Náufrago

Ele tinha um alface no dente. Era quarta-feira. Tenho o azar de dividir meu horário de almoço com metade dos indivíduos onde eu trabalho o que torna a cozinha poluída e minha comida ainda mais azeda. Fazendo uma conta rápida, um cigarro ocupa um terço do meu horário e a escada externa é o melhor lugar pra ficar sozinho, mas aquele cara insistia que fazia cinco meses que não me via e me atulhava de histórias entediantes e com cheiro de frango cozido. Ele continuava falando sobre sapatos, bananas e como sobreviver na natureza. — Você sabia que dá pra lustrar sapato com o interior da casca de uma banana? — Ele me contou. Lembro de quatro anos atrás e o quanto ser antissocial naquele período era sinônimo de elegância. Eu tinha uns vizinhos pirados que me achavam descolado porque eu não conseguia falar com ninguém. Grande parte dos assuntos eram sobre veículos, maconha e política, em certas situações que eu abençoava minha ignorância e falta de fanatismo pra conseguir manter uma conversa barata com alguém. Em qualquer meio social, eu me emborrachava de seis latas de cerveja e concordava com qualquer opinião que me apresentavam, quase sempre sem o entusiasmo que o tom de voz dos locutores me sugeria. As pessoas ficavam cada vez mais feias quando tentavam defender algum ideal, me fazendo aprender a percepção de que defender qualquer fato te deixava mais imbecil do que o efeito da própria cerveja. Era cômico quando as pessoas me rotulavam esdrúxulo apoiadas apenas na minha falta de curiosidade sobre a vida alheia. De qualquer jeito, eu ainda perguntava qual seu curso na faculdade ou sobre a garota que você tava comendo. Mas eu não queria explicar pra você a origem das marcas no meu braço. Os vizinhos me achavam descolados por eu pensar umas merdas assim. Na verdade, o único sentimento que me trajava, era preguiça. — Dá pra fazer uma bússola com uma agulha e um punhado d’água, também — O cara me informou, enquanto entupia o prato de frango e salada com mostarda. — É fácil, você se guia pelo Cruzeiro do Sul, e logo acha o norte. Dá pra ir pra qualquer lugar só olhando pro céu. — Ele continuava, entre uma mastigação e outra. Faltavam doze minutos. Ele sentava na escada em caracol de metal descascado segurando uma vasilha com a comida apoiada nos joelhos, o que bloqueava a passagem até meu setor em qualquer tentativa de romper aquela conversa manjada que me fazia valorizar cada segundo da minha azia. Lembro que semana passada a mãe de um amigo me convidou pra comer na casa deles. Não me recordo do nome da senhora, mas eu lembro do esforço que fazia para ser simpática. Frequentava alguma igreja dessas com cadeiras de plástico e o chão de madeira infestado por cupins. Começou a decorrer sobre o assunto do jornal naquela semana: o caso de um maluco que se jogou do viaduto com uma boneca inflável. O filho dela, amigo meu, disse uma vez que ela sente uma dose de culpa pela vez que eu parei numa clínica psiquiátrica e por isso se achava no dever do discurso sobre a valorização da vida no século atual. Eu bebia água calado tentando manter o contato visual — seria um desacato expressar indiferença. Enfim tudo se condensava no mesmo conceito chulo onde ela me fez considerar que de nada interessa quem você foi ou o que você passou: se você se jogar de um viaduto com uma boneca inflável, você não é nada além de um maluco. Se você for encontrado roxo e pendurado no quarto, as linhas no meu antebraço e só vão deixar o jornal expor o quão perturbado eu era, e nada além. Não é isso o que as pessoas querem ouvir. As pessoas querem amar os mortos e se surpreender. E eu precisava de condeno por sentir tanta preguiça. A vantagem é que o cara com cheiro de frango e alface no dente era um dos que me achavam descolado por não conseguir esboçar nenhuma reação. Eu tinha acabado de acender meu terceiro cigarro quando ele começou a falar sobre ursos.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.