AV. PAULISTA — 16 DE AGOSTO DE 2015

Impressões de uma cientista social passante

Estas são apenas impressões, imediatas, mediadas pelos olhos de uma cientista social, e todavia não elaboradas à luz das ferramentas que a disciplina impõe ao observador.

Observadora esta, que tem saído às ruas desde o marcante 13 de junho de 2013 (sim, a data da Batalhada da Maria Antônia) para observar e fotografar manifestações, mobilizações, provisoriamente apelidadas de “manifestejos” em artigo publicado no calor das “jornadas de junho”. Junho de 2013 que por vezes pouco se assemelha a este agosto de 2015. Ficou o descontentamento, ficou certo ludismo, mas mudaram-se as cores.

De nenhuma forma, o que é dito aqui, nas próximas linhas, representa a totalidade do protesto do dia 16. Totalidade esta que observador ou analista algum teria a pretensão de alcançar. Apenas reproduzo coisas que vi e ouvi. E espero ansiosamente pelas pesquisas e surveys de maior fôlego, que certamente virão em breve, para completar este panorama.

Tampouco trata-se de negar a legitimidade do sair às ruas ou então a pertinência de tratarmos a questão da corrupção. O obejetivo aqui é outro: entender quais demandas estão sendo levadas adiante e como.

Neste dia 16, creio ter visto alguns elementos novos, como as bandeiras do Estado de SP, (será a chegada do orgulho paulista-paulistano?), e outros que se repetem desde a primeira grande manifestação anti-governo de março de 2015 (o verde-amarelo, o foco quase exclusivo no PT, e na corrupção, o humor e a raiva misturados, as famílias e as crianças, os selfies). Há fragmentação e dissonância, sem dúvida, mas os grupos parecem já bem mais organizados. E harmoniosamente focados no anti-petismo e/ou anti-Dilmismo (com uma profusão de camisetas, jingles, doação de cornetas, cartazes de impeachment em escala industrial).

O anti-PT e o Fora Dilma, o selfie e o impeachment
Paleta verde-e-amarelo

Os grupos organizadores mais visíveis continuam o Movimento Brasil Livre (MBL), o Vem Pra Rua, o Movimento Endireita Brasil e o União Nacionalista Democrática (UND). Os dois primeiros bem maiores que os dois segundos.

Orgulho paulista?

Vem Pra Rua é o que mais mobilizou pessoas, o epicentro do protesto, localizado na esquina da Av. Paulista com a Pamplona. MBL foi o segundo grande núcleo e os demais eram menores, passagens para manifestantes que marchavam na avenida.

Hinos e gritos se multiplicam; puxados, em sua maioria, por homens nos carros-de-som. O do Vem para Rua é especialmente grande, já tem cara de showmício. “Eu acredito! Eu acredito! Canta quem acha que pode mudar o Brasil…”, diz o narrador. E começa a tocar um axé cantarolado por uma voz feminina, na mesma toada. E continuam: “Chega de alimentar o projeto do PT. Cadê o partido dos trabalhadores ? O Brasil não aguenta mais o PT, chega. O Brasil não merece o PT o Brasil não tem mais medo do PT”, o que enseja um novo grito coletivo à la arquibancada em dia de jogo: “O PT roubou, o PT roubou, oooou”.

O Vem Pra Rua realmente organizou toda uma programação, das 14h às 18h. Trouxeram especialistas (um historiador para falar de corrupção, um médico para falar do descaso com a saúde). Trouxeram jovens e também grupos feministas. Às quase 18h sobre uma jovem e diz “ Eu sou mulher e a Dilma não me representa”. E arrebata uma segunda: “Não me representa nem um pouquinho, até porque não consigo entender o que ela fala”.

A retórica de Dilma é objeto de cartazes

Já no espaço do MBL se escutava lá pelas 14h30 um “Dilma (Dilmãe?) eu quero, Dilmãe eu quero, Dilmãe eu quero mamar. Dá uma teta pro petista roubar”. Escutava-se também, no carro do MBL, uma espécie de fanfarra que cantava: “A banda louca liberal que desestatiza e despetiza. O sapo barbudo sabia de tudo. A Dilma Rousseff também. Fora petista corrupto…”.

O espaço reservado à UND, abertamente pedindo intervenção militar (a qual eles denominam “intervenção constitucional”), estava relativamente mais esvaziado, na verdade eles pareciam incluso provocar arrepios em alguns manifestantes. “Aiii, nossa…”. O Movimento Endireita Brasil, cujo carro comandado por empresários ficava na frente da FIESP, também não gerou muita mobilização própria, comparativamente. Seu discurso misturava técnica e humor. Por um lado havia “ É o nosso dinheiro Luciano Coutinho! BNDES mandou dinheiro para a África para enriquecer o PT”. Por outro, soltaram uma versão ritmada do discurso da Dilma de junho de 2016 sobre a mandioca (sim, aquele mesmo que tem rodado o Youtube), com direito a coreografia feita por um homem fantasiado de prisioneiro e balançando uma mandioca.

Selfie com o Choque

Par além das ruas, os grupos compartilharam com os manifestantes suas estratégias de advocacy. O MBL está fazendo lobby no Congresso para angariar apoio ao “impeachment” e aproveitou para mencionar que o futuro candidato à prefeitura da cidade Russomano não havia liberado sua bancada e, portanto deveria ser neutralizado. E já que estavam falando em prefeitura aproveitaram para puxar um: “ Fora Haddad” e “O povo paulista jamais será petista”. Será este o tal orgulho paulista-paulistano?

Saudações à mandioca e a crítica ao Haddad

Os grupos se coordenaram para circular o documento “10 medidas contra a corrupção” e pedir apoio dos que ali estavam. São na verdade medidas propostas pelo Ministério Público Federal. Havia incluso cartazes com estes pontos e o logo do MFP nas ruas. Que corrupção é um dos centros da agenda das manifestações de ontem, isso era claro. Que os manifestantes exacerbam sua adoração em relação aos procuradores da Lava Jato, também é ponto pacífico. Menos claro, e digno de investigação posterior, é a relação do MPF com o protesto e seus organizadores. Estarão ajudando? Apoiando? Ou apenas aproveitando do espaço para avançar sua agenda institucional anti-corrupção?

Ponto de coleta de apoio às medidas do MPF

Meio às famílias e a tantos manifestantes que gritavam “Fora Dilma”, haviam diversos vendedores de apetrechos cores verde-e-amarelo. Um caminhão ao lado do carro do Vem Pra Rua vendia camisetas, amarelas personalizadas, mas dava cornetas de graça. A bandeira nacional, também à venda, custava 30 reais. Havia ambulantes vendendo cerveja e alguns até whisky.

Família, panela e bumbo
Apetrechos e whisly

Independentemente do descontentamento, geral e generalizado, e por certo legítimo em uma democracia, a raiva e o desprezo destilados nos discursos deste dia 16 impressiona. Isso se faz visível tanto nos grito e cantos (vide o “Dilma vagabunda, devolve meu dinheiro” vocalizado por uma manifestante em seu doce caminhar na Paulista) quanto nos cartazes muito duros, e até mesmo grosseiros. Esta indignação raivosa, de onde vem e para onde, vai é sim algo a ser pensado, e estudado.

Fim das impressões. Que venham as análises.

Coletânea de cartazes com linguajar duro (ou baixo?)