Marketing de Lifestyle

Meu primeiro post no medium e vamos falar sobre marketing de lifestyle.

O aumento na acessibilidade ao e-commerce no Brasil e no mundo resultaram em um boom enorme de pequenas marcas. Hoje é muito fácil montar um site, gerar conteúdo, se comunicar com os clientes, receber pagamentos, e enviar produtos para qualquer lugar do mundo e isso é muito positivo.

Essa mudança permite que indivíduos e pequenas empresas se libertem das práticas de negócios tradicionais e ultrapassem barreiras de ganância corporativa para perseguir sonhos e receber os méritos pelo trabalho, ao invés de compartilhá-los com chefes supérfluos.

Talvez, o mais importante disso tudo é possibilitar que pequenos fabricantes escapem do ciclo do débito que construimos em torno de nós mesmos. Ninguém precisa mais de uma grande agência de publicidade ou de contrair uma dívida para montar um site, uma forja no quintal e começar a vender facas pela internet. Os lucros assumem um papel secundário para qualidades mais importantes quando não é preciso se em pagar dívidas ou lidar com investidores conduzindo as decisões.

O marketing de lifestyle, no entanto, é uma tática corporativa da velha guarda que está super presente entre as pequenas marcas. Eu entendo a tentação que é usar essa estratégia, afinal, é uma maneira muito eficaz para impulsionar as vendas. Ao criar uma conexão emocional entre o produto e alguma meta aspiracional a marca tem uma maneira extremamente atraente de transformar o que vende em uma "necessidade" percebida.

Isso normalmente é feito através de imagens e histórias (ou storytelling) para representar um produto, ou até mesmo a marca/fabricante, como o ingrediente que falta para uma vida mais tranquila, mais simples, mais alegre, mais bonita, ou de mais aventuras. São sempre coisas que todos nós (ou ao menos o público alvo) queremos, e se o consumidor for convencido que um produto pode oferecer tudo isso, qualquer preço vai parecer muito barato e a promessa de vida passa por cima de qualquer prática duvidosa.

Meu típico dia-a-dia, só que não.

Alguns aspectos desta “curadoria” de imagem acontecem naturalmente a medida que experimentamos nossa vida. Prefiro compartilhar uma foto de um delicioso jantar do que a foto de um Yakult que tomei enquanto escrevia este texto. É natural documentar os momentos agradáveis ​​ou belos e deixar o penoso ou ordinário instintivamente de fora. Mas há uma diferença fundamental entre esta celebração dos melhores momentos da nossa vida e a manipulação emocional calculada que acontece quando as marcas usam o marketing de lifestyle para dizer que um produto ou a visão da marca são a chave para conseguir uma vida bela.

Entre as marcas pequenas, e principalmente quando é uma marca de uma pessoa só, fica muito difícil traçar uma linha entre o trabalho e a vida social. As pessoas não costumam ter redes sociais separadas, por exemplo, então não transmitir a mensagem sobre um estilo de vida (o próprio) é quase impossível. O desconfortável é quando no meio de todas as imagens de cães alegres, trilhas para caminhadas, e explicações sentimentais de como e porque a pessoa faz o que faz, ela começa a sugerir que a compra do seu trabalho leva a uma maior felicidade (para o consumidor).

Uma marca pequena pode expressar honestamente o que criar significa para ela, mas ninguém pode garantir que o resultado deste trabalho vai ter um significado para quem o compra. Infelizmente, a vida anunciada no marketing de lifestyle não é real e simplesmente não existe. É um mero slide show com destaques calculados, e compara-lo com a sua própria vida só vai trazer dor, especialmente quando a busca te deixar quebrado.

Ao meu ver, comprar um produto de uma marca não vai:

  • Aumentar a quantidade ou a qualidade do seu tempo de lazer.
  • Aprofundar a sua ligação com a natureza.
  • Substituir o ritmo assustador da sua vida moderna com uma vibe old school slow artesanal.
  • Soltar um nevoeiro espiritual sobre xícara de café matinal.
  • Aliviar o seu desejo material.

A boa notícia é que apesar de nenhuma compra fazer essas coisas, você pode ter todas elas bem agora, simplesmente decidindo que são uma prioridade para você. O último item da lista é especialmente importante porque por mais agradável que seja um produto, a aquisição do mesmo tem pouco efeito sobre o desejo, a não ser que você mantenha a gratidão consciente pelo que já tem.

Por outro lado, comprar um bom produto vai:

  • Colocar em suas mãos um objeto durável, útil, e provavelmente bonito.
  • Permitir que a marca/pessoa que você apoiou continua fazendo o que faz.

Eu acredito que os seres humanos podem se conectar com objetos, e que algumas pessoas trabalham muito para criar coisas com este potencial, mas este processo não acontece no momento da compra e muito menos por imagens na internet. Essa conexão dependente completamente dos valores e das experiências de cada um. Tenho coisas que se tornaram partes importantes da minha vida e não tenho nenhuma dúvida de que outra pessoa poderia possuir essas mesmas coisa e achar elas totalmente irrelevantes. A minha ligação pessoal é com os objetos que tem uma história ao meu lado ou que apoiam diretamente alguém com objetivos que eu respeito.

No final, o único lifestyle que vai ser melhorado por todos os produtos que você compra é o estilo de vida de quem recebeu o seu dinheiro. As marcas precisam ser profundamente gratas a todas as pessoas que optam por apoia-las com uma compra. Conhecer, saber o que elas vendem, como fazem, e o que pretendem, é muito mais importante do que acreditar que elas vão preencher qualquer vazio. Se o respeito pelos objetivos que elas tem faz parte do que você valoriza, vá em frente e dê o seu apoio… mas voltando no exemplo da faca, se você acha que a compra de uma faca artesanal vai solucionar um problema maior do que como cortar seu bife, você está enganado.

Mantenha o radar de bullshit sempre ligado, porque há um monte de papo furado por aí. Esse é o lado negativo da facilidade de comunicação, principalmente na onda do lifestyle.