Eu falhei no empreendedorismo
Como empreendedor, eu falhei. Diversas vezes, principalmente, em 2016. E admitir isso não é simples, porque mostra que algumas decisões foram mal elaboradas ou mal fundamentadas. Mas isso não é algo negativo (agora). Ao contrário. Falhar traz muita experiência e fixa muito mais uma informação que antes era ignorada. Mas eu demorei para entender esse lado positivo. Tinha de processar as informações ainda.
Talvez, com alguns conselhos de outros empreendedores mais experientes eu poderia ter evitado diversos erros, mas eles aprenderam com os erros deles, então, eu aprendi (e aprendo) com os meus.
O ano de 2016 foi o auge das dores no empreendedorismo, das más decisões, dos tropeços, etc. e muito (muito mesmo) eu poderia atribuir à crise. Não ignorando a sua existência, mas quem estava preparado, até sofreu um baque, mas teve danos menores. Eu não estava. Ponto. Esses preparados são empreendedores que já estiveram nessa situação em outros momentos ou simplesmente tiveram insights na hora certa por terem mais conhecimentos técnicos e visão de negócios mais aguçada para tomaram decisões acertadas (arriscadas, mas tomaram).
Eu também tomei decisões. Nem todas foram por água abaixo. Um bom número de decisões foi bem acertada. E assim é empreender. Cada um tem uma forma, cada um empreende por um motivo, um se prepara melhor que outro. Tudo isso faz parte.
Mas a melhor parte de tudo isso é a maturidade que a gente desenvolve. Maturidade, resiliência, perseverança, conhecimento e nova forma de absorver as situações adversas. Nesse meio tempo há lágrimas, há até visita ao hospital achando que está tendo um ataque cardíaco, mas é crise de ansiedade (duas vezes). Contudo, isso serve para o mais importante: aprender sobre a gente mesmo.
Descobri não apenas falhas profissionais que eu cometi, mas pessoais também comigo e com outros, porque são dois setores da sua vida que são interligados.
Aprendi a ser tolerante com o erro dos outros e ver esses erros como passíveis de acontecerem e muito benéficos para o aprendizado. Um antigo amigo que é psicólogo com quem eu trabalhei uma época que costumava dizer:
“ou você aprende pelo amor ou aprende pela dor”
Entendi muito bem essa última parte!
Não que todos precisem passar por isso. Não que o único caminho seja errando e muito menos sugiro tomarem decisões de qualquer jeito, sem analisar riscos. Não. Mas há momentos que se você ficar parado, você apenas vai permanecer ali (ou mesmo retroceder) e precisa agir. E há quem passe por coisas bem piores. Nunca esqueci de uma história de um dono de uma empresa que teve de demitir 200 funcionários em 2016 e se suicidou enforcado dentro da própria empresa. Aquilo me marcou muito.
Mas foram pequenas coisas que pessoas de fora observaram sobre a situação naquela época que me fizeram ver que tudo deveria ser daquele jeito porque eu fui atrás. Após uma parte turbulenta ter passado, um ex-sócio ficou sabendo do que havia acontecido porque eu contei em uma conversa e ele virou pra mim e disse:
“Você passou por tudo isso e continua agindo? Você é mesmo um empreendedor.”
As suas palavras foram boas pra mim, pois, até aquele momento, eu apenas me sentia apanhando, com 7 funções nas minhas costas, perdendo clientes e salários de funcionários atrasados há 3 meses. Com essa conversa eu parei, analisei com um pouco de imparcialidade e percebi como eu havia sido resiliente e o meu desejo de resolver os problemas permanecia firme.
Eu ouvi algumas poucas vezes depois de outras pessoas comentários nesse mesmo sentido. Incluindo sobre a capacidade de me renovar (e só depois que eu fui perceber que eu estava me renovando mesmo). Assim, fui abrindo os olhos sobre o que acontecia e fui deixando de sentir a dor porque a couraça passa a ficar mais rígida, passei a entender de uma forma que nenhuma faculdade explicaria sobre as nuances do mercado, de uma empresa, clientes, funcionários e, principalmente, sobre autoconhecimento, que chega a novos patamares que somente em situações bem complicadas é possível alcançar.
Aprendi, principalmente, sobre medo de agir, de tomar decisões e de arcar com as suas consequências, sejam elas boas ou ruins (após calcular os riscos, é claro). O medo existe, mas, realmente, apenas enfrentando o que temia é que pude saber o que havia lá do outro lado. Algumas vezes foi resultado bom, outras, não. É como se diz popularmente: a gente corre antes de ver o tamanho do monstro.
Esta experiência é minha, é única. A experiência de outros empreendedores pode ser parecida, mas cada um tem o seu momento e sua forma de passar por tudo. Por isso mesmo, esta não é uma receita de bolo sobre empreender (até porque continuo longe e ainda aprendendo pra caramba, mas de uma forma mais centrada, com a experiência dos erros anteriores e sabendo ir além do que já fui), mas vale a pena conhecer algumas histórias porque há sempre algo com o que se identificar na trajetória de outro alguém, assim como eu fiz ao ler biografias de grandes nomes como Steve Jobs, Richard Branson, Flávio Augusto, Jorge Paulo Lemann ou mesmo conversar com amigos que empreendem também. Biografias e conversas que me proporcionaram alívio e mais consciência ao saber que dificuldades (umas piores, outras nem tanto) existem, mas são transponíveis.
Tenho vontade de organizar um evento sobre fracassos no empreendedorismo. Eu falo dos meus numa boa (mesmo sendo uma curta experiência), mas tem mais erros (e acertos) além desses que escrevi, e busco outros que queiram também compartilhar as suas falhas e dores com os demais a fim de ajudar quem está querendo começar ou que já começou mas que gostaria de ver que ele/ela não está só nessa jornada. Faz um bem danado saber que há outros!
P.S. Apesar de ter renovado (quase pivotei, no jargão das startups), confesso que ainda meio que me sinto no limbo, mas retomei o amor pela minha área e me sinto tão bem, com menos pressa e mais determinação! Tenho ainda um bom volume de dívidas e algumas adquiridas para manter o negócio funcionando (sabe como são os juros de banco, né?). Umas foram quitadas, outras permanecem, mas com todos os meus credores sou sempre transparente e mostro que o meu objetivo é quitar tudo e cumprir com as minhas obrigações e que eu não parei de me renovar, de atualizar e colocar em ação o meu conhecimento técnico na minha área e que a minha dedicação em melhorar o que faço sempre em primeiro lugar. Estou sempre aberto para receber conselhos e aprender com quem já passou por estes caminhos onde eu estou. Assumir que falhei no empreendedorismo não significa que desisti de acertar, significa apenas que eu reconheço os erros que tive até agora, que aprendi com eles e não tenho receio de compartilhá-los com quem queira ler um pouco sobre as experiências de outra pessoa (assim como eu gosto de ler sobre as experiências dos outros).
