Protocolos não-definitivos para lesões comuns por armas policiais — uma adaptação à realidade brasileira
Para leigos e profissionais de saúde

Esse post é uma tentativa de construção coletiva de protocolos de conduta e orientações gerais destinadas a manifestantes que têm ido às ruas nesse momento no Brasil. As informações aqui reunidas se baseiam na tradição da Street Medicine¹ ao redor do mundo, especialmente nos protocolos para street medics disponibilizados pela CrimethInc. (Você pode encontrar uma tradução livre aqui, disponibilizada pela Rede de Informações Anarquistas).
O objetivo aqui é convergir meus conhecimentos em Medicina aos conhecimentos construídos por diferentes grupos de street medics¹ ao redor do mundo, movimentos sociais no Brasil e demais pessoas e organizações que tenham experiências práticas em situações envolvendo violência policial. A ideia é ir editando esse texto e adicionando as contribuições de modo a fazermos uma construção conjunta. Esse post e as informações aqui contidas podem ser replicadas, impressas e republicadas livremente para promoção da saúde e segurança em manifestações.
Caso você tenha informações a acrescentar e/ou queira contribuir de alguma forma no aperfeiçoamento desse texto, entre em contato comigo pelo e-mail lauraelisareis@gmail.com.
A Street Medicine
A Street Medicine ou Riot Medicine (Medicina de rua ou Medicina de combate) originou-se nos EUA durante o Movimento dos Direitos Civis e os movimentos anti-guerra nos anos 60. Conceberam a medicina como autodefesa, e deram apoio médico ao Movimento Índio Americano (AIM), Veteranos do Vietnam Contra a Guerra (VVAW), Partido dos Jovens Lordes, Partido Pantera Negra e outras formações revolucionárias dos anos 60 e 70.
Os street medics, ou action medics (médicos de rua, ou médicos de combate), são voluntários com diferentes graus de formação médica que assistem a protestos e manifestações para prestar cuidados médicos, tais como primeiros socorros. Ao contrário dos técnicos médicos de emergência regulares ou paramédicos, que servem a instituições mais estabelecidas, os street medics operam normalmente de uma forma menos formal. Podem tratar lesões causadas por traumatismos, armas de dissuasão química e outras armas de controle de multidões, ataques de animais, bem como cuidados gerais para situações como exaustão por calor, convulsões epiléticas e bem-estar geral.
Fonte: Wikipedia (tradução livre)
No Brasil, não temos uma tradição organizada de Riot Medicine como nos EUA, França e outros países. O que temos por vezes são divulgações por parte de coletivos de materiais que ensinam o autocuidado e segurança básicos para manifestantes, ou pessoas (profissionais ou não) que se prontificam a estar nas ruas para prestar primeiros socorros. Sabemos que, em situações de conflito, pode ser difícil o acesso rápido a serviços de saúde, e até a polícia pode propositalmente atrasar a chegada de ambulâncias. Nesse sentido, as informações aqui reunidas se destinam a direcionar o que pode ser feito, considerando as limitações, no momento que ocorrerem os ferimentos. E vão se dividir entre informações mais gerais direcionadas ao público leigo e informações mais específicas direcionadas a profissionais de saúde e demais pessoas que possuam alguma acurácia ou treinamento para prestar primeiros socorros (como estudantes da área de saúde, por exemplo).
É importante deixar claro que embora haja aqui o objetivo de democratizar o acesso a informações cientificamente validadas e estimular a autonomia no cuidado em saúde, esse protocolo não pretende estimular uma prática irresponsável mediante imperícia. O melhor a se fazer quando não temos o conhecimento ou acurácia o suficiente, é não intervir. Primum non nocere, primeiro não causar dano, é um princípio hipocrático que orienta a prática médica e chama atenção para a importância de sabermos quando o melhor a se fazer é não fazer nada. Nesse sentido, tentarei deixar claro aqui até onde uma pessoa leiga pode agir, e quando é necessária uma avaliação profissional.
Os protocolos
I. Agentes químicos
Os gases CS (alonitrila), CN (cloroacetofenona) e CR (dibenzoxazepina) são os principais gases utilizados pelo aparelho de repressão como gás lacrimogêneo. Trata-se de aerossóis que atuam como irritantes da pele, dos olhos e das vias respiratórias. Já o spray de pimenta (gás OC) é uma substância à base de óleo que contém capsaicina, derivada da pimenta, que é pulverizada diretamente sobre a pele e os olhos.
Esses gases causam, de imediato, lacrimação, dor e até mesmo cegueira temporária. O principal objetivo é incapacitar os manifestantes temporariamente e causar uma sensação generalizada de pânico.
A. Gás lacrimogêneo
— Orientações gerais: Se estiver perto de onde a bomba de gás foi lançada, afaste-se do local, mas tente não correr, assim você evitará respirar mais gás. Provoque tosse e cuspa com frequência. Caso tenha acesso, passe leite de magnésia no rosto e na pele exposta para se proteger.
i. Em baixas concentrações:
— Sintomas: irritações da pele e dos olhos
— Como agir:
Para leigos:
- Se você achar que foi contaminado pelo gás, remova o máximo de roupas possível. Para as roupas que passam pela cabeça, é preferível cortar para evitar o contato do gás com o rosto.
- Olhos: Se você sentir seus olhos ardendo ou visão embaçada, lave-os com solução salina (soro fisiológico, ou água + sal, 1 colher de sopa por litro). Não precisa de ser esterilizada. Na ausência de solução salina, água pura pode ser utilizada. Lavar o máximo possível, com pressão ou fricção suave de água ou solução salina. A pressão da água retirará as partículas do gás lacrimogêneo. Se você usa lentes de contato, remova-as e descarte-as. Não as coloque novamente! Óculos e outros acessórios podem ser utilizados novamente após a lavagem com água e sabão.
- Pele: misturar 9 partes de água para 1 parte de leite de magnésia, ou água com bicarbonato de sódio(1 colher de chá por litro). Passar essa solução na pele e esfregar suavemente para remover o agente irritante. Na ausência de antiácidos, água pura pode ser utilizada.
- Em caso de spray de pimenta, prefira usar água misturada com alguma substância detergente como shampoo de bebê, por exemplo, pois o spray é à base de óleo e será mais difícil removê-lo apenas com água.
- Roupas e acessórios não-laváveis expostos ao gás deverão ser colocados dentro de duas sacolas plásticas. Quando o serviço de emergência chegar, avise-os onde as roupas foram colocadas para que seja feito o descarte correto.
Para profissionais:
- O gás lacrimogêneo pode causar problemas respiratórios ou provocar sibilância. Em caso de sibilância, utilizar Salbutamol 100 ou 200 mcg (1 ou 2 doses), ou a bombinha em uso corrente pela pessoa asmática em situação de crise. Prednisona oral pode ser usada em caso de dispneia grave.
- Queimaduras por gás lacrimogêneo são tratadas como queimaduras convencionais.
ii. Em concentrações elevadas ou com exposição frequente e repetida:
— Pode resultar em incapacidade ou outros sintomas neurológicos: náuseas, vômitos, dores de cabeça intensas, confusão.
— Como agir:
Para leigos e profissionais: Tente abrigar a pessoa atingida em um local mais seguro e menos barulhento, afastado do local de conflito e do gás. Tente manter uma conversa e observe o estado de consciência da pessoa atingida. Ela perdeu a consciência ou se lembra do que aconteceu?
— Para dor: Ibuprofeno 300mg e/ou Dipirona 500mg. Certifique-se sempre se a pessoa atingida não tem alergia e se já fez uso prévio do medicamento.
— Para náuseas e vômitos moderados: medicamentos anti-náusea como Metoclopromida (Plasil) ou Ondansetrona (Vonau). (A Ondansetrona possui a vantagem de poder ser absorvida colocando-se o comprimido embaixo da língua, caso a náusea seja muito intensa e impossibilite a admninistração via oral). Certifique-se sempre se a pessoa atingida não tem alergia e se já fez uso prévio do medicamento.
— Para vômitos graves e incapacidade de manter líquidos ou medicamentos no estômago (risco de desidratação): procurar atendimento de emergência (UPA ou hospital) para hidratação intravenosa e observação.
— Para confusão intensa: Não administrar nada por via oral. Colocar a pessoa ferida na posição de recuperação e chamar uma ambulância.
II. Granadas e outros Dispositivos Explosivos
A. Feridas de Explosão
As feridas de explosão danificam principalmente os ouvidos.
i. Rasgamento do tímpano
— Ocorre raramente na experiência dos street medics.
— Sintomas : dor, sangramento do ouvido, redução temporária da audição.
— Como agir:
Para leigos: Não enfiar, não pingar nada, nem deixar entrar água no ouvido. Evitar tocar o ouvido para prevenir infecções. Não tapar o ouvido ou abafá-lo. Limpar apenas externamente com um pano úmido e procurar atendimento médico em até 24h. Para dor, pode ser usada Dipirona 500mg e/ou Ibuprofeno 300mg, ambos de 8 em 8h, até que seja possível uma avaliação médica.
Para profissionais: Examinar o ouvido com um otoscópio, e avaliar a integridade timpânica. Pode ser receitado um antibiótico de forma preventiva para evitar infecção do ouvido médio e áreas adjacentes. Em qualquer caso, o acompanhamento com os cuidados primários em 10 a 15 dias é ideal para otoscopia e encaminhamento ao otorrinolaringologista se houver anomalia persistente. Um tímpano deve demorar em média 2 semanas para cicatrizar.
ii. Lesão da orelha interna por explosão
— Ocorre frequentemente na experiência dos street medics.
— Sintomas: dor, zumbido nos ouvidos (tinnitus), perda de audição, vertigens ou tonturas.
— O zumbido nos ouvidos não vem do tímpano, mas do ouvido interno! A perda auditiva é o fator guia para a avaliação de gravidade, não o zumbido.
— Como agir:
Para leigos: Teste de audição simples: esfregue o polegar contra os outros dedos ao lado do ouvido da pessoa. Pergunte se ela pode ouvir, e faça o mesmo do outro lado. Se a perda auditiva persistir durante 24 horas após a explosão, procure atendimento médico o mais rápido possível.
Para profissionais: Para evitar ou pelo menos limitar danos auditivos permanentes (resultantes da morte de células no ouvido interno), pode ser indicado um esteróide: a prednisolona no ouvido (0,5mg a 1mg/kg/dia durante 2–3 dias) é a prescrição mais comum. Encaminhe o paciente para um especialista após o primeiro atendimento.
Lembre-se!
— Abrigue a pessoa do barulho externo.
— Não hesite em contatar os prestadores de serviços médicos de emergência se houver algum impacto no funcionamento cognitivo ou danos nos órgãos.
— Uma consulta especializada para ferimentos no ouvido é indicada em 24 a 48 horas.
— Pessoas com ferimentos provocados por explosões devem ser observadas durante vários dias. Os sintomas que indicam complicações podem ser retardados, tais como alterações na audição, na respiração e nas funções abdominais.
B. Feridas de estilhaços
As feridas de estilhaços ocorrem frequentemente, na experiência dos street medics. Os estilhaços são frequentemente de plástico; às vezes são de metal. No impacto com o asfalto, as granadas de concussão podem impulsionar a sujidade e o asfalto juntamente com os estilhaços; isto aumenta o risco de infecção. Por vezes, as feridas de entrada são pequenas, mesmo minúsculas. Por vezes, são grandes e óbvias. Os ferimentos com estilhaços podem ser graves mesmo que não pareçam ser grandes. O exame, a observação e o acompanhamento são vitais.
NUNCA se aproxime ou pegue uma lata que ainda não esteja fumando. Pode ser uma granada de concussão com a capacidade de rebentar com a mão.
Examine e avalie a largura e a profundidade da ferida antes de se apressar a enfaixá-la!
Tratamento por área de lesão:
i. Tórax, abdómen, face
Para leigos: Trata-se de uma situação potencialmente emergencial, que, caso se trate de uma ferida muito extensa, haja muito volume de sangramento ou outros sintomas como perda de consciência, dor intensa, dificuldade para respirar, deve-se buscar assistência médica o mais rápido possível.
Para profissionais: Avaliar a angústia do sistema respiratório/neurológico/cardiovascular e a extensão do sangramento. Mensurar frequências cardíaca e respiratória, aferir pressão arterial, avaliar a simetria da fotorreatividade pupilar, avaliar o estado mental de forma simplificada (observar a atenção, a reação a estímulos externos, a noção de tempo e espaço). Encaminhar para um serviço de emergência na presença de sinais de alarme como hipotensão, esforço respiratório, sudorese, confusão mental ou perda de consciência.
ii. Extremidades
Para leigos: Procure por articulações danificadas ou danos nervosos. Danos nervosos requerem hospitalização imediata! Verifique pulso, movimento e sensação acima e abaixo da ferida; compare os membros uns ao lado dos outros para referência. Procure por paralisia, fraqueza ou dificuldades de amplitude de movimento. Entorpecimento, formigamento, ou sensação de picada ou de agulhamento podem indicar lesão nervosa.
Para profissionais: procure por possíveis lesões tendinosas especialmente nas mãos e nos pés. A amplitude normal do movimento não significa que não haja danos nos tendões. Sintomas/sinais: Lesões visíveis do tendão no fundo da ferida, ou suspeita de lesão tendinosa baseada na anatomia. Na suspeita de lesão tendinosa, encaminhe para um serviço de emergência.
Tratamento por tamanho de estilhaços
i. Corpo estranho de grandes dimensões numa ferida de grandes dimensões
— Ocorre pouco frequentemente
— Como agir:
Para leigos e profissionais: Não tentar remover o corpo estranho, pois isso pode causar uma hemorragia, não cobrir nem tentar higienizar ou aplicar nenhuma medicação na lesão. Tentar manter a ferida protegida de poeira e sujidades. Procurar um serviço médico de emergência o mais rápido possível.
ii. Pequena ferida perfurante que parece benigna mas com profundidade desconhecida
— Ocorre frequentemente
— Como agir:
Para leigos e profissionais: Limpeza, curativo e acompanhamento. Monitorar de perto para detectar infecções.
Tratamento localizado:
A compressão direta parará a hemorragia na maioria das vezes.
Cada pequena ferida aberta requer higienização básica! Deve-se lavar as mãos com água e sabão, e se possível usar luvas para procedimento não cirúrgico para proteger-se do contato com secreções e sangue do outro.
Limpeza e secagem:
— Lave a ferida com água e sabão antes de fazer qualquer coisa (ou com soro fisiológico, se não houver água e sabão disponível).
— Seguir com água oxigenada (peróxido de hidrogênio), que tem a vantagem de espumar e pode, por vezes, extrair pequenos pedaços de estilhaços.
— Se o corpo estranho for pequeno ou difícil de ver, use pinças esterilizadas para tentar remover. Não é grande coisa se ficar dentro, mas normalmente vale a pena tentar removê-lo. O corpo ou rejeita naturalmente pequenos pedaços, como lascas, ou cria um tampão à sua volta. O dano é feito quando os estilhaços entram no corpo; o risco adicional é a infecção.
Utilizar, se possível, pinças médicas. As pinças normais (para remoção de pêlos) são demasiado grandes e podem machucar a pele e agravar o ferimento.
Desinfete com antissépticos:
Caso tenha disponível, desinfete a ferida com Betadina amarela ou iodopovidona (podem ser facilmente encontrados em farmácias). Não é um passo imprescindível, mas útil na prevenção de infecções.
Curativo:
— Ferida superficial, com hemorragia controlada, de bordas regulares, sem inchaço e vermelhidão, sem aumento da temperatura no local:
- Adequar o curativo ao tamanho da ferida;
- Remover ao máximo as secreções, corpos estranhos e tecido necrótico;
- Curativo convencional
- Ação: mantém a umidade da ferida, favorece o desbridamento autolítico e a formação de tecido
de granulação. Amolece os tecidos desvitalizados.
- Indicação: manutenção da umidade da ferida.
- Umedecer as gazes de contato com solução fisiológica a 0,9% o suficiente para manter o leito da ferida úmida até a próxima troca, ocluir com gazes estéreis e secas. Fechar os curativos primários cobertos com gaze ou compressa, fazendo uma proteção da pele do paciente com adesivo microporoso e vedar com esparadrapo comum, para manter o meio úmido.
— Ferida profunda, escorrendo sangue ou pus: procurar serviço médico de emergência (UPA ou hospital).
Trocas de curativo:
— As trocas deverão ser feitas conforme a saturação das gazes e a umidade da ferida ou no máximo a cada 24 horas.
— Lavar com soro fisiológico. Não voltar a aplicar anti-sépticos, pois isso pode atrasar a cicatrização.
— Monitorar sinais de infecção, que incluem vermelhidão, inflamação, pus e secreções, ou febre. Na presença desses sinais, procurar atendimento médico.
III. Ferimentos de bala de borracha
— Orientações gerais: As lesões por bala de borracha deixam frequentemente um grande hematoma. Se houver suspeita de trauma que exija cirurgia, não administrar nada por via oral. Não beber, não comer, não fumar.
A. Por localização
i. Grandes contusões nas extremidades
— Como agir:
Para leigos e profissionais:
— Avaliar o estado neurovascular: Pulso, movimento, sensibilidade e cor. Se houver alguma anomalia, procurar um serviço médico de emergência. Se suspeitar de fratura, imobilizar a lesão.
— Em caso de dor, pode ser usada Dipirona 500mg e/ou Ibuprofeno 300ng, ambos de 8 em 8h. Os hematomas podem ser tratados topicamente com gel de Arnica (Arnica montana) para alívio da dor.
Para profissionais:
— Palpar os ossos para detectar dor ou crepitação. Testar cada articulação quanto ao intervalo de movimento. Se não conseguir excluir uma fratura, encaminhe para um serviço médico de emergência. A suspeita de uma fratura deslocada (encurtamento, etc.) requer uma radiografia imediatamente.
ii. Impacto Facial
— Como agir:
Para leigos e profissionais:
— Palpar os ossos faciais à procura de dores pontuais que possam indicar fratura: orbitais, nariz, processos zigomáticos, mandíbula, queixo, articulação dentária (fechamento e alinhamento). Examinar cada dente.
— Para dentes que estejam partidos, em movimento, sem assento ou dolorosos, consultar um dentista o mais rápido possível. Conservar o dente em leite, soro fisiológico ou saliva. O ideal seria que a pessoa ferida o levasse na boca, tendo o cuidado de não engolir.
— Fazer uma Avaliação Neurológica Simples da Face:
- Comparar sensação em ambos os lados da testa, bochechas, queixo
- Movimento: simetria no sorriso, olhos simétricos quando bem fechados, movimento dos olhos (nos dois sentidos, vertical, horizontal), pupilas iguais, redondas, reativas à luz e acomodadas.
Se houver alguma anomalia, procurar um serviço médico de emergência.
iii. Impacto ocular
— Como agir:
Para leigos e profissionais:
— Não administrar nada por via oral. Não beber, não comer, não fumar.
— Lavar a zona com soro fisiológico esterilizado.
— Deitar a pessoa e cobrir os dois olhos com compressas esterilizadas e chamar uma ambulância.
iv. Impacto do nariz
— Como agir:
Para leigos e profissionais:
— Em caso de sangramento nasal:
Apertar a ponte do nariz entre dois dedos,com o pescoço inclinado para a frente.
Para grandes quantidades de perda de sangue, ou suspeita de fratura, chamar uma ambulância ou encaminhar para um serviço de emergência.
v. Impacto no tórax
— Como agir:
Para leigos:
— Dor intensa e/ou persistente pode indicar uma costela partida ou lesão pulmonar. Buscar atendimento médico.
Para profissionais:
— Sinais de fratura da costela sem pneumotórax: dor localizada à palpação ao longo da linha do esterno. Dor com inalação profunda sem angústia respiratória ou tosse. Encaminhar para um serviço médico de emergência.
— Sinais de pneumotórax: angústia respiratória, dor e tosse, por vezes cuspindo sangue (hemoptise). Monitorar a frequência respiratória e acompanhar até um serviço médico de emergência o mais rápido possível.
vi. Impacto abdominal
— Como agir:
Para leigos: Atentar-se a sinais de indisposição, fraqueza, dores de cabeça, suor excessivo, aceleração do coração, dores abdominais, mudanças na frequência fecal ou urinária, mudanças no aspecto das fezes ou da urina (fezes em “borra de café” podem indicar presença de sangue)
Para profissionais:
— Checar sinais de hemorragia interna (choque) tais como palidez, fraqueza, sudorese (transpiração), taquicardia com pressão arterial normal.
— Fazer um exame abdominal, palpar ao redor do fígado e do baço. Mediante qualquer anormalidade, encaminhar para um serviço médico de emergência.
— Os sinais tardios incluem pressão arterial baixa, alteração do estado mental, perda de consciência.
— Manter em observação durante várias horas.
— Sangue nas fezes (melena), dores abdominais ou febre, suspeita de peritonite: encaminhamento imediato a um serviço de emergência.
Demais orientações de Saúde e Segurança úteis para manifestantes:

ANTES DE SAIR DE CASA
- Prefira vestir roupas que cubram a maior parte do corpo (calças, camiseta de manga compridas, sapatos fechados e confortáveis para a caminhada, etc.) — elas oferecem maior proteção da pele contra o sol e um possível contato com substâncias irritantes como gás lacrimogênio e spray de pimenta, além impedir a visualização de tatuagens ou outros sinais que possam facilitar a identificação dos militantes pelo aparelho repressor;
- Prepare uma mochila/bolsa leve, fácil de carregar com os seguintes itens:
− Documento pessoal;
− Camiseta para troca em caso de exposição a substâncias irritantes;
− Garrafa com água para consumo;
− Garrafa (com a qual seja possível esguichar) com água −Frasco com soro fisiológico (solução salina estéril a 0,9%);
−Leite de magnésia e/ou shampoo de bebê, para diluir em água e aliviar a ardência provocada pelo gás lacrimogêneo ou spray de pimenta
− Alimento de rápido consumo (bolacha, fruta);
− Frasco com Álcool em gel;
− Máscara de reserva (trocar se tiver úmida, ou após 2h de uso);
− Sacos ou sacolas de plástico para guardar roupa ou materiais sujos (máscara usada…)
OBS: Se você for asmático, carregue sua bombinha sempre com você
- Faça uma refeição;
- Lave as mãos antes de colocar sua máscara.
NA MANIFESTAÇÃO
- Mantenha um distanciamento mínimo de 2 metros entre as pessoas;
- Use sempre sua máscara cobrindo nariz e boca o tempo todo (máscara não é babador e não a retire para falar). Evite manipulá-la e se precisar
fazer ajustes ou trocá-la, segure-a pelas tiras; - Não fique sozinho(a)! Fique em duplas ou trios, de preferência com pessoas conhecidas e combine locais para encontro, caso se separem;
- Filme ou fotografe pessoas que estiverem em situação de perigo;
- Em caso de intervenção que envolvam “armas não
letais”:
− Não tente se aproximar para argumentar ou impedir os disparos; saia do alcance de tiros e bombas o mais rápido possível e de forma segura;
− Se você cair no chão, seja por fuga desordenada ou agressão, “enrole-se como um tatu”, encolhendo as pernas sobre o abdome e o rosto sobre o tórax, abraçando a cabeça; isso irá minimizar possíveis danos a órgãos internos, face e cabeça;
− Em caso de tumulto se afaste sem dar as costas para a multidão, procure um abrigo na primeira oportunidade;
− Evite deitar ou ficar sentado para não deixar o rosto no ângulo do disparo (disparos não letais geralmente são direcionados para atingir a
região abaixo da cintura); - Higienize as mãos com álcool em gel sempre que tocar objetos ou pessoas.
DEPOIS DO ATO
- Dispersar rapidamente do local da manifestação: saia em grupos, sempre mantendo o distanciamento de 2 metros.
- Cuidados ao chegar em casa:
− Higienizar sapatos, garrafas de água, mochila, chaves, celulares (tudo o que trouxer da rua);
− Lavar as roupas, máscara e protetor facial;
− Tomar banho completo com lavagem de cabelos. Se teve contato com produtos químicos (gás, spray de pimenta), enxague seu corpo com água fria por pelo menos 3–5 minutos (a água quente ajuda na absorção do produto químico podendo causar irritação na pele). - Caso tenha algum sintoma relacionado à COVID-19 procure um serviço público de saúde!
Aqui estão algumas fontes para mais informações sobre a história e a prática da medicina de rua:
(Sempre priorize fontes que estejam atualizadas e baseadas em evidências.)
- A Brief History of Modern Street Medics (Uma Breve História da Medicina Moderna de Rua)
- Street Medics: Keeping Our Movements Healthy and Safe (Médicos de rua: Mantendo os nossos movimentos saudáveis e seguros)
- Where to find your local medic collective (Onde encontrar o seu coletivo médico local) — O link nem sempre está atualizado, mas oferece um bom ponto de partida.
- Rosehip Medics, um coletivo de longa data, que oferece uma variedade de informações no seu website — desde “Health and Safety in an Insurrection and Pandemic” (Saúde e Segurança numa Insurreição e Pandemia) até brochuras gratuitas sobre alternativas aos serviços médicos de emergência.
- Paper Revolution, esclarece algumas formas de se tornar um street medic e oferece links para informações práticas mais detalhadas, como o seu “Street Medic Guide” (Guia de Medicina de Rua) ou o “Riot Medicine Guide” (Guia de Medicina de Motim).
Notas de rodapé:
¹ Optei por manter os termos originais e não traduzi-los como Medicina de rua ou médicos de rua ao longo do texto por já existir no Brasil a tradição dos denominados médicos de rua, que são profissionais que prestam atendimento de saúde às populações em situação de rua.
Referências extras utilizada na construção desse texto:
CUIDADOS DE SEGURANÇA E BIOSSEGURANÇA PARA ATOS EM TEMPOS DE PANDEMIA, da Frente Goiana Contra A Privatização da Saúde
Livro Riot Medicine, do médico Hakan Geijer (baixe aqui gratuitamente)
https://emergency.cdc.gov/agent/riotcontrol/factsheet.asp
http://www.pbh.gov.br/smsa/biblioteca/protocolos/curativos.pdf
Agradecimento especial à Letícia Siqueira que fez a revisão dos protocolos






