Esse texto é sobre muitas coisas, algumas que ainda não se revelaram. É sobre mim e minha mãe. Talvez seja sobre você e mais alguém também.

Nós, mulheres, somos o outro. Aprendemos todos os dias a nos orientar pelo masculino, a construir nossas vidas, desejos e objetivos de maneira que a experiência masculina seja aprimorada. Então, é óbvio que essa orientação irá transparecer nas coisas mais simples e cotidianas, como em filmes e séries, causando a famosa falta de representatividade.

A falta de uma referência acessível das relações mãe-filha é uma delas. Quão raro é ver a representação de uma relação profunda entre duas mulheres que não é sexualizada ou competitiva? É sobre uma dessas representações que quero falar, o mais novo hype da Netflix: Gilmore Girls.

Estou ensaiando este texto há muito tempo porque é sobre uma série, mas também é sobre o meu relacionamento com minha mãe, o dela com a mãe, o nosso como mães, filhas e neta. A série pode falar muito de cultura pop, café, frases engraçadinhas em diálogos rápidos, mas para mim foi uma oportunidade de entender posições e sentimentos que passavam batidos. Tudo depende também da idade com que você assiste a série, também. Minha cabeça hoje vê as coisas de maneira bem diferente de quando adolescente, mas as mensagens estavam lá.

Vou tentar dividir por personagens, senão vai ficar quilométrico.

Contém spoilers!!

Lane e Mrs. Kim

O contexto é a mãe coreana, adventista fervorosa

(trad -> garotos não gostam de garotas engraçadas)

e sua filha adolescente fissurada em música

(trad -> danação eterna: é o que tô arriscando pelo rock)

O ambiente da família Kim é de repressão, rigidez e religião. Crianças precisam ouvir e não ser ouvidas, de acordo com Mrs. Kim. Lane tenta conciliar sua paixão pela música com a vida que a mãe acredita ser melhor, até que surge uma oportunidade de tocar com sua banda (Hep Alien lml) em NY. A coisa desanda: Lane simplesmente foge de casa durante a noite, sem deixar aviso, sua mãe descobre a ausência e quase morre de preocupação. O show acaba não rolando, Lane vai se refugiar no dormitório de Rory, que decide avisar sua mãe. Lorelai imediatamente avisa a Kim mãe que Lane está bem e com Rory. E aí nós quase conseguimos ouvir o coração de pedra da Mrs. Kim se partir. Ela vai avisar o chefe de Lane (Luke) que ela irá se ausentar no dia seguinte, e ele já sabia, a Lane já tinha avisado, que garota responsável!, ele diz. E aí Mrs. Kim volta para casa sabendo que sua filha confiara em várias pessoas, menos nela. E no quarto de Lane descobre toda a vida dupla da qual nunca desconfiou: CD escondidos debaixo do assoalho, roupas, maquiagem, livros. Toda uma Lane de 19 anos que ela não sabia que existia. Quando finalmente a filha retorna para casa, com um plano infalível que conciliaria os desejos e expectativas de ambas, Mrs. Kim dá aquela facada: viver daquele jeito somente em outro lugar.

Como tantos outros, esse foi um revival da adolescência. Se fosse só isso seria apenas lamentável. Porém, conhecendo a inflexibilidade da mãe, é possível reconhecer coisas realmente incríveis depois: Mrs. Kim indo conhecer a nova casa de Lane, surtando por ela viver com dois caras (e Lorelai tranquilizando sobre Zack e Brian <3), ela voltando para continuar o jantar. Ela e Lane tentam voltar uma para outra do jeito que elas são, tentando respeitar a rigidez e a rebeldia da outra. Mrs. Kim depois não só reconhece a paixão de Lane pela música como também resolve organizar um tour da banda para que eles não se separem e se dediquem à arte. Apesar de sempre ter tentado arranjar um casamento com um bom médico coreano, ela aceita Zack e o ajuda a compor uma música para que ele seja digno de casar com Lane, que retribui realizando duas cerimônias de casamento: uma budista e uma adventista.

Acho um desenvolvimento muito bonito das duas, que mostra como amor e boa vontade podem consertar muita coisa, mesmo que não tudo. E também vemos que a própria Mrs. Kim tem uma relação conflituosa com sua mãe, vivendo sua versão com crucifixos escondidos no assoalho. Basicamente, uma análise precisa de que todas têm uma bagagem e que, às vezes, podemos ser mais gentis e compreensivas com a bagagem alheia, principalmente a das nossas mães. Os conflitos entre as mulheres Kim têm muito dos conflitos entre minha mãe e eu, de uma maneira humana, em que não é possível estabelecer apenas uma pessoa totalmente errada. Cada uma de nós tem seus problemas e é a maneira com a qual lidamos com eles que dá o tom das coisas. Felizmente, nossa separação física não foi traumática, mas pudemos aproveitar dos benefícios que o distanciamento traz. O espaço pode fornecer perspectiva para refletir o que podemos ou não aceitar, e ver na tela duas mulheres testando até onde conviver com suas diferenças quase irreconciliáveis é reconfortante. Ver a representação de um relacionamento complexo assim foi e é importante.

Ah, e nunca vai ser o suficiente a tristeza que sinto com a forma que a Mrs. Kim vê sexo 😢 nunca achei engraçado e, apesar de ser plausível, poderia ter sido abordada de uma forma melhor. Um dos muitos problemas de GG — não é porque amo que vou ignorar, não.

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