O que Bolsonaro simboliza? PARTE 1

É 2018 e, segundo os cavaleiros do apocalipse de minha timeline, o fim dos tempos está próximo. Se aproxima desta terra fértil e feliz, mãe do mico-leão-dourado, da arara azul e outros tantos rebentos da natureza, uma nuvem negra no horizonte.

Essa nuvem vem carregada com violência e ódio, disparando aqui e ali, entre o primeiro e o segundo turno, sempre antes de um talkay, trovoadas de fascismo e nazismo. E a violência, segundo nossos cavaleiros, vem crescendo e manchando paredes com pichações bem-feitas e rabiscando de caneta BIC o bucho de pessoas com o radical símbolo do budismo.

É óbvio, segundo eles, que estamos sendo levados pela onda do fascismo, do ódio, do totalitarismo. Ainda mais porque essa onda inaceitável, que só não afetou parte do nosso amado Nordeste (talvez a onda tenha se desfeito na seca, sabe-se lá…), varreu o país como um tsunami, impulsionado por nossas tias e avós nos grupos do Whatsapp.

Se alguém dormisse há 2 anos e acordasse hoje já começaria a estocar comida e pagar promessas. Ainda mais se descobrissem que estão diante de um lugar onde as taxas de homicídio dão inveja ao Hezbollah, que o porte de armas foi banido das ruas junto com o porte de celular, surrupiados aos milhões, e que o desemprego subiu tanto que conseguir assinar a carteira ficou tão raro quanto capturar o Mewtwo no Pokémon Go.

E, aparentemente, foi exatamente o que nossa mídia e nossos queridos justiceiros sociais, dorminhocos, fizeram. Nossos compatriotas dormiram por tanto tempo que, agora que abriram os olhos para o Brasil real, projetam a culpa em uma pessoa que, até esses mesmos dois anos atrás, não passava de uma figura periférica que tinha destaque ou nas discussões internas do PT ou nos protestos, nada higiênicos, do PSOL. O ódio e a violência do país antes governado por 13 anos de PT estão agora sintetizados na face do ex-paraquedista.

Entretanto, para quem se manteve acordado, sabe que a coisa não é bem assim. Muito antes de Bolsonaro dar o ar da graça em sua campanha presidencial esses vigilantes, que se recusaram a entrar no torpor da vida intelectual brasileira, viram pessoas apanhando muito antes das eleições começarem.

Quem teve o desprazer de ficar acordado viu gente que, só por estar com camiseta do capitão (ou coiso, se preferir), levar muito chute no lombo; viu outros tantos levarem uns bons tapas na cara por balançar a bandeira do Brasil e, as vezes, só por perguntar quanto rende o FGTS. Viu gente intimidada só por querer passar alguns filmes em faculdade e impedida de falar em espaços públicos sobre a filosofia de um senhor da Virgínia.

Para quem se manteve ainda mais atento, viu gente sofrendo do mal de não conseguir segurar a saliva em face do adversário político; viu comissões da verdade que só ouviram um lado; viu e ouviu proclamarem sem frivolidades que ia “morrer gente” caso um famoso degustador de aguardente fosse preso; e ficou estarrecida ao ouvir, antes de fervorosos aplausos, que, para combater a “onda conservadora”, era necessário “um bom paredão, uma boa espingarda e uma boa bala”. E tudo isso, e para quem acordou agora pode ser até surpresa, foi feito justamente por quem, hoje, diz que Bolsonaro simboliza a violência, o ódio, o totalitarismo, a ditadura e a mentira (me recuso a falar Fake News). Simboliza mesmo?

Tenho para mim que não se deve dar muita atenção para um economista que esteja falido ou um advogado que esteja preso, e é por razões de senso comum deste tipo que tenho a insistência de duvidar dessa gente que, depois de tanto desfeito, chama alguém de totalitário. Talvez eu esteja errado, mas deixo aqui meu raciocínio para que o leitor possa analisar o meu ponto de vista:

Pelo bem da lógica, uma análise deve ser feita não levando em conta só a narrativa do momento, mas uma progressão histórica dos membros ativos dos quais se faz a análise. Analisar falas isoladas é tão eficaz para entender o que está se passando quanto analisar o discurso da Dilma: É algo tão desconexo que podemos dar o sentido que quisermos, e fazer isso só aumenta o risco de encararmos a situação de forma histérica.

Ficar pegando frase solta é como quebrar um vaso para analisar suas partes. No monte de cacos do vaso quebrado vão existir uns pedaços bem formados, com formas mais arredondadas e outros mais pontiagudos, grotescos, mas nenhum deles, isoladamente, terá um sentido final. Enxergar o vaso por trás desses pedaços quebrados é simplesmente impossível a primeira vista, do mesmo jeito que é impossível entender alguém só a partir de algumas frases soltas.

A única informação que se tira desse vaso quebrado é que aqueles cacos formavam algo anteriormente, antes de serem espalhados. Nem mesmo dá para saber, a princípio, só a partir dos cacos, se era ou não um vaso que antes existia ali. Aqueles vestígios podem ser tanto de um vaso quanto de um bule de chá. O mesmo vale para as frases soltas: Podem ser tanto de um ditador quanto de um democrata, tanto de um louco quanto de um santo.

A vida de qualquer pessoa tem uma unidade. A tensão das ações dessa pessoa une esses cacos todos e dá pro conjunto um sentido, ou seja, a partir da vida e ação dessa pessoa na sua história, você consegue observar quais serão suas possíveis ações futuras. Seus vícios e suas virtudes.

Bom, fica fácil a partir disso concluir que é necessária uma narrativa histórica da pessoa para podermos ver qual caminho ela provavelmente seguirá. E qual é essa narrativa histórica do capitão?

Bolsonaro tem em seu currículo uma vasta vida pública como soldado e como parlamentar. Só na política são 26 anos.

Em sua vida política, Bolsonaro cansou de bater no governo por seu apoio as tantas ditaduras que o PT tinha tara em ficar amiguinho, esbravejando sozinho por vezes contra nosso suado dinheiro aparecer, sem prestação de contas, nas ilhas de Cuba, no bolso dos “democratas” venezuelanos e bolivarianos, incentivando democracias tão pujantes e exemplares como as da Angola, Zimbábue e Congo.

Se já não bastasse aumentar o ibope da TV Câmara com sua presença, ele concorreu em todos os pleitos de forma democrática, passando pelo processo eleitoral e recebendo do povo da nossa antiga capital as votações mais expressivas, que concediam as devidas permissões legais para por fim ao kit-gay e tocar suas discussões na câmara com o PT e o ex-BBB.

Têm em sua conta 170 projetos apresentados, com dois aprovados (sendo um para diminuição de imposto e outro para liberar um medicamento contra câncer), aprovando também sua emenda para o voto impresso (ditatorial, não?) além de participação em outros 300 projetos (85% dos deputados não tem nem um mísero projeto aprovado).

Quantos desmandos? Quantas tentativas de censurar mídia, diminuir poder judiciário, censurar internet, etc., fez o capitão nesses últimos 26 anos? Nenhuma. Não fica difícil diante dos fatos, que nossos proclamadores do fim dos tempos insistem em ignorar, concluir que suas próximas ações só podem ir no mesmo sentido das que ele já tomou: democracia, com voto impresso e tudo.

É claro que “bateu muita canela” com suas declarações polêmicas, mas diante de seu histórico fica fácil encaixar essas peças soltas no quebra-cabeças: Suas falas, as mais totalitárias que temos registro, se encaixam no todo não como desejos reais de um assanhado por poder, mas como desabafos sinceros de um brasileiro cansado. O homem que, de saco cheio dos desmandos desse nosso Brasil, chuta o balde. E chuta com vontade. Mete a bica.

E essa análise que fiz o povo faz sozinho. A coisa é tão visível pro povo que nem precisam pensar nisso. O povo só sabe, por uma espécie de intuição nebulosa que rodeia a cabeça do brasileiro comum que o cara que está contra o sistema a tanto tempo, lutando contra o PT praticamente sozinho, defendendo seu direito à legítima defesa e sua segurança por anos a fio, não é nenhum louco ditador. Infelizmente essa intuição nebulosa não rompe as barreiras das teorias econômicas e sociais que nossa mídia e nossos intelectuais levantaram sobre si. Mas o povo sabe, e é isso o que importa.

O povo tanto sabe que faz campanha, gasta dinheiro, sai pra rua e, de certa forma, faz a democracia do Brasil respirar. Pessoas aposentadas, responsáveis por mover o tão específico mercado da Corega, insufladas contra a sombra negra do socialismo, tomam a bandeira do capitão e conclamam por Whatsapp suas amigas da terceira-idade para as armas. Ou melhor, para as urnas.

Como podem, diante de tanta democracia, de tanto movimento, de tanta vida, dizer que este homem simboliza a ditadura, o retrocesso, o ódio? Que ditadura é essa donde seu líder propõem voto impresso, armamento civil e fim de reeleição? Que retrocesso é esse que leva tanta gente a gritar e exercer seus direitos de cidadão, antes presentes só em livros de história? Que ódio é esse que, depois de levar milhões de brasileiros para as ruas, não encontramos indício de violência ou desordem? E olhando para os atos concretos o vaso vai ganhando forma, a histeria vai dissipando.

O homem que fez minha mãe, depois de 20 anos pagando multa, sair de casa para votar, é o homem que simboliza o renascimento de nossa vontade popular. É o homem que simboliza, tanto para quem o odeia tanto para quem o ama, a vontade de tomar as rédeas daquilo que nunca deveria ter saído de nossas mãos: A democracia brasileira.