Escarificações Urbanas

Nascido em São Paulo e radicado em Aracaju-Sergipe, Fábio Sampaio preserva o ethos de artista essencialmente urbano; entenda-se, voltado para as questões urbanas, para o apelo das cidades, as inconsistências e as desigualdades sociais, a crise das instituições, as remarcações do jogo público/privado.

Artista de grandes e pequenas dimensões consegue apresentar seu argumento em enormes painéis, instalações, cenas, performances e, também, em pequenos objetos, desenhos, grafites, intimistas e contundentes.

Crédito: Foto do artista.

No antigo farol esquecido e enferrujado do bairro da Farolândia, Aracaju-SE, pregou um enorme BAND-AID, expondo a dor do abandono e o perigo da desintegração de um prédio de valor histórico numa cidade com poucos prédios de valor histórico.

Gritou tão alto que o farol foi reformado e hoje torna-se ponto de visita turística.

Na Praça da Matriz não se constrangeu em afixar um outdoor na forma de placa de venda. Seu VENDE-SE foi tomado ao pé da letra, levando a revolta da população inconformada com a venda da mais bela praça da cidade.

Político, engajado, mesmo que termos datados no universo da arte, são adjetivos substantivos da obra de Fábio Sampaio, que torna visível a descostura do tecido urbano contemporâneo.

Não é uma prática inovadora o artista sair na defesa de ideais sociais, posto que, pelo menos desde a revolução Russa, para nos concentrarmos na Modernidade apenas, a arte e a política tem andando de braços dados.

Mas o que intriga em Fábio e o seu trânsito pelos problemas macro e micro, pelas questões íntimas e as de cunho social. O modo como transita da pele ao osso, não se esquivando dos machucados que a experiência acarreta.

Escarifica-se mas sem perder alma lúdica. Johan Huizinga, historiador holandês, acrescentou, na década de 30 do século XX, mais um qualificativo ao ser humano: chamado de homo sapiens, faber, economicus, seria ainda homo ludens, ou seja o “homem que brinca”.

Para Huizinga somos, antes de tudo, homo ludens, a brincadeira e o jogo, são aspectos sérios da nossa constituição e caracterizam a nossa própria humanidade, aspectos sem os quais comprometeríamos a nossa própria condição. Muito embora o senso comum considere a brincadeira e o jogo como inseridos nos territórios do não-sério, Huizinga mostra que mais do que necessárias, atividades como brincar e jogar são mais sérias do que se costuma pensar. Jogos e brincadeiras estão sempre marcados por regras, normas, tempos definidos de duração e têm sempre começo e fim.

Em suas casas transparentes Fábio Sampaio deixa a mostra seus intestinos, dutos energéticos, tomadas e ligações elétricas que conduzem o espírito dessa era contemporânea e complexa.

Com uma técnica acurada e a pesquisa de materiais novos, cores, reciclados, tessituras urbanas, o artista inova e provoca o olhar, com uma força que não deixa o expectador indiferente e o retira de sua acomodação.

Lilian França

Universidade Federal de Sergipe

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.