— lucas, 02:11
Existia esse lugar onde as coisas não davam errado. Era variável e você olharia para ele, vendo o que quisesse ver.
E eu, eu vi um lugar onde guardar o que restava de ti, era o apropriado. Salvar o resto da alma que eu nem tenho certeza de que ainda estava ali. Me perguntei várias vezes, em incontáveis noites nas quais o sono não me vinha, se você teria feito o mesmo consigo se estivesse em meu lugar. Se você teria se salvado de forma tão covarde quanto eu quis fazer. É ruim chegar ao ponto em que percebi que por você, estou cega. Presa num amor que não me deixa ver o que é experiência e o que é desgaste, presa num sentimento em que meu coração quase parte o peito a cada vez que te assisto afastar, me dando acesso a quase nada, ou menos que isso.
É como uma tontura e em algumas horas ela bate mais forte que em outras, quando eu consigo respirar sem temer que você morra a qualquer segundo porque não estou te observando sentar de um jeito que não machuque tanto sua coluna daqui uns anos. É algo misturado, vem do desespero a uma felicidade sem explicação só de pensar que você está animado com algo que possa acontecer.
Nesse lugar, onde as coisas não davam errado, não existia espaço para mim e por isso eu escrevo agora chorando pelo tecido da roupa mais nova que tenho. Não existia espaço para mim porque eu dei errado há tempos antes de você sequer entender que minha presença não é tão necessária quanto todos gostaríamos que fosse. E para te salvar, eu teria que te dizer adeus, eu terei que te dizer adeus.
Às vezes, eu assemelho às dores de cabeça que sinto quando o sol bate muito forte em meus olhos quando saio da sombra. Aqueles poucos instantes de agonia por não saber o que fazer enquanto a dor não me deixa abrir os olhos e meu corpo me protege de qualquer risco que possa vir a aparecer. Eu sou a agonia que não te deixa abrir os olhos e o corpo que te protege de qualquer risco.
Peguei-me acordando às madrugadas em que o sono me visitava, pensando no que poderia fazer para melhorar as coisas e tentar fazer com que o seu estrago fosse menor que o meu e o lugar onde as coisas não davam errado ainda pudesse recebê-lo. Por vezes, deitei-me novamente sem alternativas de muito sucesso que fizeram com que o travesseiro molhasse pelo choro de incapacidade que eu chorara tantas vezes, com medo da sua salvação ser abandonada por tornar-se impossível.
É uma sensação diferente do que estou acostumada e entender que ela existe aqui foi como um verdadeiro soco no estômago. Ainda hoje, algum tempo depois de perceber, consigo sentir o gosto do sangue na boca de tão surpreendente que foi. Eu poderia passar alguns dias sem comer e dormir e ainda assim servir sua comida antes da minha somente para garantir que quando estivéssemos satisfeitos, você estaria bem e poderia deitar-se para descansar, mesmo que isso significasse que eu precisaria ficar de olhos abertos esperando para quando você estivesse completamente bem e recuperado. Mesmo que significasse não mais dormir, já que você não ficaria completamente bem. Já que você nunca ficará recuperado.
Não entendi bem quando disseram que era avassalador e que as coisas mudavam de sentido. Não fiz questão de me preocupar e não lembro de terem falado algo sobre o lugar onde as coisas não davam errado e o quanto ele era tudo que eu pensava para você o tempo todo. Não lembro de nada disso e talvez, se me contassem há muito, eu risse, duvidando de uma realidade tão estranha e bizarra, onde nada parecia ter algum senso racional.
Olhar onde estou agora é até engraçado. Esse amor é tanto que eu aprendi a disfarçar o choro pra que você não precisasse ouvir da minha boca que as coisas estavam bem, sem entender a dor que via em mim e sem respostas, forçado a viver uma ilusão que não posso nos dar o luxo de ter. O lugar onde as coisas não dão errado pode ainda o receber, caso você não perceba a dor. Ao menos, a minha.
É uma pena que hoje eu tenha ficado sem dormir mais uma vez e ouvido as músicas que me lembram você, assustada com a possibilidade de que você não esteja mais aqui amanhã e eu não tenha te abraçado da última vez que pude, levando-me aos choros costumeiros das madrugadas insones; é uma pena que eu tenha respirado fundo em algum momento e entendido que não lembro de falarem do lugar onde as coisas não dão errado, porque ele não existe e dói assumir que não poderei te levar, mesmo que significasse dizer adeus para mim e minhas coisas que deram errado; é uma pena que todo esse amor que eu sinto, não impeça as dores que a vida vai te causar.
Sinto muito, eu amo você.
