ações estão sempre contextualizadas por aspectos que são anteriores ao nosso poder de escolha. E aí, às vezes, não importa o quanto nos esforçamos, as coisas dão errado. E não havia nada que pudéssemos ter feito de maneira diferente. É simplesmente assim que as coisas são.


Acho que esse movimento de pensar em onde erramos não deixa de ser uma tentativa de controle. Isto é, se conseguirmos entender em que ponto erramos, podemos aprender alguma coisa e, com isso, evitar erros futuros. É como se fosse uma busca por perfeição. Mas isso é lógico demais. E a vida não funciona por lógica. Às vezes, o aprendizado é apenas esse: não podemos controlar os resultados das nossas ações, pois elas não ocorrem em um vácuo e, por isso, são influenciadas por diversos outros fatores fora de nosso alcance. E as coisas ruins vão continuar acontecendo, mesmo que nos esforcemos muito para que não aconteçam. Não adianta tentar controlar tudo. Especialmente porque, enquanto isso, um monte de coisa boa acontece também, às vezes, sem movermos um dedo.
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Escrevo na área de Relacionamentos & Sexo da Revista Capitolina e atuo no Ajuda, Miga!, vlog de conselhos para as leitoras da revista. Trabalho como professora de inglês e sou mestre em Linguística Aplicada (Discurso e Práticas Sociais), com estudos focados em amor, relações amorosas, gênero e sexualidade.
Ilustrações por Beatriz Leite. Contato: [email protected].