Os caminhos do contrabando (2)

Passagens meticulosamente preparadas com simulações e radiotransmissores

Leonel Brites
Jul 25, 2017 · 6 min read

Quinta-feira, 26 de Junho de 1986

É hoje possível comprar em algumas lojas e quiosques do Porto e Coimbra (para citar dois exemplos fáceis), belíssimos casacos e blusões, em pele ou em cabedal, por preços tão acessíveis quanto um casaco em terylene ou umas camisas de algodão. A colocação dos produtos no mercado como sucede, neste caso, com os cabedais oriundos de Ceuta, constitui a última etapa no complicado circuito do contrabando.

Gado e material audiovisual são, entretanto, os tipos de captura mais vulgares na área da raia, embora a fruta e, em menos escala, a droga, também tenham a sua comparticipação no bolo. Seja como for, é ainda pela zona da alfândega, através de camiões TIR, que a fuga às Finanças atinge o seu ponto mais preocupante, naquilo que a lei designa por crime de descaminho, descaminho contra-ordenação ou descaminho de direitos.

É opinião generalizada, contudo, que o volume das mercadorias apreendidas anualmente pela Guarda Fiscal, na região, não ultrapassará os 10 por cento do total dos efectivos ilegais que por ali circulam.

As passagens de gado, por exemplo, são meticulosamente preparadas, obedecendo tais operações a um rigor e a uma sofisticação de meios apreciável.

De facto, à frente dos condutores da manada, uma meia-dúzia de observadores, munidos de rádios-transmissores, vão fazendo o reconhecimento do terreno e dando indicações preciosas ao longo de todo o trajecto, de modo a prevenir e evitar quaisquer surpresas desagradáveis para a sua caravana.

O aparecimento vantajoso da comunicação à distância é, no fundo, um mero sinal dos nossos dias, já que a sua utilização em nada alterou o espírito da estratégia anterior ao emprego das virtualidades dos rádios-transmissores.

“Cerca de 30 a 50 metros à frente da cabeça de uma coluna de 100 homens”, recorda um dos protagonistas, “quatro ou cinco elementos do grupo carregavam às costas grandes sacos cheios de giestas. Caso a Guarda Fiscal aparecesse”, prossegue, “largavam imediatamente os sacos e fugiam, mas de modo a permitir a perseguição durante algum tempo… Enquanto isso, o caminho ficava completamente livre para os restantes 95 homens passarem a mercadoria”

Os artifícios não têm conta. Normalmente, como nos disseram, quanto mais simples são mais eficazes se tornam. Nova voz se destaca, então, do grupo reunido no “cantinho do céu”, para contar como conseguiu passar “uns machos para Espanha”.

“A presença de dois guardas no terreno — explica — dificultava a passagem dos animais, que teriam de ser entregues, do outro lado da fronteira, à hora combinada. Subitamente — acrescenta — o meu sogro teve uma ideia tão simples como brilhante — convidou os guardas para comer uma chouriça e beber um copo na adega dele. Deixando-me, assim, campo livre para conduzir os machos”.

Largam as mercadorias e abandonam as viaturas

O transporte ilegal de miudezas (especialmente orelhas de porco e fígados, quase sempre congelados, que os espanhóis não aproveitam na sua alimentação) constitui, por seu lado, outro tipo de negócio bastante lucrativo e vulgar na zona.

Eventualmente detectados ou interceptados, pela Guarda Fiscal, os autores daqueles actos de contrabando põem-se imediatamente em fuga, largando as mercadorias ou abandonando as viaturas que conduzem.

No entanto, como só actuam de noite, nunca são reconhecidos, escapando, assim, à prisão efectiva e ao pagamento das pesadas multas que a lei estipula. A título de curiosidade, diga-se que o contrabando de nove cabeças de gado pode dar uma pena de 15 anos de cadeia e uma multa superior a mil contos.

Face às características do terreno e ao risco das operações, os veículos utilizados nos transportes são, normalmente, antigos. Fruto da sua suspensão alta, o recuso aos velhos “bocas de sapo” faz-se com muita frequência, embora não detenham, evidentemente, o exclusivo entre as cerca de sete dezenas de viaturas actualmente detidas na estância aduaneira de Vilar Formoso.

É prática corrente dos proprietários dos veículos apreendidos comunicar às autoridades, logo após a apreensão, o fruto dos respectivos automóveis ou carrinhas. Existem, porém, casos, como já aconteceu em almeida e no sabugal, em que foi possível provar a simulação do crime de furto, desmascarando, deste modo, a atitude do dono, ao pretender convencer o tribunal do desconhecimento da participação da sua viatura na prática de tais acções.

A história de um “Mercedes”

E o contrabando de automóveis? Todos se lembram, certamente, da realização de algumas operações “Stop”, especialmente promovidas para o controlo de certas marcas. E muitos sabem, ainda, quais as localidades do distrito da Guarda, onde é mais fácil e seguro adquirir um veículo já legalizado, inclusivamente, mas cujo processo de regularização e de entrada em Portugal dá vontade de rir…

Se houvesse um prémio Nobel ou um Óscar destinado a premiar a imaginação e o engenho humano, nos negócios clandestinos, os protagonistas do circuito automóvel estariam, indiscutivelmente, entre os candidatos favoritos à conquista do galardão.

Das várias nomeações possíveis, escolhemos uma que nos parece verdadeiramente exemplar, sobretudo porque também À semelhança do que sucede nos livros e nos filmes, o plano inicialmente traçado considerava-se infalível.

Todavia, o imprevisto está uma vez mais contra os “fora-da-lei”, que acabam por falhar o golpe numa missão a que Sergio Leone chamaria “um trabalho para crianças”, se filmasse “Era uma vez na raia”.

Vamos aos factos: um Mercedes Benz 200D, de matrícula francesa, com cerca de 13 mil quilómetros no mostrador e avaliado na data da captura em 2300 contos, é apreendido numa ribeira, entre Vale da Mula e S. Pedro de Rio Seco. Em linha recta, o veículo foi encontrado a perto de 500 metros do local onde — soube-se mais tarde — estivera guardado durante três meses, antes de tentar a entrada em Portugal.

Poucos dias antes da apreensão, o seu proprietário, emigrante em França, apresentara uma participação à polícia da sua área de residência e à companhia de seguros, denunciando o furto do Mercedes. Um mês depois, a seguradora dá o carro como perdido e indemniza o proprietário.

O objectivo da operação é claro: pretendia o seu autor, com um único golpe, colocar o automóvel no nosso mercado e receber, como aliás aconteceu, da companhia de seguros, a indemnização pelo desaparecimento do veículo.

O bom entendimento existente entre as autoridades fiscais de Espanha e Portugal, na zona da raia, levou, entretanto, as autoridades do país vizinho a informar os seus colegas portugueses de que aquela viatura permanecera cerca de três meses estacionada na quinta espanhola “El Gardon”, junto à fronteira.

Curioso, é saber porque falhou o golpe. Ao tentar passar o Mercedes na referida ribeira, aproveitando para o efeito uma zona seca do leito, o condutor viu-se, inesperadamente, a braços com um pequeno banco de areia, que impediu a viatura de prosseguir a pequena viagem. E o condutor não teve outra alternativa senão a de ir em busca do auxílio provável de um tractor, dado que nem sequer levou consigo os documentos do carro.

Tal comportamento indica estar-se perante uma pessoas com ligações no terreno, admitindo-se, ainda que o passador (há a certeza de não ter sido o proprietário da viatura) é um profundo conhecedor da zona: o trajecto que escolheu, ao escapar aos trilhos normais, demonstra, realmente, uma familiaridade notável com aquela área.

Definitivamente, porém, não estava no seu dia de sorte. A segurança e a tranquilidade que esperava encontrar no percurso que conhecia a palmo e de olhos fechados tinham sido traídas; primeiro, pelo maldito areal e, depois, pela passagem de uma brigada da Guarda Fiscal que, ao não atribuir, normalmente, grande atenção àquele ponto, ter-se-á seguramente, surpreendido quando deu de caras com o veículo abandonado.

Camião em peças levado para Espanha

Não é um problema recente, no entanto, a passagem ilícita de viaturas, de um para o outro lado da fronteira. O “comandante do leme”, velha glória do ofício, contar-nos-ia, de resto, a epopeia que viveu há una anos quando ele e outros companheiros compraram um camião, desmontaram-no totalmente, tendo-o passado, mais tarde, em peças para Espanha.

“Deu um trabalho dos diabos”, recorda. Salientou, contudo, que “uma das nossas maiores preocupações era a de que ninguém desconfiasse do tempo que passávamos no interior do curral onde escondemos o camião e o íamos desmanchando aos poucos”.

Alguns dias depois, carroçaria e motor estavam já do outro lado da ponte de Vale de Coelho, por cujo tabuleiro estreito e irregular se processou o transporte do material…

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