Conversa banguela
Na faculdade de Biologia, aprendemos a importância evolutiva dos dentes do siso — algumas pessoas já até nascem sem eles e ainda há quem não acredite na evolução — e é comum que biólogos não queiram tirá-los, caso tenham espaço e não incomodem.
Depois de morder muito a bochecha inchada e passar alguma dor, eis que me rendi. Agendei com o dentista e combinamos de extrair dois de cada vez. No primeiro dente, após algumas picadas de anestesia no céu da boca, ele avisou que sentiria uma forte pressão. Nas primeiras puxadas, ouvi o barulho das raízes sendo arrancadas de minha mandíbula, onde viveram por tanto tempo. Crack. O barulho vinha de dentro de mim. Parecia que além de meu siso, meu encéfalo sairia junto.
Terminada a segunda extração, sinalizei para tirar os outros dois. Não teria coragem para voltar a esse sadismo. Que me levasse logo os quatro dentes de uma vez. Finalizada a operação, vieram as recomendações: repouso absoluto, alimentos líquidos e gelados, não falar e não rir. Achei curiosa esta última, em uma época que somos cobrados o tempo todo de estarmos felizes e sorrindo — finalmente tinha meu álibi.
As dores incomodam, e sou péssimo em manter a regularidade para tomar a medicação no horário certo. Sempre atraso pelo menos uma meia-hora, não sou uma pessoa exata. Mas o mais difícil foi não poder falar. Não que eu seja de falar o tempo todo e com todo mundo, mas à noite gostamos muito de conversar em casa. E justo nesses dias eu tinha tanto para compartilhar, mas não tinha como. É claro que um papel e uma caneta, ou mesmo o bloco de notas do celular, ajudam, mas, ainda assim, não transmitiam exatamente o que precisava. Depois de um tempo recuperado, uma travessura de nossa gata arrancou minha primeira palavra. Fomos pegos de surpresa, porque eu não estava preparado para falar, nem meu marido para ouvir. Mas como resposta ele me disse como é bom ouvir tua voz de novo.
Mesmo que apenas por alguns dias sem falar, percebi que não há tecnologia que substitua totalmente o diálogo. Chats são práticos (deus me livre atender uma ligação), e-mails evitam reuniões desnecessárias, emojis e memes expressam aquilo que não sabemos como dizer, ou estamos com preguiça de articular. E, sejamos sinceros, é quase impossível ficar sem olhar se há atualização em alguma rede social por muito tempo. Mas se estamos sempre mandando mensagens, porque ainda sentimos que não somos ouvidos?
Talvez a resposta mais fácil seja culpar a geração millennial, afinal, crescemos sem saber o que é uma conversa sem interrupção. Mas sinto mais dificuldade em falar com pessoas mais velhas, que parecem estar vivendo a adolescência da internet. Se antes o principal motivo das brigas em casa era porque não desgrudávamos do computador, hoje é a geração dos nossos pais que não larga os smartphones e suas incansáveis mensagens de bom dia nos grupos.
Também temos um novo fenômeno para responsabilizar, o FOMO (Fear of missing out — ou o medo de ficar por fora quando estamos desconectados). Mas podemos, por outro lado, fazer um mea culpa e assumir que parte disso se deve ao hábito que perdemos de conversar cara a cara. Mesmo quando temos essa oportunidade, algumas vezes, abandonamos momentaneamente a conversa para olhar o celular, e fica difícil para o interlocutor saber se foi ouvido, já que o elemento essencial da comunicação ficou ausente: a empatia.
A tecnologia não é o problema, mas, para variar, a maneira como a utilizamos. Talvez aquele áudio infinito no whatsapp seja a prova de que estamos em busca de reconciliação entre os velhos e os novos hábitos, entre uma ponte que diminua o choque das gerações. Porque a fala, esse recurso milenar, ainda é necessária e (ao contrário dos sisos) está longe de acabar.
