Onde está a Criatividade do Brasileiro?

Moramos no DITO país do improviso, no país da mistura, onde tudo magicamente acaba dando certo. Somos vistos como um povo alegre e efervescente no campo criativo. Foi uma colonização escrota, mas é isso que nos dá felicidade. Somos pobres, mas nenhum pais tem tanto recurso natural disponível.

O resultado disso é aquele sentimento clássico de estarmos quase lá. Como se fosse vivêssemos naquele paradoxo matemático de que se andarmos sempre a metade do caminho, nunca chegaremos no ponto final, apesar de estarmos infinitamente próximos dele.

Essa situação me faz refletir, onde está toda essa criatividade e, consequente, potencial? Quais são as manifestações tangíveis e evidentes dela? Eu acredito na zueira, ou melhor, zuera. Na zuera de formular uma chegada na mulher ou de dar a desculpa para a patroa por chegar tarde em casa. Sem dizer nos infinitos tipos de golpes, sequestros falsos, cartões clonados, empresas falsas de empresa falsa. Até mesmo ressuscitar os mortos nós fazemos para enganarmos uns aos outros.

Não me levem a mal, vejo até algum valor nisso. Percebo nessas atividade criminosas a essência da capacidade de transgredir e de cogitar mundos diferentes e melhores. Infelizmente, esse tipo de criatividade acaba ajudando apenas poucos, como sempre o foi. Agora, se isso fosse aplicado ao bem comum, seríamos o país mais foda do mundo. Afinal de contas, nessa área somos imbatíveis, salvo um ou outro argentino ou italiano que se destacam.

Já nas discussões políticas, por exemplo, não parecemos evoluir na mesma velocidade das técnicas de clonagem de cartão. O que vejo são as pessoas “de ponta” repetindo tal qual um papagaio as velhas críticas criadas há dois séculos atrás como se fossem a novidade do momento. E estão satisfeitas consigo por isso. Talvez justamente por não se sentirem responsáveis pela implementação. Apenas deixar os amigos impressionados com a sua “cultura” já basta. Os mais ambiciosos querem sexo também.

Quando o óbvio é que se ainda não foi implementado, provavelmente essa ideia é uma merda e precisa ser trabalhada melhor. Quem ainda não se cansou de ouvir a ladainha de que a sala de aula é uma igual ao exército? Que a escola limita a criança e mata sua criatividade? Que as pessoas precisam aprender fazendo? Que precisamos ser agentes da nossa própria educação?

Isso é tudo legal — eu concordo com as diretrizes gerais-, mas provavelmente existem boas razões para ainda não termos chegado lá. Ou até mesmo, isso não é apenas ligar ou desligar. Existem degraus, etapas que precisam ser cumpridas. Como o fato da educação do jeito que é, ainda não ser nem mesmo uma realidade para a maioria da população. E, no final do dia, tudo que ouço é:

– Precisamos de mais escolas!
– Os professores são horríveis!
– Mas pelo que ganham devem ser mesmo!

E, por ai vai, mas ninguém para para pensar um passo a mais que seja. A questão da educação não é simples e nem pode ser resolvida dentro do âmbito da escola fisicamente falando. Será mesmo que precisamos de mais escolas ou escolas melhores? Precisamos de mais ou menos professores? Será que melhorar as estradas de uma região não seja a melhor solução para educação, pois vai permitir que pessoas de um raio maior de distância cheguem a ela? E a internet? Não seria possível fazer uma estratégia de distribuição de computador? Enfim, só para pincelar estamos falando aqui de opções que envolvem transporte e tecnologia como solução para educação. Nunca ouvi ninguém defender uma posição dessa com afinco, realmente acreditando no seu resultado.

Aproveito esse momento para dizer a mesma coisa sobre o transporte. Nas cidades grandes, o maior inimigo da vida parece ser o trânsito e, com ele, os carros. É um meio de transporte poluidor, egoísta, individualista, not cool.Concordo que os carros são escrotos mesmo, em especial, em em áreas de concentração urbana. Nesse contexto, tudo que ouço falar são bicicletas, ciclovias, compartilhamento e caronas. No entanto, novamente, as soluções de transporte parecem sempre envolver o próprio transporte, quando pouco se fala de uma proposta urbana. Como, por exemplo, re-planejar a cidade com a premissa de que todo adulto saudável deve andar 2 km por dia para se deslocar. ISSO COMO REGRA. Sem contar nos efeitos colaterais de acabar com os carros como os milhões de profissionais da indústria, para onde eles vão? Fazer trem? Ou o que? Sem essa solução, pode esquecer de acabar com os carros.

Enfim, essa unilateralidade na interpretação me incomoda e desencadeia reflexões ainda mais profundas para imaginar a sua causa. Neste ponto, não consigo deixar de pensar que a nossa mente cria de acordo com o que ela consome. Se entra informação ruim, sai ruim. Se entra limitada, sai limitada. O que quero defender é que existe uma gradação, de acordo com o tipo do conteúdo — não apenas sua qualidade intrínseca — que estimula mais ou menos a nossa capacidade criativa, nossa capacidade de pensar diferentes cenários e dimensões.

Para mim, a grande prova disso está na diferença entre ler um livro e ver um filme. Qualquer um que já tenha consumido o conteúdo nessa ordem (livro depois filme) sabe o que estou falando. Ao ler um livro, você tem espaço para imaginar todo o universo, visto que nem tudo está descrito. Você exercita a sua cabeça a decidir desde o rosto do personagem até os detalhes do ambiente como cor da cadeira. E, inevitavelmente, ao ver o filme, por mais perfeito que ele seja, você vai se sentir contrariado, pois o diretor terá feito várias escolhas no seu lugar, passando por cima da sua própria imaginação. Logicamente, se você só vir o filme, nem a oportunidade de ter imaginado algo mais rico antes você terá. Tudo lhe será dado já mastigado e altamente interpretado. As melhores cenas e falas escolhidas, assim como a aparências dos lugares e personagens.

E, mesmo dentro dos livros, existe a variação entre a prosa e a poesia. No mesmo mecanismo livro-filme, a prosa deixa muito menos espaço para imaginação e interpretações, pois normalmente segue uma lógica e é muito mais descritiva, do que a poesia, que é “incompleta” justamente para permitir diversas interpretações e é emotiva, para ser sentida. O verdadeiro auge da linguagem escrita, na minha opinião.

Fora os conteúdos tradicionais (livros, filmes, música, arte em geral), muitos argumentam que aprendem muito com a vida e com outras pessoas. Sim, adoraria que isso fosse verdade, mas a realidade é que a maioria anda mesmo com pessoas extremamente parecidas com ela a vida toda. Sem contar que se sentem ameaças com qualquer diferença indo do mais extremo como classe social até detalhes como estilos de se vestir diferente ou o corte de cabelo. Sentem verdadeiro nojo e preconceito de qualquer coisa diferente.

O grande público, a massa, quer mesmo é congelar o estado de “perfeição” que já se encontram. Como se suas vidas já tivessem alcançado o seu estado mais sublime e nada mais deva ser buscado. Na verdade, a única busca que parece existir é por algo que chamei de A GRANDE FOTO, isto é, aquele momento ideal que deve ser congelado para sempre. Algo que na minha visão é nosso hábito moderno mais mórbido.

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