Arnaldo Antunes fala de espiritualidade e política em novo trabalho

Arnaldo Antunes tirou longas férias no início de 2015. Descansou? Neste segundo semestre ele está com disco novo, show novo, livro novo e também uma exposição itinerante. “Minha profissão tem essa de que o trabalho também é prazer”, explica por telefone de São Paulo na maratona de entrevistas para a divulgação de “Já É”, seu 16º disco, lançado pela Rosa Celeste/Sony Music.

São 15 canções, todas com a inconfundível assinatura artística de Arnaldo, mas também com uma grande variedade de estilos que vão do reggae à bossa nova, passando pela mpb, o pop e o rock. “Eu venho de uma geração pós-tropicalista, então para nós fica fácil essa gama de influências e abertura musical”, diz o compositor que iniciou também uma série de shows pelo país. A produção do álbum é de Kassin. (Veja abaixo o clipe de “Põe fé que já é”).

Como não poderia deixar de ser, já que Arnaldo é um compositor gregário, das 15 músicas do disco, apenas 3 ele assina sozinho. Entre os parceiros estão a mulher, Márcia Xavier, os tribalistas Marisa Monte e Dadi, Péricles Cavalcanti, entre outros.

No show, com os músicos Chico Salem, André Lima, Curumim e Betão Aguiar, ele incluiu 11 das novas canções. No dia 17de outubro, desembarca em Curitiba, no Guairão.

Cidade sagrada

As férias criativas de Arnaldo Antunes tiveram uma importante parada na cidade sagrada de Rishikeshi, na Índia. Ele, que sempre teve um interesse confesso na filosofia oriental, agora se deparava com a espiritualidade transbordante do local.

O resultado foram as canções “Só Solidão” (uma bossa-nova), o mantra Aqui Onde Está” e “Antes”, canção que reúne a filosofia e a crença com sua letra que é uma espécie de sessão de conselhos, uma auto-ajuda musical, se você conseguir tirar a parte pejorativa dessa afirmação (“antes a dor do que a indiferença/ antes a ignorância do que a estupidez/ e depois alegria e gratidão”). “Acho que essas canções acabaram formando um eixo que várias canções do disco tangenciam (‘Naturalmente, Naturalmente’; ‘Peraí, Repara’; ‘Põe Fé Que Já É’, entre outras)”.

Canção de protesto

O Congresso aposta mais na ingovernabilidade e pouca gente pensa no Brasil

Mas se há espiritualidade, há também materialidade no novo disco. Arnaldo aproveitou a melodia de Péricles Cavalcanti, um reggae roots, para, na tradição da música jamaicana, mandar alguns recados políticos. A letra começa assim: “Eles não pegam em armas/ Só em canetas e papéis/ Mas matam mais com suas leis/ Que atiradores cruéis/ Estatutos de escorpiões/ Despachos de cascavéis/ Cobertos de suas razões/ Dos cabedais até os pés/ Óbitos óbitos óbitos/ Nunca é demais…”.

Engana-se quem pensa que a letra foi feita para o momento político do país. “É algo universal, não fiz pensando só aqui”. O que não significa que o cidadão Arnaldo Antunes esteja indiferente com o que acontece no Brasil. “É um momento preocupante para o cidadão, de incertezas e recessão. Também um momento político preocupante, com esses pedidos de impeachment. O Congresso aposta mais na ingovernabilidade e pouca gente pensa no Brasil”, afirma.

Processo de composição

A grande variedade de estilos musicais e temas faz parecer a cabeça de Arnaldo Antunes uma máquina. A impressão que deixa é a de que faz várias músicas por dia. Mas ele tem um segredo, ou melhor um método, sem segredos. “Eu anoto ideias em todos os momentos. Posso estar andando na rua e me vem alguma ideia de melodia, então eu gravo rapidinho no celular, ou anoto ideias de letras.” Depois, um dia ele retoma aquilo, seja motivado por um pedido de parceria, ou como acontece nas férias, quando ele está mais disponível, sem a pressão de prazos ou metas. “Aí algumas dessas ideias se transformam em canções e outras continuam em estado de rascunho.”

Produção de Kassin

O produtor Kassin diz que gostou de ter trabalhado com o ídolo, mas confessa uma dificuldade. “Eu sempre quis trabalhar com o Arnaldo, sempre fui fã dos Titãs e da sua carreira solo. Quando recebi o convite, nem acreditei. Fizemos um disco lindo. O mais difícil foi selecionar o repertório, Arnaldo tem uma tonelada de músicas boas.”

O disco teve a colaboração de muita gente. Eis a lista: Pedro Sá, Domenico Lancellotti, Kassin, Davi Moraes, Marcelo Jeneci, Pedro Garcia, Stéphane San Juan, Zé Miguel Wisnik, Jaques Morelenbaum, Gabriela Riley, Armando Marçal, Márcia Xavier, Brás Antunes, Bacalhau, Caru Zilber, Chiara Banfi e os tribalistas Marisa Monte, Carlinhos Brown, Dadi e Cézar Mendes.

O livro

“Agora Aqui Ninguém Precisa de Si” é o primeiro livro que Arnaldo Antunes lança pela nova editora, a Cia. das Letras. O 24º lançado pelo paulistano criativo e trabalhador incansável. Mas o livro estava encaminhado antes das férias sabáticas de 2015. O último livro de poemas dele, o N.D.A. (Iluminuras) tinha sido lançado havia cinco anos. Foram então cinco anos de produção poética agora reunidos.

Arnaldo gosta de ele mesmo fazer a seleção, a edição e o projeto gráfico de seus livros. Com “Agora Aqui” não foi diferente. Então, durante as férias, ele encontrava tempo de mexer um pouquinho no livro agora lançado. “Sou apaixonado pela parte gráfica”, diz. Para ele a materialidade da palavra tem de estar representada graficamente no livro.

Exposição

Junto com livro, disco e show, surge também a exposição “Palavra em Movimento” (Centro Cultural dos Correios, SP. A curadoria é de Daniel Rangel. É a palavra de Arnaldo Antunes pensada para outro suporte. “O meu trabalho com a palavra busca um atrito com diferentes formas de expressão”, argumenta. São poesias e letras de composições reunidas durante a carreira de 30 anos. Depois de São Paulo, a exposição deverá itinerar por outras cidades do país.


Originally published at pobreblog.wordpress.com on September 28, 2015.

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