Elogio ao mal-entendido

Ldenardin
Ldenardin
Nov 2 · 2 min read

Me ofende rudimente a clareza exigida em todas as situações humanas, a busca maníaca pela verdade, a obrigação obsessiva por explicações e justificativas, e principalmente, o rechaço das possibilidades que são próprias dos mal-entendidos. No tipo de sociedade em que vivemos, em que a continuidade material de vida é cotidianamente posta em questão, crescer, se tornar adulto, população ativa, é prezar cada vez mais por uma objetividade nociva a toda forma de cerimônia, de cortejo amoroso, de coquetterie demorada, dos rodeios da cortesia… Antes, nas diversas situações que a vida infantil propagava, havia sempre uma necessidade vital de ritualísticas, mesmo nas menores brincadeiras. É necessário acrescentar que cada criança é um dramaturgo em atividade, estetizando a própria existência, desfazendo funcionalidades consolidadas, na medida mesma em que redescobre sentido escondido nas coisas (como meu irmão de cinco anos, quem a menor elevação o coloca no espaço sideral). Elas, as crianças, inventam um mundo todo própria, personalizado, onde os operadores semiótico binários (verdade/mentira) não se aplicam.

Não se trata de saudosismo, nem mesmo de um apelo nostálgico por um retorno a um paraíso perdido. Mas mais um sugestão: que aprendamos a nos sentir mais confortáveis com o engano, com as possibilidades de desvio, de descaminho e de errância.

Outra vez, pensei que sobravam palavras entre nós dois, engano meu! Foi justamente quando elas desaparaceram por completo — este fora um dos momentos mais bonitos da minha vida.

Se não me falha a memória, todos aqueles instantes que têm a estranha capacidade de se prolongar, todos aqueles afetos que guardam um vivo pode afetivo, enfim, todas as alegrias mais alegres (encontrar inesperadamente a pessoa amada), ou as tristezas mais tristes (como acontece no trauma), surgem justamente de momentos onde o planejamento entre em pane e a situação vai se desenhando conforme vai acontecendo. Em todo caso, perder o curso, o controle, as rédias, causa inevitavelmente, para o bem ou para o mal, uma sensação inevitável de vertigem. Eu quero mais dessa vertigem. Estou torcendo por mais mal-entendido, quero que o mundo inteiro se revolva em revoluções que explodam todos os redutos do confiável. Mal-entendido — sobre essa pedra edificarei minha igreja.

    Ldenardin

    Written by

    Ldenardin

    Todas as histórias que conto são reais, inclusive as que sonho ou imagino.