Pedra, Parede ou Tijolo

A gente era bem pequena, acho que tínhamos uns 10 anos. Falávamos de meninos, florestas que não existiam e música. Ouvíamos Mamonas Assassinas escondidas dos seus pais e você pegava os sapos do banheiro quando eu gritava em pânico. Nunca soube se éramos amigas por escolha ou se a nossa ligação era forçada pela proximidade dos nossos aniversários. Éramos amigas quando falávamos de meninos, éramos irmãs quando defendíamos Outubro como o melhor mês e librianos como seres superiores do zodíaco. A gente tinha esse elo secreto de fazer aniversário juntas, de dividir a hora do parabéns, desenhar nossos convites e escolher aos cochichos os convidados para a festa dos seres superiores. Até hoje eu sei que você nasceu dia 06 de Outubro, mas eu lembro de você por outra coisa.

Fomos para a sua casa de praia 2 ou 3 vezes e, na última vez, quando ficar o dia inteiro na areia construindo fortaleza contra o mar não era mais tão legal, criamos outro passatempo. Juro que não faço ideia de onde tiramos essa ideia — se achamos em um livro, se copiamos sua irmã ou se simplesmente inventamos — mas passamos nossos dias “fazendo” telepatia. Ou, mais vulgarmente colocado, torcendo para adivinhar o que a outra estava pensando. Começou num meio de tarde, naquela hora do tédio absoluto. Você pensou no menino que gostava e eu adivinhei. Não por chute (óbvio), ou porque éramos amigas, mas sim porque eu “ouvi” você pensando. Virou vício. Sabor de sorvete, animal, ou qualquer coisa que se resumisse a uma palavra e não exigisse conexões mais profundas. Era esse nosso vínculo paranormal que só funcionava com palavras solitárias e que a grosseria dos erros não nos incomodava. Era o dia inteiro. Voltávamos da praia, você tirava o sapo do banheiro, tomávamos banho e cada uma ia para um canto da casa pensar em palavras.

“Parede, pedra ou tijolo. Pensa em uma e espera até eu gritar a certa”.

Eu me encostei na parede de concreto da lavanderia, fechei os olhos, coloquei as mãos nas têmporas — fingindo que entendia de alguma coisa — e esperei. Fiz força. Fiz silêncio, fiz alguma coisa certa ou não fiz nada. Mas eu ouvi.

Eu ouvi, pela primeira vez, a sua voz. Você repetia “pedra, pedra, pedra”. Não era a minha voz, não era a voz da minha imaginação ou mais um golpe. Era a sua voz. Eu soube lá e sei até hoje.

“Pedra” eu gritei “pedra, pedra, pedra” e corri até a varanda, ofegante “eu ouvi, eu ouvi”. Você estava sentada, serena.

“Eu sei.”

A gente nunca mais falou sobre isso. Acho que nenhuma das duas queria colocar nossa verdade à prova ou repetir o suficiente para que se tornasse sorte. A gente nunca mais viajou juntas e a última coisa que sei sobre a sua vida é que você ficou com o Louis Garrel em Paris. Coisa que só é possível porque você nasceu em Outubro e somos superiores. Não porque você é linda e inteligente e sabe telepatia antes de mim. Outra verdade que não precisa ser posta em prova.

A gente nunca mais falou sobre isso, mas foi naquele dia, com a clareza da sua voz, que eu soube que o mundo era muito maior e mais incrível do que eu imaginava. Se aquilo aconteceu, tudo podia acontecer. Com 10 anos, encostada na parede, eu soube que existem conexões que vão além de repetições aleatórias de palavras. Foi ali que eu aprendi a simplesmente acreditar, em qualquer coisa que eu queira.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Laura Zamboni’s story.