Daquele meu interior

Leandro Fazolli
Jul 10, 2017 · 3 min read
Foto: Arquivo Pessoal / Mogi Guaçu — SP

Foram vinte anos olhando o interior como capital, e somente a três anos vendo-o realmente como interior.

Céu azul, lagos, peixes pulando por alguma comida na superfície, árvores com muitos galhos, um pasto cheio de vaquinhas e cavalos, borboletas de todas as cores saracoteando pelas flores, tucanos dando segundos de graciosidade aos ares, maritacas e as conversas na suas linguagens, o trilho, que lá falamos “linha do trem”, o apito inconfundível que anuncia a hora dele passar. O cheiro do café na tarde de domingo, a cebolinha colhida na horta do quintal, as crianças correndo.

Como eu pude me ausentar desse interior por tanto tempo ? Eu o tinha sob os meus olhos e fiquei tentando vislumbrar nele uma capital, uma metrópole, uma “cidade grande”, o qual não era, nem nunca foi, nem sequer será. Era esse bucólico que me bastava, que era suficiente pra me seduzir. Mas, foi necessário eu sair dessa bolha de vinte anos, para aceitar que, sim, de onde eu venho tem vacas sim, tem bois também, tem cavalos aos montes, tem charretes na rua também. Foi necessário um intercâmbio de três anos no Brasil mesmo, na capital, mais precisamente em São Paulo, para dizer numa dessas conversas de boteco com amigos o que tem no de fato no interior, não só isso, até porque o interior não é uma zona rural como a maioria pensa, mas tem vida bucólica sim e uma cura para as ansiedades que a capital nos intensifica.

E o que isso me inferioriza em relação ao pessoal da “cidade grande”? Em nada! De fato, só me engrandece como pessoa.

Quem tem um amigo descolado da metrópole, é bem maneiro. Mas e quem tem um amigo descolado da metrópole, e ainda assim vindo da “roça” (como somos conhecidos por aqui) ? Ahhh, isso sim é uma delícia!!! É aquele que você pode tanto chamar pra uma balada no sábado a noite, quanto pra um café com bolo na varanda de um dia de domingo ouvindo Belchior e batendo um bom papo.

Foto: Arquivo Pessoal / Mogi Guaçu — SP

Ei, o trem buzinou… enquanto estou aqui escrevendo, num silêncio de domingo na casa da mamãe. Minha família toda dorme, o famoso cochilinho da tarde, depois de uma caminhada que fizemos juntos pela “linha do trem”. E eu, um pouco cheio de devaneios em mente pra conseguir dormir, sento aqui, nesse quintal, com a hortinha da mamãe lá no fundo e discorro sobre o privilégio de ter nascido aqui - Mogi Guaçu, interior de São Paulo, mais precisamente - crescendo com o sonho de uma metrópole, mas tendo todo o acalento e calmaria desse interior.

Foto: Arquivo Pessoal / Mogi Guaçu — SP

É onde eu me reconheço, me inspiro, me renovo, me vejo perdido em lembranças, reafirmo meus valores, aumenta meu amor pela minha família e me resgata do aprendido e nunca esquecido conselho de mamãe, o amor ao próximo.

E ainda tem aquela conversa de vizinho sentado na rua, o almoço de domingo, a família reunida, à comida vinda da horta do quintal e um sentimento de nostalgia impregnado. Ah se todos, soubessem o quanto eu me inundo de orgulho buscando um sonho na capital, mas com todo um coração inocente de interior.

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