Colonização digital — Novos territórios e significados para a moda.
Há alguns séculos grandes mistérios e dúvidas pousavam sobre o homem e o mundo que o circulavam, como ainda atualmente; a religião e a fé marcavam cada passo desse homem que se mantinha curioso ao olhar para o céu, ao olhar para os lados. O que havia acima de onde se podia ver? O que havia além do horizonte que os olhos alcançavam? O que havia além de si próprio? Não falemos exatamente de propósitos mercantis, de busca de poder, porque mesmo estes se circulam, na sua proporção, em torno da vontade da descoberta. Descobertas estas que foram feitas respondendo perguntas que geraram e continuam gerando outras novas, e esse ciclo, sabemos, é eterno. Descobrimos a forma do nosso planeta, definimos territórios, trocamos moedas, mercadorias, pessoas, cultura e nos organizamos através de leis e acordos, erros e guerras, nos industrializamos, nos informatizamos e de repente quilômetros de distância estavam a um clique, e surpresa, de repente a um toque de distância e nos tornamos onipresentes, quase sem fronteiras. Estava ali um novo território sendo explorado, o território da interação, o território da proximidade.
Sem esforço é possível identificar e incluir entre esses extremamente resumidos trechos influências e características de moda que estavam de mãos dadas com o homem dos seus momentos mais corriqueiros até aqueles que sozinhos definiram o rumo da humanidade, e não é necessário que se estabeleça uma linha cronológica de atuação e desenvolvimento da moda em si, mas vivemos grandes períodos sob influência de grandes nomes da alta-costura e ícones que surgiam e se eternizavam nas telas de cinema, nas capas de revista, no meio de seletos grupos sociais, entre outros. Eram deusas e deuses, divas, rockstars que frequentavam o imaginário de fãs e admiradores.
O mercado da moda se massificou da alta-costura para o prêt-à-porter ao fast-fashion, que por sua vez só fez sentido quando a capacidade de gerar informação se tornou tão eficaz e rápida quanto à capacidade de distribuição, além da alta receptividade dos consumidores que agora não admiram apenas estrelas do cinema e da música, mas sim personalidades que são reconhecidas e valoradas tão quanto eles mesmas poderiam ser.
A evolução digital proporcionou uma abertura de mercados e a possibilidade de que novos trabalhos e propostas pudessem ser apresentados com qualidade e até com pouco investimento aos antigos e novos consumidores. Uma maior diversidade gerou a facilidade e a competitividade nos mercados, que geraram a abertura de novos outros nichos e grupos nos quais uma marca poderia dirigir seus esforços, ou seja, novos territórios não só de consumo, mas também de troca de informações e valores.
Essas novas divisões tornaram possível que uma marca conseguisse estar próximo dos seus consumidores transformando seus produtos e sua linguagem em um afago, uma voz, uma companhia a identidade do individuo. E as redes sociais apoiaram e transformaram essa interação.
Não é necessária qualquer pesquisa para que se veja o resultado absolutamente aparente de que as pessoas despendem grande quantidade de horas interagindo ou acompanhando interações públicas entre seus seguidores, da mesma forma que totalmente inocente de se imaginar que essa grande janela onipresente aberta 24 horas não seria usada em beneficiamento de marcas e serviços e não só do mercado de moda.
Uma abertura tão grande fez com que uma nova abordagem entre marca e consumidores fosse apresentada, já que o tempo integral de contato entre estes se tornou necessário a geração de conteúdo para alimentar essa relação. Dentro do enquadro geração pós-consumista apenas encantar não é o suficiente, questões sociais e políticas na qual a marca se constrói conseguem focalizar quase total atenção em alguns casos.
Se não se vende apenas produtos e sim ideias e valores, tornou-se necessária que uma personalidade fosse levantada e construída. Personalidades fortes e consistentes que podem tornar o produto um resultado e não apenas um motivo, ou seja, solidifica-se uma ideia que gera um produto, mesmo quando a marca não busca esse posicionamento.
A busca pela transposição de novas barreiras citadas no início desse texto fez com que a existência de fronteiras fosse evitada. Dotada de personalidade, não só marcas conseguiram encontrar espaço e se juntar ao dia-a-dia dos seus consumidores ou público-alvo de forma a perpetuar conceitos, valores e vender produtos. Elas não esperam ser procuradas na sua página da web, na sua casa virtual, mas buscam se aproximar das pessoas quase como tal, visto que já é dotada de personalidade e concretamente conseguem espaço e atenção.
A privacidade se tornou efêmera e o compartilhamento diário de informações pessoais faz dos usuários fontes de preciosas informações que são agrupadas e estudadas. Se por um lado esse conhecimento aprimora relações, serviços e produtos, por outro, a rapidez e a falta de valor com o momento presente tornam nós seres humanos apenas geradores e receptores de conteúdos tão passageiros que o acesso a tudo acabam por não significar em nada.
A linha tênue entre os aspectos positivos e negativos quando alcançada proporciona enormes ganhos. A aproximação entre marcas e pessoas melhora rendimentos e tornam os atos mais naturais e humanos, assim como influenciam na postura dessas empresas, que dá mesma forma que avaliam, também são avaliados a todo tempo.
Novos tempos sempre chegam, a diferença de séculos atrás é que a resposta para nossas perguntas agora pode ser dada por qualquer um de nós.