Autismo e Fantasia

Dom Quixote, por leventep.

Quando recebi o possível diagnóstico de Autismo no meu filho, um monte de coisas passou pela minha cabeça, um reset de expectativas, muita pesquisa no google, tudo numa tentativa de aprender mais sobre o autismo e tentar me preparar para fazer meu trabalho: ser o melho pai. Ah, e peço desculpas se houver algum equívoco, meu conhecimento é prático e um pouco pesquisado, e as minhas intenções são as melhores. Mesmo.

E tenho que admitir uma das coisas que mais me chateou, principalmente por ser um escritor de fantasia, sempre havia nos artigos e sites a frequente limitação na parte da fantasia, de ler ficção, da dificuldade do brincar (de casinha, carrinho, a questão do imaginar).

Auri e Kvothe, por Manweri

Mas o ser humano é incrível, nos mesmos artigos e profissionais que falavam sobre as limitações e características do TEA (Transtorno do Espectro Autista), também mencionavam os benefícios de um diagnóstico precoce, e da plasticidade do cérebro, de contornar as limitações e criar atalhos para facilitar o desenvolvimento de habilidades. Assim, ensina-se a falar, olhar nos olhos, comunicar, e ensina-se o prazer disso, a alegria em um bom dia, a felicidade em se fazer compreender e, principalmente, em compreender. Vejo, no caso do meu filho, uma evolução enorme no quesito brincar, de identificar uma pelúcia do Bidu na animação da Turma da Mônica, de cantarolar as músicas do Thomas ao falarmos de trens, de dar comida para as bonecas dele. Nós podemos, enfim, limitar as limitações, não deixando que sejam elas a definir o indivíduo.

Lisbeth Salander, por alicexz

E isso tudo me fez voltar à questão da fantasia.

Como leitor, eu vejo vários personagens com características que remetem imediatamente ao TEA: Lisbeth Sallander (Millenium: Os Homens Que Não Amavam as Mulheres —Stieg Larson), Auri (O Nome do Vento — Patrick Rothfuss) e Renarin (The Way of Kings — Brandon Sanderson), além de vários outros. Personagens que tem as características mais ou menos evidenciadas, talvez exageradas em alguns pontos (ou não tanto), mas estão ali, características que vemos nos nossos filhos e conhecidos, um reconhecimento e imediata simpatia. E mais que isso, um orgulho, pois alguém notou e falou sobre isso. Alguém que eu admiro pra caramba.

Além disso, mais recentemente, a Blizzard confirmou uma suspeita de alguns fãs. Uma personagem, Symmetra, do jogo Overwatch, tinha algumas falas e atitudes peculiares características, não demorou para os comentários surgirem, levantando o questionamento à empresa, que confirmou o autismo da personagem. Algo que deixou a comunidade gamer feliz, e me deixou, como pai, orgulhoso!

Então eu me toquei que esse pode ser um caminho para o tratamento, seja de crianças, adolescentes ou adultos: a representatividade. Perceber algo de si no personagem lido, algo tão íntimo que faz parte do que o define, faz uma diferença enorme. A identificação e empatia pode ajudar demais na imersão, em entrar na história, participar e conseguir transcender o significado do texto para algo pessoal, o personagem funcionando como uma base, uma âncora para ele dentro da história, um lugar familiar onde ele se sinta seguro.

Bem, é muito difícil para um artista trabalhar a representatividade? Tentar sair de dentro de si e entender o outro? De modo íntimo, crível e natural? Com embasamento e pesquisa? Sim. Muito. Muito mesmo. E isso, eu acredito, é algo que motiva muitos artistas. Então é um pedido meu, um chamado coletivo, não para uma antologia, mas sim algo livre, sem limites: faça uma arte para um autista. Escreva um pequeno conto para uma criança, crie uma canção especial, afirme um personagem seu com TEA. Você pode ser um agente de mudança, é só fazer a boa arte, e sei que ama isso.

Eu vou trabalhar o máximo possível para isso, na minha página e nos meus textos. O Dia Mundial de Conscientização do Autismo está chegando, é no dia 02/04 e, atualmente, mais de 1% das crianças nascem com algum nível de TEA, o que representa muita gente. Muita gente mesmo. E uma ação sua hoje pode fazer toda diferença.

E, se você gosta de livros, quadrinhos, e ilustrações, faça uma análise das artes que consome, dos textos que lê, dos artistas que admira, o TEA é algo muito presente e, as vezes, por ignorância podemos gerar um preconceito.

A empatia e podem ajudar a quebrar vários limites e barreiras. Participe.

#FantasiaParaAutistas