O que nos falta é afeto

Um texto pela desvirtualização dos laços

Somos tão pequenos num universo tão grande; todos embolados numa infinita multidão. Estamos aqui sem saber muito bem o porquê, atolados em meio à tanta informação, super ocupados em nossos smartphones. Cada um em busca do seu caminho, da sua missão. Estamos sozinhos nesse mundão, esquecidos de que o que sobra é o afeto.

Pra Filosofia, afeto é estado de espirito. É o que tange à alma. Aquilo que fica no plano subjetivo das coisas. Pra Ética, afeto tem a ver com mudança; o que transforma corpo ou mente, ou os dois, dependendo do que te afeta. Sabe, acho que afeto é um pouco dos dois. E mais, afeto é também o que isso significa pra cada um de nós. Afeto é essa coisa particular e pública, que cada um sente de um jeito e que a gente vive a compartilhar com o outro.

Afeto é o que se cria a partir daquela lembrança que a gente construiu naquela tarde que passamos juntos conversando sobre a vida. Daquele móvel da sala da sua mãe, que tá na família desde que você era pequeno e que um dia vai pra sua sala. Daquele amigo que você transportou do ensino fundamental pro resto da vida. Do chá de hortelã que a sua mãe fazia sempre que você tava gripado.

E lembra daquele dente que você arrancou quando era criança? Que foi um sofrimento mas que no dia seguinte foi compensado pela moeda que a fadinha deixou? Teve também aquele cachorro, que você teve e que lembra o nome dele até hoje porque sem dúvidas aquele foi o melhor cachorro que o mundo já conheceu. Somos todos afetados. Estamos cercados de afeto.

Mas vez ou outra a gente se esquece. Nesse mundão de consumo exagerado e obsolência planejada, onde tudo se perde no lixão e a gente acha que é sempre preciso renovar as coisas. Estamos muito ocupados pra preservar as nossas memórias; acontece que a gente é moderno demais pra reviver. Distraídos demais pra cultivar amor e enxergar a profundidade subjetiva das pessoas e das coisas.

Nossos laços agora são virtuais, e o like é o maior dos nossos símbolos atuais de apreço. Não nos vemos e nem nos tocamos. No máximo um áudio ou outro e olhe lá. Skype se o 4G ajudar. E quando estamos juntos, ninguém abre mão do celular.

Estamos todos afetados. E o que nos falta é afeto.

Gostou do texto? Então dá um coraçãozinho alí embaixo pra que mais pessoas possam lê-lo. Até o próximo!