Professor tempo, Tutora vida, Amiga paciência

Com pressa demais a gente fica preso. Eu sempre tive pressa de viver, quis tudo pra ontem, ter experiências nova demais, tudo era inadiável… Denso, tenso. O silêncio não foi uma entidade muito presente na minha vida, e, talvez, não deveria ter sido, algumas pessoas precisam de um despertador tocando bem alto para acordar. Beirando os dezoito, anos eu entrei em uma das mais desconexas fases da minha vida, foi quando eu senti, ineditamente, o peso da culpa e do fardo da violência silenciosa. Abri um leque de mundo com responsabilidades sérias, inserções e essas notoriedades estruturadas e que eu nem sequer sabia se tinha disposição para tal, tampouco olhei para dentro de modo a entender minhas relutâncias. Não sabia se queria fazer parte de alguns convencionalismos. Achava que sim; padrão de existência para o qual eu estava me arrastando, e indiscutivelmente ainda estou. Provavelmente vou continuar, até sentir que o sentido foi desconstruído o suficiente. O porém nessa façanha toda é que, não de uma hora para outra, passei a sentir uma leveza fluindo de dentro pra fora, é como disse um mestre do fogo de Avatar: somos um peixe em um rio que não consegue imaginar o oceano no fim da caminhada. A vida é isso, para mim. Tem um fluxo que lhe pertence, caso queira você pertencer a ele também (conceito carregado de espiritualidade), e cabe apenas a você, só você, decidir se vai seguir o que parece o certo, porque só você ocupa aquele espaço do rio. Podem ter outros navegantes perto de você, e eles podem te entender, sim, podem te ajudar, sim, mas não respondem pelo seu fluxo porque não são eles a sua passagem para o Oceano: é o rio. É a vida. É como você decide segui-la. Tenho um costume terrível de precisar quebrar a cara para recompor a postura e desenvolver noção. Durante um período de profunda falta de autoconhecimento e autocrítica, tentei subir o rio, que estava descendo, e tive a audácia de me perguntar por que estava tudo dando tão errado, por que estava tão parada no tempo, por que não era diferente comigo… Foi nesse momento dessa história absurdamente trivial que resolvi subir um pouco perto da superfície, olhar de cima em minhas novas e cada vez mais frequentes meditações. Vi alguns novos amigos de fora do rio, vulgo o ambiente físico e material palpável do que entendo por existência, e eles me perguntaram se eu não enxergava por onde andava o rio e se eu não queria ir com ele. Miserável indivíduo que sou, não pensei nisso. Acabei descobrindo essa mania de lutar contra as correntezas porque acreditei que elas estavam sempre erradas, algo sempre as colocava em um espaço de dúvida. É como se o natural e a facilidade fossem coisas tão boas que pareciam erradas. Nós somos constantemente levados a acreditar que o trabalho árduo é a única resposta correta, como se estivéssemos receosos demais por estarmos afogando, uma vez que, supostamente, chegamos ali sozinhos, e dessa forma não merecemos pedir ajuda. Espírito audacioso que sou, decidi pedir ajuda e ver no que dava, fiz o questionável. Parei de bater as pernas feito louca, de levar meus braços à exaustão, de gastar um fôlego que eu não tinha, por mais que achasse que queria ter, e soltei. Pouco tempo depois, quase nada para ser sincera, senti as dores das minhas braçadas intermináveis e sem rumo algum; senti também minhas costas arderem, de todas as vezes que carreguei comigo o que não iria sair do lugar: excessos, vazios, oi’s, tchau’s, fica’s. Pela primeira vez eu tive a oportunidade de perceber que deixar ir e desistir demandavam coragem também. Senti ondas baterem forte no rosto, eram dois, cinco, dezessete metros, e eu custei a olhar para essas ondas e enxergar meu relexo nelas. Custei e me custou. Acreditei que iria pagar por ter desistido. E aí… não paguei. Para minha surpresa, não fiz dívida alguma com ninguém, não precisei de fiança. Porra, mas eu senti a dor, eu senti minhas costas ardidas, eu me senti presa, como assim não estou pagando por nada? Que isso? Acontece que nunca ninguém havia me condenado, nunca sequer tentaram. Minhas dores foram todas frutos de uma imaginação incoerente, oprimida, orgulhosa e alheia a uma percepção crucial e latente do ser humano, apesar de inata. Eu tive medo de ser minha melhor versão porque era fácil demais me dar uma chance, porque eu não era a única a dar braçadas cansadas contra o fluxo da vida, porque eu não era a única a receber maus conselhos e menos ainda a única a dar ouvidos. Senti medo de ser tão grande que meus passos mal caberiam nesse mundo. Eu não me refleti, como a onda estava me encaminhando a fazer. Foram precisos novecentos e trinta e nove metros para que eu parasse de brigar com meu reflexo na onda dos baques da autocrítica, naquele espelho de mar, e passasse a presenciar um vazio tão completo de si mesmo que foi feito sob a concepção de que não precisava ser totalmente preenchido. Já tinha chegado ao oceano. Notei que vários rios desaguavam ali, e que eu tinha escolhido o meu. Isso era tudo que eu precisava saber. Agora vem a parte mais profunda. Nem boa nem má. Apenas está aqui, disposta em seus quilômetros de possibilidades, onde (quase) tudo posso no espaço em que a pressão se faz mais forte e até o ar oferece carona. Dessa vez, todavia, não existem sabotagens. Acolhi.