A saúde pública na visão de Marcela

Por Lucas Amaral

Quem passa horas nas filas de espera para atendimento em postos de saúde ou hospitais, em sua maioria, encontra-se enfermo ou com mal-estar. Naquela tarde chuvosa de segunda-feira, após atender diversas crianças no consultório de pediatria da Santa Casa, em Porto Alegre, a doutora Marcela estava na frente de uma mãe que enfrentou uma lista de espera de duas horas para ser atendida, cujo o filho apresentava perfeito diagnóstico de saúde.

Marcela Menuci Guimarães, 22 anos, cursa o sétimo semestre de medicina na Universidade Federal de Ciência da Saúde de Porto Alegre -UFCSPA e realiza atendimentos, vinculados ao seu curso, no hospital Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre e, também, em postos de saúde em comunidades carentes da capital.

Durante aquele atendimento que, desde então, mudou sua visão sobre os problemas de saúde pública no Brasil de um modo geral, a estudante viu-se frente a frente com um caso bem específico e delicado. Uma mãe de um menino de cinco anos que tem autismo, paralisia cerebral parcial, entre outras incapacidades, mas que naquele momento não apresentava nenhum sintoma que afetasse sua saúde, solicitava uma carta escrita por ela para ser entregue na prefeitura, pois, seu filho estava em uma lista de espera com mais de trezentas crianças em sua frente, para poder ser matriculado em uma escola.

“Ela queria que nós escrevêssemos uma carta pra ela levar na prefeitura, dizendo que a criança estava em perfeitas condições. Ela queria que seu filho tivesse contato com as crianças da escola para obter o estímulo do convívio com outras crianças da idade dela e isso ajudar no seu desenvolvimento”

Por ser estudante de instituição pública, Marcela tem seu conhecimento todo embasado na saúde comunitária. Através de atendimentos realizados e conteúdos ensinados em seu primeiro semestre na Faculdade, na matéria chamada PET-Saúde, aprendeu sobre saúde pública e medicina da família e comunidade. Foi nesta época que formou sua opinião sobre a palavra “saúde”.

“Saúde não é só não estar doente, mas também é uma questão de preocupação de bem-estar psicológico, emocional e social”

Em um atendimento dentro de uma comunidade carente, a acadêmica percebeu que a população daquela região tinha falta de conhecimento de informações básicas sobre saúde. Durante uma caminhada pela região, ela e um grupo de colegas perceberam que em um centro de coleta de resíduos não havia Equipamentos de Prevenções Individual (EPI) para os trabalhadores. Reunidos, os alunos prepararam uma aula complexa sobre explicações de prevenções e doenças em risco potencial que havia no local, porém, perceberam que os empregados não tinham nenhum conhecimento básico sobre saúde e cuidados pessoais.

“Eu percebi que a gente não tá preparado pra realidade da maioria dos brasileiros, porque tem muito mais falta de conhecimento de coisas básicas sobre saúde do que a gente imagina. Nós cancelamos tudo que havíamos preparado e fizemos uma roda de conversa com conceitos muito mais básicos do que esperávamos”

Marcela acredita que a falta de verba e a má gestão do dinheiro público são os principais problemas para barrar o desenvolvimento da saúde pública.

“Eu só acho que muitas vezes a saúde pública é deixada de lado na hora de distribuir a verba, sendo que deveria ser prioridade, porque saúde pública não é só a doença física, mas sim as doenças emocionais, psicológicas e que deviam ser tratadas melhor”