A importância de lidar com a dor.

Room é um filme que todo mundo deveria assistir. Ganhou o Grande Prêmio do Público no Festival Internacional de Cinema de Toronto, em 2015, e está concorrendo ao Oscar 2016. Mas não é só por esse reconhecimento que eu sugiro que você assista. Room ensina uma das coisas mais básicas da vida que não é passada nem no colégio e nem pelos nossos pais — a importância de lidar com a dor.

Jack é uma criança de cinco anos, fruto de abusos sexuais cometidos por “Old Nick”, um sequestrador que mantém Joy, a Mãe, e o menino, em um pequeno barracão com pouco mais de 10m2, no quintal de sua casa. O mundo de Jack se limita às paredes do quarto e a um minúsculo pedaço do céu visto pela clarabóia no teto. A vida se resume a isso e nada mais.

Quando os dois conseguem se livrar do cativeiro, começa uma emocionante descoberta da vida e das dores que o passado carrega. Jack não sabe o que fazer com tanto espaço, tantas novidades, tanto mundo. Em meio ao desconhecido, mesmo receoso, ele tenta compreender e experimentar tudo aquilo. Mas, inevitavelmente, a saudade do Quarto aparece em alguns momentos.

Quem nunca se apegou ao passado, muitas vezes pior do que o presente, apenas por medo de mudanças? Estar em uma zona de conforto, mesmo que claustrofóbica e limitando a nossa liberdade, nos parece mais seguro que o mundo de possibilidades lá de fora. Mas, às vezes, precisamos passar pela porta. E o que encontramos do outro lado não é necessariamente fácil, mas precisa ser enfrentado.

Pouco a pouco, o novo se torna rotina e aquele estranhamento inicial abre espaço para dias mais leves e divertidos.

Certo do que queria, Jack pede para a mãe o levar até o Quarto pela última vez. Chegando lá, o contato com aquele lugar até então preso na memória como amplo, aconchegante e divertido, transforma-se no que realmente é: um pequeno espaço sujo, apertado e escuro onde ele passou os seus únicos cinco anos. Ele, enfim, começa a se despedir de cada objeto:

“Adeus, planta.

Adeus, cadeira número 1.

Adeus, mesa.

Adeus, cadeira número 2.

Adeus, cama.

Adeus, guarda-roupa.

Adeus, pia.

Adeus, privada.

Mãe, despeça-se também e vamos embora.”

Por mais doloroso que seja, todo ciclo precisa chegar ao fim, e aceitar o seu encerramento de forma consciente é o remédio mais poderoso que existe para a dor.

Vivemos fugindo da tristeza a todo custo. Best-sellers ocupam as prateleiras das livrarias ensinando como ser plenamente feliz e os lucros das indústrias farmacêuticas crescem a cada ano com a venda de antidepressivos. Enclausuramos a dor sem entender que isso não a fará sumir e tememos um enfrentamento com medo de enlouquecer.

A verdade é que lidar com a perda, a frustração e a tristeza prepara e fortalece o cérebro de tal maneira que torna mais fácil o caminho para tranquilidade.

Se eu pudesse te dar um conselho seria: lide melhor com a sua dor. E assista ao filme Room, ele pode te ajudar nesta tarefa.