Antissemitas, comunistas, nazistas, Clarice Lispector

Catarse e encantamento. Essas duas experiências têm me acompanhando durante a leitura de “Clarice, uma biografia”. Seguem os motivos:

Nascida em uma família judia na Ucrânia do início do século XX, Clarice Lispector teve de enfrentar, ao lado dos pais e de duas irmãs, privações pesadíssimas: fome, perseguição aos judeus, um grupo de soldados estuprando a mãe, a peregrinação enlouquecida que por fim os trouxe ao Brasil. Era o nazismo em evolução.

Quando chegou ao Recife, criança bem pequena, experimentou a liberdade de um país tropicalmente aberto aos povos que cá aportavam. Viveu em paz, podemos dizer, ainda que tenha experimentado períodos cruéis de depressão, confusão e deserto.

Entretanto, um episódio, no limiar da adolescência, chamou a minha atenção: década de 30, governo Getúlio Vargas e o Integralismo, movimento que em nome da família alegava buscar a ordem e a paz, começa a plantar na alma do brasileiro o medo que, vocês sabem, ajudou a fomentar a ditadura sangrenta iniciada nos anos 60. Alguns dos alvos dos integralistas: comunistas e judeus.

Pois imagine! Depois de todas as intempéries vividas na Europa, os Lispector precisam lidar com uma nova onda de antissemitismo, agora em solo brasileiro. Preconceito e ignorância unidos, mais uma vez, para transformar sonhos em ruínas. Esse episódio nos remete ao Brasil de hoje, por isso me impactou tanto. Como diz Bertolt Brecht, a cadela do fascismo está sempre no cio. A julgar pelas notícias que mostram a polícia coibindo protestos nos estádios das Olimpíadas 2016, essa cadela já gestou milhares de filhotes e está quase parindo.

Se Clarice estivesse viva, tenho certeza de que escolheria o meu lado. O lado dos que bradam Fora Temer e que reprovam, com vigor, aqueles que ainda vivem na fantasia da caça aos comunistas e não toleram o dessemelhante. Eu estaria do lado dela também, pois não há outra escolha quando alguém escreve assim:

“Em Recife, onde morei até os doze anos de idade, havia muitas vezes nas ruas um aglomerado de pessoas diante das quais alguém discursava ardorosamente sobre a tragédia social. E lembro-me de como eu vibrava e de como eu me prometia que um dia esta seria a minha tarefa: a de defender o direito dos outros.

No entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente sente e usa a palavra que o exprima.

É pouco, é muito pouco.”

Por isso a catarse. Por isso o encantamento.

Então, se é para escolher um lado, que seja o lado de Clarice. De Caetano Veloso e de Chico Buarque. De Jean Wyllys e de Paulo Freire. De Duvivier. Da mulher que, mesmo ao ver seu marido policial ferido de bala, não pensou em mais armas. Dos meninos que lutam por uma merenda melhor em São Paulo. Dos professores feridos no Paraná.

Do outro lado, estão as pessoas que fizeram a família Lispector e tantos outros dobrarem os joelhos. Eu não quero estar do lado deles.

A história de Clarice, no entanto, é uma história de redenção. Basta voltar os olhos para a obra que produziu, mesmo após tanta tempestade. Mais alto que o clamor do ódio, ela grita: esperança!