
Fique rico ou morra apostando
Apostar é um dom intrínseco ao ser humano, somos jogadores, mal perdedores muitas vezes, mas definitivamente jogadores. E não houve nada que qualquer governo pôde fazer contra isso. Não temos cassinos (legais), fecharam nossos bingos, mas temos padarias. Qualquer padaria de quebrada no estado de São Paulo tem uma sala escondida por caixas de cerveja cheia de caça-níqueis, em qualquer padaria você também encontra o tiozão do jogo do bicho. E brigadeiro, acredite, brigadeiro de padaria é uma das apostas mais arriscadas do mundo. Vontade de morrer quando pego um recheado de bolo.
Eu mesmo já brinquei com caça-níquel algumas vezes. Já que ia até a padaria para comprar cigarros, por que não apostar 25 centavos e voltar com os cigarros e um Fruttare? Com o palito certo poderia ganhar um segundo Fruttare. Esse sou eu, nunca foi um vício, mas todo mundo gosta de apostar. Minha tia, por exemplo, consegue fazer analogias entre qualquer sonho e animais para jogar no bicho.
Ontem sonhei que atravessava a pé duas montanhas, estava com fome e frio, sua mãe estava lá e reclamava, pra variar né, se não estivesse reclamando não seria a sua mãe. Andamos, andamos e encontramos uma mesa com chá de capim santo e rosquinha Mabel. Não lembro o final do sonho, mas não me deixa esquecer de passar na padaria, vai dar camelo na cabeça.
Se algum dia isso funcionasse comigo seria provavelmente algo como “ah mano, sonhei com a sua irmã. Vai dar pavão”.
Mas as padarias não são os únicos ambientes propícios para se perder em apostas e sonhos. A perdição da minha vó era em casa, aquela velhinha franzina e inofensiva que me entupia de pudim também era uma jogadora. Ela tinha uma caixinha onde guardava todas as suas edições da Tele Sena, Papa Tudo e carnês do Baú. Saia correndo igual uma doida quando o Lombardi começava a falar os números sorteados. Mas não acredito que ela pensava no dinheiro ou nas casas, penso que ela jogava na esperança de ser chamada para o palco e conhecer o homem do Baú.
A maioria entra nessas de aposta cedo. Para mim começou com Mario kart, tazos e figurinhas. Lembro especificamente do álbum do campeonato brasileiro de 1996, me faltava apenas uma figurinha de um jogador do Bragantino e um moleque da minha rua a colocou no monte que estávamos batendo. Ele a colocou lá e sem soltá-la me olhou nos olhos esperando qualquer reação para que desistisse, eu olhei de volta e com apenas 9 anos gastei o que talvez tenha sido o blefe da minha vida.
Bragantino mew? Completei o Bragantino mês passado.
Ele soltou a figurinha, tiramos par ou ímpar, e assim completei meu álbum.
Sempre fui competitivo pra caralho, nunca soube perder, mas sempre gostei de apostar, e não sou o único. Para ter ideia, em 2012 o brasileiro gastou R$ 4 fodendo bilhões em sites gringos de aposta esportiva. Aposto com você que no mesmo período o dobro disso foi gasto em apostas de fardinho de breja em dias de clássico e o triplo em apostas de quem termina de beber uma lata primeiro.
Somos tão criativos quando o assunto é apostar que transformamos pôquer em esporte. Qualquer cidade tem uma casa legal de pôquer oferecendo torneios com buy-in baixo e premiação bacana. Veja bem, pegamos uma coisa que era malvista, coisa de saloon, muita gente virou peneira no velho oeste por isso, Tony Soprano organizava mesas de pôquer, e transformamos em um jogo legal. Incrível.
Mas nada disso se compara às loterias convencionais da Caixa Econômica Federal, que você pode chamar de CEF, mas eu acharia mais engraçado se fosse CE FED. Somos um país religioso, temos ruas e praças com nome de santo, temos uma caralhada de feriado religioso, mas os dias de “fézinha” não envolvem nenhuma. Você acha que o SUS tem fila? Que o INSS tem fila? Que a Imigrantes sentido baixada em feriado tem fila? Porra nenhuma, lotérica com Mega acumulada tem fila. Os jogadores são tão importantes que ganham até uma fila própria, se não fosse isso os pagadores de conta estariam fodidos, mais fodidos no caso.
Não adianta, sempre acharemos uma forma de apostar, de perder ou de ganhar. Para mim funciona da seguinte maneira: não envolvendo rinha de galo, cachorro, ornitorrinco ou qualquer outro animal, aposte no que quiser por sua conta e risco. Acredite, tem gente que perde tudo e se mata por causa de Mega Sena. Parece que com essa crise alguns senadores também começaram a pensar o mesmo e estão em processo de convencer a Dilma para liberar tudo, o que não me parece muito difícil.
A parte complexa da coisa: Agora que o setor privado será impedido de enfiar dinheiro em campanha eleitoral, regulamentar os jogos pode ser a melhor lavanderia do mundo. Muitos traficantes pensaram nisso antes, mas beleza.
A parte meio complexa: Comece a planejar sites e temas de apostas, não se prenda apenas aos esportes, existe um território imenso para ser explorado.
Deixo aqui algumas sugestões:
- Quanto tempo para a Xuxa começar a dar selinhos nos convidados do seu programa?
- Quantos litros de suco daria para fazer com todas as metades de laranja que o Fábio Jr já comeu?
- Quem é o melhor piloto, Marrone ou Herbert Vianna? Mentira, não usa essa não.
A parte menos complexa: Se for para transformar qualquer capital brasileira em Las Vegas, que não seja Macapá, imagina ter que falar “o que acontece em Macapá, fica em Macapá”.
