CINDY WRIGHT

dia dos mortos

Laura Werneck
Nov 4 · 2 min read

a pior parte de ter escolhido uma cidade grande pra tentar a vida é lidar com a impotência. assistir, nas madrugadas depois do trabalho, pessoas vivendo em situações miseráveis. acabar por me assustar, num desses dias, com um corpo deitado numa grama de calçada, o rosto coberto e passar por ele como se não tivesse visto porque senão perco o último ônibus.

é uma pessoa. no chão da rua.

dentro do ônibus dois pedintes, os passageiros mal os olham, eles pedem por moedas, mas eu sinto que, no fundo, eles pedem por um olhar.

um dos passageiros insinuou que as latinhas que um deles carregava num saco de lixo eram, na verdade, permuta pra drogas…

sinceramente, à essas alturas, e daí?

uma porra de um estado que mija na cabeça em montes de pedintes feito estes. limpam a bunda com os papéis de dinheiro enquanto um pobre coitado me sorri porque entreguei a ele 25 centavos?

a vida neste mundo às vezes não faz o mínimo sentido.

há quanto tempo uma cédula tem mais afeto que um sujeito? quando foi que essas cédulas criaram/ganharam tanta complexidade quanto a subjetividade do ser humano, a vida latente da natureza?

por vezes sinto que não sou daqui.

dentro de mim tem uma criança birrenta que me atormenta com “num mundo ideal…” “as coisas não deveriam ser assim” “não é justo” “tá tudo invertido! tá tudo errado! que merda!!”

enquanto uma outra coexistência mais realista, lúcida e com os pés cravados no chão tenta viver a vida com leveza. a cabeça nas nuvens, admito, mas isso porque tanto estima o que é vivo e natural. a arte. a criação. a criança. o espontâneo. o riso. o choro. a solidão e a companhia. os meus amigos. a profissão que eu escolhi. as minhas plantinhas. as árvores das ruas. as flores e os passarinhos. as borboletas e o cachorro vira-lata. o felino. o moço que outro dia entrou no ônibus dizendo ser jesus cristo. e aquele outro que ensaiava, com as mãos e de olhos fechados, os movimentos do baixo acústico no pilar do assento.

tem tanta beleza no mundo, ela me deixa louca de um jeito bom.

a criança birrenta fez silêncio.

02/11/2019 dia dos mortos.

Laura Werneck

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às vezes crio asa e escrevo

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