Uma breve ficção realística dramática

Como será que se escreve para ou sobre alguém de forma sucinta e imperceptível?
Como diz o que se quer dizer em linhas retas e diretas, mas ainda sim sem endereço, nome ou sobrenome?
Sinto necessidade de te falar tanta coisa, mas não vou. 
É que eu odeio te sentir, a vulnerabilidade que isso traz não me agrada.
E não vou te entregar uma única palavra, não agora. 
Escrevo sobre ti, mas para mim.
Pra tentar organizar de uma forma meticulosa o que eu ainda nem sou capaz de identificar.
Só pra tentar entender o porquê da confusão. 
Entender a raiva que me consome involuntariamente, e que desponta apenas pelas coisas que eu não fiz. Ou melhor, deixei de fazer. 
A dramatização me permite dizer que é o inferno na terra, porque eu odeio te sentir.
Odeio te ouvir falar.
Odeio ter ouvir rir.
Odeio te ver rir.
Odeio te ver.
É todo esse clichê que me atormenta.
Que faz das minhas noites, há muito mal dormidas, mais desconfortáveis que o habitual.
É aquele paradoxo idiota: só odeio porque eu gosto. E eu tenho medo de gostar. De gostar de gostar.
Te sentir é o verdadeiro inferno na terra sim, dessa vez com muita dramatização.
É que no final das contas, não deve ser tão ruim assim. Deve até ser bom. Deve ser bom demais. 
Chega a dar medo de estragar o que eu ainda nem tive.

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