Quântica
Essa é a beleza da vida. “Beleza”

1.
A matemática não é grande merda. É só uma linguagem mais pretensiosa que as outras. Matematicamente falando, é possível que existam universos paralelos, com mundos iguaizinhos a esse, aonde, nesse momento, um outro Renato desconfia que, matematicamente falando, é possível que existam universos paralelos, com mundos iguaizinhos a esse.
Matematicamente, aliás, é mais do que possível. É inclusive provável. Talvez seja eu o outro eu, o paralelo. E o Renato esteja lá, no mundo real, prestes a receber a mesma ligação.
- Alô.
- Renato?
- Oi.
- É Helena.
- Eu sei.
-
- Alô?
- Tô ligando porque… Eu não sei bem como dizer isso.
- Então não diz. Finge que nunca me ligou.
- Tudo acabou tão de repente.
- A vida é de repente. Uma seqüência de elétrons entre um e outro pólo da tomada.
- É disso que eu tô falando, Renato. Tô ligando pra saber quando eu posso ir buscar minhas coisas.
- Suas coisas?
- Minhas coisas.
- Por um minuto achei que você queria voltar.
- Não quero voltar, Renato. É pra valer. Só quero buscar umas coisas. Tem o faqueiro que foi da minha mãe.
- Eu sei que não parece, mas eu tô achando ótimo.
- Amanhã, às dez? Acho que em três horinhas eu tiro tudo.
- Pode esvaziar com calma. Vou passar o dia fora.
- Tá bem. Obrigada. Olha, fica bem.
2.
A cidade é um cosmos. O dinheiro é a força de atração que faz com que as pessoas orbitem ao redor das coisas e outras pessoas orbitem ao redor das pessoas.
- Moço, me dá um Real.
- Não tenho.
- Tá, não tem um Real. Tem roupa. Sapato. Tem casa. Mas não tem um Real.
Na cidade, as coisas e pessoas se movem rapidamente. Praticamente, já havia deixado o pedinte para trás, mas suas palavras me fizeram recuar.
- Como é seu nome?
Era um moleque, mais sujo que o chão.
- João.
- João, sobre uma coisa você tem razão. Eu tenho casa.
Na explosão das supernovas, as pessoas e coisas e pessoas colapsam. Não é mais possível distingui-las.
3.
Uma mulher estupidamente gorda. Ela é tão obesa que mal cabe no quadro. Suas dobrinhas mais desprendidas estão ocultas pela moldura e sua nudez estática remete a um empadão de frango que caiu no chão. O escritório é amplo — para que caiba um quadro desses — mas fede a charuto.
- Aceita um copo?
Percebo em tempo que o copo é quadrado. Tudo no escritório parece ser feito para incomodar.
- Não, obrigado.
- Só um gole.
- Não, obrigado.
- Vai me deixar beber sozinho?
- Você não precisa beber se não quiser.
O sujeito devora o uísque de uma vez. Dois filetes escorrem pelos cantos de sua boca. Era o que eu queria evitar.
- Escuta, como é mesmo seu nome?
- Renato.
- Escuta, Renato. Seu protótipo é muito bom. Seu protótipo é, inclusive, brilhante. Mas… Eu não sei bem como dizer isso.
- Então não diz. Finge que nunca me ligou.
- Utilidade não é tudo. É claro que as pessoas usariam.
Nunca dá certo. Ele prossegue.
- Mas e o preço? Elas estariam dispostas a pagar por isso? Aliás, quanto a gente não teria que investir pra produzir isso em escala? Há muitos custos. E pode ser que seja só uma loucura. Uma viração de cabeça. Uma modinha que nunca vai pegar.
Respiro.
- Tem quase dez anos que estou estudando e me capacitando pra construir esse protótipo. Perdi alguns empregos por isso. Vendi alguns carros. Acabei de perder uma mulher por isso também. Mas isso tudo bem, é a parte boa. Só não perdi o apartamento porque está no nome do meu pai, que está vivomorto dentro da caixa. Uma merda federal pra legalizar, vender, tomar, leiloar. Mas não vem ao caso. É que essa é a minha última chance de fazer com que isso dê certo.
Não sei de onde vieram as palavras. Talvez do Renato do outro universo. Mas elas funcionam. “Funcionam”.
- Vamos fazer assim. Eu vou pensar melhor e te ligo.
4.
Pouco a pouco o volume de água se concentra em uma enorme espiral que lentamente engole o mundo ao seu redor. Em segundos — disfarçados de anos — o ralo levou tudo para dentro de si. Assisto. Ao fundo, no cômodo ao lado, papai tosse.
Um tubo de oxigênio conectado a uma máquina faz com que ele viva. E tussa. E a cada tosse, achamos que é a última. Eu e ele, há muitos anos — disfarçados de segundos. O tempo é uma abstração.
Cada sociedade tem uma maneira peculiar de lidar com seus mortos. A nossa liga os seus na tomada, como quem liga uma cafeteira ou recarrega um iPhone. A diferença de potencial entre um e outro pólo faz com que meu pai viva. “Viva”. Já não fala, nem se mexe. Muito mal, talvez escute. Ainda pisca os olhos. Olha para a tomada. Talvez reze para que não falte luz. Talvez reze para que falte.
Essa é a beleza da vida. “Beleza”. Papai pode sobreviver mais vinte anos assim, contanto que nenhum elétron o deixe na mão entre um e outro pólo da tomada. Eu posso ser atropelado agora, quando for embora. Eu bem que devia.
5.
Para não dizer que está vazia, restou o telefone. De resto, a cretina levou tudo, matéria e antimatéria. Faqueiro da minha mãe é o cacete. Televisão, cortinas, espremedor de laranja. Que tipo de pessoa faz questão de um espremedor de laranja? Esqueceu o controle remoto. Mas até os lençóis da cama se deu ao trabalho de tirar.
Ao menos lavou a louça. Deixou o colchão também. Deito-me. É quase como se estivesse dentro de um buraco negro, cuja gravidade desesperada suga tudo para dentro de si — menos o telefone.
O colchão é a gravidade. Meu peso deforma o espaço sobre o colchão. A deformação no espaço puxa a caneta, meus óculos, o controle remoto — tudo aquilo que orbitava ao meu redor — para debaixo de mim. Como um buraco negro. Talvez eu tenha adormecido. Não é confortável dormir em um buraco negro, mas não posso dizer que não estou habituado. Ninguém pode.
O telefone toca. Eu deveria atender. Pode ser do hospital. Meu pai pode estar morto. Ou, pelo contrário, pode estar fazendo abdominais. Ou ainda, pode ser Schrödinger pra me dizer que meu pai está morto e fazendo abdominais. Seguro o telefone sem fio como se fosse um bumerangue. Arremesso. Ele se estilhaça em uma nuvem de silício, cujas partículas mais ínfimas vão orbitar ao redor da mancha preta que se formou na parede.
João entra no quarto assustado.
- Tá tudo bem?
- Agora está.
Ele nota os fragmentos subatômicos orbitando no espaço. Talvez, inconscientemente, saiba que esse é o destino da nossa galáxia e de Andrômeda.
- Você fez bem. Essa merda tocou o dia inteiro.
- Porque você não atendeu? Não tem nada a perder.
- Eu atendi. Seu pai morreu. E depois ligou um sujeito pra te dizer que tá interessado, quer comprar.
Não chorei nem sorri.
Por um segundo, penso nos infinitos universos infinitos compreendidos entre os cones e bastonetes da minha retina enquanto me vejo no espelho que é João. Em um deles, matematicamente falando, é possível e até provável que exista outro Renato — passando por muita coisa nesse momentum. Desfaço em lágrimas meus universos. Por hoje basta de explosões.