Liberdade desregulada

Por Peter Leithart

Em seu Resurrecting the Idea of a Christian Society [Ressuscitando a Ideia de uma Sociedade Cristã], Rusty Reno detecta uma “falsa visão da liberdade como escolha desimpedida e autodefinição” na raiz de muitas de nossas patologias políticas, econômicas e sociais. Em nome da liberdade, temos “desregulado” a cultura, uma reorientação política com consequências muito mais amplas e profundas do que a desregulação do mercado — consequências econômicas muito mais amplas e profundas. Nossa busca por liberdade absoluta “tem beneficiado o forte e prejudicado o fraco” e, portanto, é em nome das classes mais baixas da sociedade americana que os cristãos precisam defender a sociedade cristã (p. 5).

Uma das melhores coisas na análise de Reno é que ele próprio admite que é fascinado pelo sonho de liberdade. Ele trabalhou em plataformas de petróleo, escalou penhascos, vagueou por trilhas de montanha abandonadas. O livro de Reno é uma crítica ao sonho americano a partir de um sonhador.

Reno dificilmente é o primeiro a dizer que a América consiste em liberdade, mas ele explica isso de maneiras inesperadas. Ele a vê por trás do multiculturalismo, que ele descreve como “uma terapia cultural igualitária”: “A decisão curricular para excluir ‘reacionários’ e destacar escritores minoritários é o equivalente cultural do imposto de renda progressivo que financia um suplemento financeiro substancial para o pobre… Longe de uma perversão antiamericana, o multiculturalismo satisfaz o sonho americano — todos devem ter a maior liberdade possível para fazer seu próprio futuro. Todas as barreiras culturais devem ser derrubadas!” (p. 21). Devemos jogar fora os grilhões da nossa própria civilização herdada tanto quanto jogamos fora os grilhões da monarquia e da hierarquia de classe.

Na interpretação de Reno, até mesmo o antiamericanismo é uma expressão do sonho americano de liberdade desimpedida: “Se prezamos o sonho de liberdade acima de todas as coisas, a coisa mais americana a fazer é renunciar a autoridade da cultura ocidental! O antiamericanismo é, portanto, um tipo de hiperamericanismo” (p. 23). E se isso é verdade, reafirmar os “valores americanos tradicionais” dificilmente é um antídoto eficaz.

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Fonte: First Things.

Tradução de Leonardo Bruno Galdino.