A primeira página

crônica n° 1

Abriu a primeira página de seu pequeno livro diário e, num olhar assustado, pegou um pequeno papel que se encontrava:

“Talvez nem isso.
Talvez nem aquilo.
Talvez nada.
Mas nada é muito profundo
P’ra quem não quis nadinha. ”

Nada, na verdade, era sua interpretação naquele momento, tentando decifrar aquela linguagem Maia. “Quem será? Quem foi? ”, pensou. Fechou o livro e amassou o papel.

“Que bobagem, sigo adiante”. E foi. Ignóbil. Sem mais nem menos.

O tempo se passara, e os poemas continuavam, sempre na primeira página. “Quem será? Quem foi?”

Adão nunca fora de envolver-se com mulheres casadas e afins. Tinha seu paladar único: loiras dos olhos azuis, mais novas. Apenas solteiras. Não obstante, pelo infortúnio do destino e do álcool, se lembrara de um caso que tivera com Luvinda, mulher de seu Alfredo, vizinho. Nada demais, apenas um beijo aqui e acolá. Nada demais.

Se lembrara também que, após começarem a suspeitar de que estavam sendo observados, ele teve que ser ríspido com sua lover. “Não quero te ver nunca mais, okay? Nem tente me procurar!”. Mudou-se para outra cidade. Luvinda nunca entendera aquela despedida. Amava aquele homem por deveras. Era a válvula de escape para as discussões com o marido. Porém, a deixara. Covarde. Rude.

Em sua nova cidade, Adão recomeçara sua vida. Durante a semana, após a labuta, frequentava a igreja, lia a bíblia, dormia cedo…Era um homem novo. Porém, sentia a falta de um calor, de um ser ao lado. Mas suas tentativas eram falhas, seu histórico tinha lhe acompanhado.

Voltou à antiga cidade, iria reencontrar Luvinda.

Ela continuava a mesma pessoa: bela, dócil, forte, porém desiludida e fiel. Seu caso com Adão a fizera perceber o que realmente estava fazendo com seu compromisso conjugal. Até que, no meio da noite, estava a contemplar o céu em seu terraço, ao som de Piano Sonata no.18 In D, K.576: 1. Allegro, quando avista um movimento entre os arbustos. Era ele. Não poderia se esquecer daquele moreno, dos músculos visíveis, boca sedosa, roupa amarrotada… Adão.

E os dois se entreolharam. Toda a raiva, mágoa e fidelidade guardados dentro de Luvinda esvairam-se em segundos. Ele a convidou para descer e conversar. Ela, relutante, por fim obedeceu. E aconteceu. Os dois lovers. Mas, no meio do encontro entre línguas, Adão a questiona:

— Por que ainda escreves para mim? Estou aqui por isso.

Ela, que achara que teria a plena felicidade novamente, cai em tristeza e, num impulso irreprimível, dispara:

— Eu? escrever para ti? o que achas que sou? Te ajeita, homem!

Quem será? Quem foi? Adão não fazia mais ideia. Se jogou da sacada no dia seguinte. No seu funeral, Luvinda apareceu com um pequeno livro e pediu para que o enterrasse junto ao corpo. Nenhum dos parentes presentes entendeu o ato, mas também nenhum deles questionou.