Nossa Senhora à nos salvar

Foto: Diorgenes Pandini

O sino da igreja dá a primeira badalada…

O sertão é de terras vermelhas, elas estão rachadas, ao fundo uma igrejinha de Nossa Senhora dos Aflitos e aos arredores árvores com galhos também secos.

O sino dá a sua segunda badalada…

Uma casinha branca também é fácil de se ver, e nela uma senhora se alinha em frente ao rádio e o altar de Nossa Senhora e mais alguns santos, o terço já está entrelaçado em suas mãos.

O sino dá a sua terceira badalada…

A senhora sintoniza o rádio, ouvimos alguns chiados, até que a sintonia fique perfeita e pode-se ouvir uma música de Luiz Gonzaga.

O sino dá a sua quarta badalada…

A senhora se levanta, vai até a cozinha enche um copo d’agua e coloca ao altar ao lado do rádio.

O sino dá a sua quinta badalada…

A senhora senta-se novamente, se recosta sobre a cadeira e espera como se alguém importante está para chegar. No rádio ouvimos o locutor anunciar que são 17:59 e o inicio do terço da Ave Maria.

O sino dá a sua sexta badalada…

São 18:00. A cidade se silencia. Ouve-se no rádio:

“Ave Maria, cheia de graça, o senhor é convosco…”

_ Eu peço humildemente, ó mãe, que essas minhas rugas sejam vistas como marca de humildade de quem trabalhou uma vida inteira e nunca conseguiu sair da pobreza, de alguém que deixou de ter suas vontades para realizar as vontades do seus filhos. Eu peço que a senhora como mãe mostre aos seus filhos que só de amor nós vivemos, que o ódio de nada nos vale, que o ódio gratuito faz mal, mata pessoas, mata filhos, deixam mães à chorar. Eu já não tenho mais nenhum desejo à mim, que não seja a paz, a paz para o mundo, à paz para as pessoas que pensam apenas no dinheiro. E em seu egoísmo, não só bastado, tira dos outros o pouco que possuem.

Pela janela vê-se raios, relâmpagos, um vento forte adentra a sala e uma chuva começa a cair fortemente. A senhora aperta a medalha do terço e derrama lágrimas.

(Baseado na canção de Luiz Gonzaga, Ave Maria Sertaneja)