Há vagas na oficina do demônio.

Minha avó sempre disse que “mente vazia é oficina do demônio”. Calma! Comecei mal. Esqueçam esse tom, involuntário, de autoria da frase, atribuído a minha avó, porque a maioria das avós brasileiras já disseram essa frase e, por isso, todas elas se sentem um pouco autora da mesma. Além disso, com certeza, deve haver nos outros países expressões linguísticas que equivalham a este mesmo significado. No entanto, não é sobre a autenticidade desta frase que eu quero me ater, e sim, sobre o seu significado: o quanto a nossa mente pode ser um campo fértil para os demônios (e quando cito este nome, não estou me referindo aquele ser personificado, com chifres e capa vermelha. Por isso, onde lê-se ‘demônio’, leia “pensamentos negativos”).

Semana passada, eu estava refletindo sobre como as pessoas andam sentindo um certo misto de prazer e orgulho por andarem sempre tão tristes e melancólicas… atribuindo a tudo e a todos uma carga de significado tão pesada, que não me admira que as taxas de suicídio estejam sempre aumentando (principalmente entre os jovens). Dias desses, eu estava ouvindo uma estação de radio e de repente a voz da Lana Del Rey, a queridinha da galera considerada ‘cool’, soou cantando repetitivamente o seguinte refrão: “I´m a sad girl. I´m a sad, I´m a saaaaaaaad girl…” ( eu sou uma garota triste, eu sou uma garota triste, eu sou uma garota triste) acompanhada por uma melodia fúnebre e uma letra que basicamente se resumia em uma louvação à depressão.

Nesta mesma semana, um colega de classe, compartilhou com a turma, o seu mais novo poema, escrito após um banho, no qual ele fora surpreendido por um sangramento no nariz… (não se preocupem com ele, o mocinho esta passando muito bem. Ainda não foi ao médico, mas o poema ficou incrível e logo, logo será apresentado à outras pessoas. Me desculpem por não saber como dizer isso tudo de uma forma mais poética). Falando em escrita, eu estou lendo um livro incrível, chamado “É sagrado viver” do Padre Fabio de Melo, no qual, entre um texto e outro eu encontrei as seguintes palavras.

“A vida ganha cores quando se anda a toa em fins de tarde. Andar sem culpa, sem pressa de voltar ao ofício de ser triste, permitindo que as mágoas fiquem pelo caminho. Há o que se orgulha de ser triste. Acha lindo falar que está com estresse! Tem prazer em dizer que só dorme sob o poder de remédios!. E eu estou precisando de medicação é pra acordar. Quem trabalha, dorme.”

Foi ai que eu lembrei do ditado das vovós e me ocorreu escrever essas linhas (que serão infinitas, se eu continuar contando casos).

Todas as experiências mencionadas (e não mencionadas) nesse texto, me fizeram perceber que estamos tendendo a nos estagnar diante dos pensamentos negativos e assim estamos transformando coisas que, aparentemente, poderiam ser resolvidas, e diga-se de passagem: bem resolvidas, se tomássemos outras atitudes (além de escrever poemas melancólicos, ouvir musicas deprimentes, apelar pros medicamentos que já estão virando modinha, como o Rivotril, por exemplo) e deixar de continuar criando uma realidade distorcida.

Não estou querendo dizer que a vida é um mar de rosas, ou que a escrita não se faça necessária. Não é isso! A tristeza, as crises existências, as situações deprimentes fazem parte da realidade do ser humano e às vezes recorrer à escrita e às demais formas de expressão artística são possibilidades de nos encontrarmos, ou realizar o famoso processo de cartasse. No entanto, não podemos nos tornar reféns dos demônios, que tentam criar palácios de insegurança, de medo e de reclusão em nossas mentes, e o mais importante, não podemos inventar mais demônios do que os já existentes, nos afastando da positividade, só por que isso vai ficar lindo na nossa dicção poética.

A forma como lidamos com as coisas que nos cercam, vai definir a nossa qualidade de vida, isso é fato. Por isso, por mais confortável que seja ouvir músicas melancólicas e aceitar que somos uma ‘sad girl’ ( garota triste ), ou escrever poemas tristes sobre toda e qualquer situação que estamos vivendo… É preciso mais, é preciso tomar determinadas atitudes para mudar a realidade dos fatos. Do contrario, tendemos a cair no limbo dos eternos reclamões que ficam jogando pragas ao vento, ou lutando contra moinhos, enquanto a vida passa.

É muito confortável deixar que melodias melancólicas passem a mão pelas nossas cabeças, ou sentar e escrever, e escrever… a ponto de se tornar a Emily Dickson dos próximos séculos. Porém, a vida não é só idealização. A vida pede mais. A vida pede ação. “Qual a tua responsabilidade na desgraça que você esta vivendo?” É preciso assumir o controle da nossa mente, pensar positivo, ser mais critico conosco… Porque estagnados só iremos criar pesos psicológicos desnecessários e dessa forma, viver se torna uma tarefa insuportável.

Lázaro Montes