Promessas iguais, para um novo ano

Enfim, acabou 2015. Pelo menos dizem isso. Falar que foi um ano complicado e difícil tem mais a ver com a empatia do que com a ingratidão. Encarar os fatos se faz necessário e, diante de tantos acontecimentos ruins, não se abalar é negar nossa humanidade. É negar o outro.

2016 será um ano (assim como todos os outros que se passaram) que carregará sequelas antigas e atuais. Como nação e como indivíduos jamais escaparemos disso. Creio que é por isso que sempre fazemos promessas que proferimos a nós mesmos todo réveillon. A questão é: por vezes alguns temas sempre estão em pauta e nunca saem da lista, por quê?

O problema não é a nossa incapacidade de superar o desafio, mas sim de lembrá-lo. Nossa memória é curta. A lista logo fica empoeirada. E a vida segue — pelo menos achamos isso. Mas para aonde? Seguimos como um barco a deriva, porque nos esquecemos do mapa (lê-se coração). Como diz o provérbio: “dele procede às fontes da vida”.

O que está em questão aqui não é o que escrevemos num pedaço de papel, mas a atenção que damos a nós mesmos. Ao nosso desejo por mudança. Rubem Alves diz que “aquilo que está escrito no coração não necessita de agendas porque a gente não esquece. O que a memória ama fica eterno”.

Oliver Saks, ao saber que lhe restavam apenas alguns meses de vida, devido a um câncer que teve metástase em seu fígado, escreveu um artigo para o New York Times chamado “My Own Life” (Minha própria vida, em português), uma grande lição sobre viver e morrer. Nele, ele diz:

“Não vai haver ninguém igual a nós quando partirmos, assim como não há ninguém igual a nenhuma outra pessoa. Quando as pessoas morrem, não podem ser substituídas. Elas deixam buracos que não podem ser preenchidos, porque é o destino — o destino genético e neural — de cada ser humano ser um indivíduo único, achar seu próprio caminho, viver sua própria vida, morrer sua própria morte.”

Oliver viveu bem a sua morte, porque viveu bem. E sem dúvidas cada promessa feita por nós todo inicio de ano diz respeito ao desejo intenso que temos de ter uma vida boa. Mas para mudar é necessário se conhecer. Por isso é importante a pergunta: quem sou eu? (implícita no texto de Oliver).

Quando sabemos quem somos, sabemos para onde queremos ir. E neste contínuo processo de autoconhecimento começam-se as mudanças. Porque nele, parafraseando Rubem Alves, novamente, desaprendemos para aprender de novo. Raspamos as tintas com que nos pintaram. Desencaixotamos emoções, recuperamos sentidos.

Cabe a nós aceitarmos os desafios de acessar nossas memórias para prometermos menos. Não porque é um absurdo prometer, mas por tê-las cumprido.