A maior parte do resultado de como está minha vida hoje, tem a ver com o ano de 2004 e tudo o que veio depois dele.

São 13 anos em que eu, de uma maneira ou de outra, patinando mais ou menos na vida, fui cada vez mais somando um enorme Ressentimento contra a Vida. Como Deleuze colocaria mesmo.

São todos esses muitos anos em que nada deu certo e que, dentre eles, esses últimos três anos, eu diria que me sinto uma pessoa pior, em todos os aspectos: intelectualmente, cognitivamente, economicamente, socialmente e até mesmo eticamente.

Em 2004, minha vida e, muito importante, minha psiquê, a forma como eu pensava e enxergava as coisas, em seus fundamentos, nada tinha a ver com a forma que eu enxergaria as coisas nos anos subsequentes.

Nesses últimos três anos em especial, senti muitas vezes senti muita raiva de tudo o que me acontecia, e tudo o que ferrava com a minha vida. Me sentia antes de tudo, um grande injustiçado, no qual eu era tão somente a vítima dessas injustiças. Não que elas não tenham de fato ocorrido, porque ocorreram, mas a questão era de como eu lidava sempre da pior maneira possível diante dessas situações. De qual perspectiva era sempre o meu olhar para a vida como um todo, que se refletia em questões específicas, como o trabalho, as amizades e os possíveis e nunca realizados amores.

Se fixam tão somente em apenas três grandes pilares, o meu ressentimento contra a vida que foi se somando, especialmente depois do ano de 2004.

O primeiro e que retornou à tona inclusive como forma de desculpa para eu legitimar meu próprio sofrimento, e ter talvez algum ganho subjetivo secundário, é o bullying destruidor que eu sofri na infância/pré-adolescência.

Com 12 anos de idade, tudo no qual eu pensava, era em morrer, e como seria bom se eu morresse. A sexta série foi o pior ano da minha existência. Por bem ou mal, como quem me conhece sabe, eu jamais fui um ateu/materialista convicto, pois se o fosse, eu lá com meus doze anos de idade, teria me matado e estaria em paz, muito melhor do que todos afinal de contas, já que nada haveria após isso.

Sempre defendi os mais fracos pois eu sempre fui a vítima, nunca agredi ninguém e achava que no mundo as pessoas se respeitariam, algo básico. Mas não foi isso que encontrei no mundo lá fora. A escola para mim, no início da década de 90/2000 representava antes de qualquer coisa, um ambiente de absurda agressão, sofrimento psicológico e amplo desrespeito, em que ninguém levava a sério, o hoje chamado bullying, que para mim é algo seríssimo, e pode causar danos psíquicos para uma vida toda.

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O segundo pilar, é o enorme ressentimento que eu desenvolvi contra o meu pai. Nessa mesma época e justamente envolvido diretamente com a questão do bullying. Meu pai, que certamente também sofreu na escola coisas semelhantes, lidou à maneira dele com isso. “Sobreviveu”. Termo esse que um dos meus psicólogos anteriores, usava com frequência. “Sobreviver”. Eu não estou interessado em sobreviver. Se é para sobreviver tão somente, prefiro com toda a certeza, a morte.

Porém todos os que sobrevivem, carregam marcas dentro de si, se fecham, se endurecem, guardam profundas dores que muitas vezes não conseguem expurgar, por vezes até o fim dos seus dias.

Acontece que, tudo o que eu passava na escola e que me fazia desejar tanto a morte, nunca foi compreendido em casa. Pelo contrário, meu pai dizia: “você deveria ter orgulho de ser ‘japonês’ de ser chamado assim.”

Primeiro que hoje, eu penso ser qualquer forma de orgulho, uma grande bobagem, e diria até mesmo um equívoco filosófico, epistemológico e metafísico. Não quero me orgulhar de nada. Não quero “ser” nada, como costumo dizer. O orgulho para mim, é sim antes, um grande defeito da alma humana, não é qualidade da sabedoria e dos sábios. Se orgulhar especialmente de qualquer condição inata ou de crença sua, para mim é uma enorme bobagem.

Diz-se hoje do orgulho gay, do orgulho negro, do orgulho feminino. Para mim, de um ponto de vista filosófico e metafísico a questão é outra. É pelo viés contrário, o da negação: eu não tenho orgulho algum em ser descendente de japoneses, não tenho orgulho algum de ser descendente de asiáticos, não tenho orgulho algum em ser heterossexual, não tem orgulho algum em ser homem. E da mesma forma, penso que ninguém deveria se orgulhar por nenhuma dessas categorias evidentemente, afinal de contas, são categorias hegemônicas, categorias maioria como diz Deleuze. Mas que ao contrário do que possa ser intuitivo, nós não deveríamos nos orgulhar de quaisquer identidades, sejam elas coletivas, sejam elas identidades da nossa própria singularidade. O orgulho é um equívoco. O próprio conceito de identidade é um equívoco. Nós não deveríamos sequer querer “ser”. Mas isso é outro papo, metafísico.

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Retomando: o que eu queria ser naquela época, era simplesmente um “brasileiro qualquer”, era o que eu mais desejava. Não queria ser diferente dos outros, porque haveria de ser? Queria ser visto como igual, não diferente. Era o “japonês” zuado, por isso. E isso era o que me destruía.

Muito pior do que isso, era evidentemente o que acontecia em casa: como eu teria “orgulho” de “ser” justamente aquilo que me destruía? O ódio e o ressentimento contra o meu pai nasceram e passaram tão somente a aumentar a partir daí. Esse é o segundo grande pilar do meu ressentimento contra a vida.

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O terceiro pilar, e aquele que desencadeou eu reforçar os dois anteriores, se deu aos 19 anos.

Finalmente, depois de tanto sofrimento na vida, que era a escola, de tal maneira a querer ter parado de estudar na sexta e na sétima séries (inclusive queria parar de estudar pra já ir trabalhar, e não suportar mais o sofrimento que representava a escola) eu estava conseguindo ser alguma coisa na vida, fazendo com que a vida pudesse me dar as coisas que nunca tive, me afastar da dor e me aproximar do prazer, como diriam os epicuristas, fazer as coisas que queria.

Era meu terceiro estágio, passando da área de informática, para a área de eletrônica, e eu arrumei um trabalho que, sem curso superior e sem sequer ter terminado o curso técnico de eletrônica, pagava quase 4 salários mínimos da época.

Ganhava muito bem pra um jovem de 19 anos. Não gastava dinheiro por nada nessa época, apenas acumulava. E pensava em, deixar o sofrimento como morador de bairro distante do centro de São Paulo, em comprar um carro novo, simples, mas que me fizesse não ter que passar por esse sofrimento diário de se submeter à um transporte público lotado e massacrante do trabalhador comum. Hoje acho graça dessa ideia de comprar um carro, e não me vejo nem de longe fazendo isso, em muito tempo ainda, tanto mais comprar um carro zero.

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Aí então foi que veio a bomba. Fui mandado embora por um problema nas costas que tive na empresa, como lixo, como mera engrenagem do sistema. Perdi completamente meu chão e meu rumo, meu sentido do que fazer na vida. Quando ela finalmente podia estar parecendo boa, coisa que nunca havia sido, meu mundo desabou.

Desde lá, em 2004 para os anos seguintes, a minha busca em tentar fazer as coisas não era sobre “ganhar dinheiro” ou muito menos status, coisa com a qual nunca me importei. O ego humano deve antes se diluir para mim, é nisso que acredito, enfim.

Mas a partir daí, surgiu uma busca profunda para um sentido da vida e de tudo isso. Para mim, simplesmente “viver” não faz e nunca fez o menor sentido, já que os caminhos naturais da “vida”, e a maior parte dela, representada nessa relação escolar-familiar que descrevi, descreviam nada mais do que sofrimento.

Porque eu haveria de querer estar vivo? Melhor seria, como costuma-se dizer em alguma poesia por aí, “nunca ter existido”. Era isso que eu mais gostaria.

Um amigo já me disse há alguns anos que preferia “existir do que não existir”. E sempre considerei isso completamente absurdo. E ainda mais se eu materialista fosse, consideraria mais ainda. É óbvio para mim que o não existir, representaria algo infinitamente melhor. Não haveria dor e sofrimento algum. Daí começou também meu interesse pelo budismo e sua metafísica, budismo esse o qual eu desconhecia completamente, à despeito da minha ascendência japonesa.

Meu desejo para a humanidade, não é nem de longe o hedonismo e uma vida em que todos teriam prazeres. Meu desejo para a humanidade é o fim do sofrimento. Algo que poderia-se dizer, muito mais ambicioso e utópico, mas a quem eu, que jamais fui materialista, faz sentido. Os prazeres dos sentidos, são em última instância, uma ilusão. Uma ilusão de verdade e de felicidade, pois jamais trarão a felicidade verdadeira. É disso também, que deveria afinal de contas, tratar-se sempre a Filosofia. E muitas vezes ela trata deste tema, ainda que nem todos os filósofos tratem dele diretamente. Afinal de contas, tudo tem a ver com tudo, como costumo dizer.

Ética, epistemologia, estética e lógica, para mim, jamais poderiam estar separadas, e nem fazem sentido que assim o sejam. Daí também meu apreço por Hegel e aquele que seria o último a formular uma filosofia universal e sistemática.

Sobre a filosofia e a felicidade, acho que deveríamos todos por bem, retomar em especial ao helenismo. Aos estoicos e epicuristas, em especial. Os céticos e cínicos não são aqueles de minha predileção e não parecem estar tão preocupados com a questão da felicidade, os céticos ao menos.

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Mas retomando, houve isso: pouco após ser mandado embora desse trabalho, em que eu estava acreditando que a vida poderia finalmente ser ao menos “não-ruim”, conheci através de um amigo o marxismo. E isso me influenciou profundamente. Eu digo a todos os meus psicólogos/psicanalistas desde que voltei a fazer terapia/análise na vida adulta: “não tivesse eu conhecido Marx, eu não faço a menor ideia do que seria minha vida hoje.”

Porque eu simplesmente vivia e tentava fazer as coisas, na tentativa e erro, batendo a cabeça. Mas eu sequer sabia nessa época o que era “sociologia”, nem sequer numa definição tosca e básica como “estudo da sociedade”. Eu realmente não sabia o que era mesmo. E filosofia, que à época do ensino médio foi o que tive (não havia sociologia na escola nessa época), era algo inútil que nunca havia me interessado. Enfim, ciências humanas para mim nessa época, era sobre “decorar coisas”. Nunca aprendi nada efetivamente nesse sentido. Apenas repetia de forma irrefletida, o que sabemos, é o mais comum, num sistema escolar decadente, e mesmo em alguma medida na universidade, tanto mais uma universidade de qualidade duvidosa, ou afastada às ciências humanas. O importante é repetir e não pensar, ser um exímio repetidor.

Enfim, não refletia sobre a sociedade e o “sistema” das coisas, o seu funcionamento. Eis que veio o marxismo e eu tentei encaixá-la como uma verdade absoluta para mim mesmo. Tentei. Mas como poderia? Era algo completamente externo a mim mesmo. Em realidade, jamais poderia fazer sentido.

[Faz hoje muito mais sentido sim, uma oposição forte contra o Poder, e qualquer forma de dominação sobre o outro. A posição de um anarquismo algo deleuziano, do qual não tem interesse algum no Poder e tão pouco se deixar ser dominado.]

Nunca Marx ou a teoria marxiana poderia ter se encaixado para mim, na minha subjetividade e naquilo que acredito e tenho para mim como verdadeiro. Primeiramente porque, para mim é inconcebível ser materialista. Não se trata, como disse um famoso médico ateu, de uma questão ideológica: “escolho ser materialista ou escolho acreditar que existe muito mais para além do material”. Não não é uma escolha. É inconcebível no meu imaginário, pensar a Vida, tudo o que nela existe, o Universo (ou multiversos), e mesmo a sociedade, unicamente a partir de um prisma materialista. Isso não faz sentido e soa de forma completamente absurda para mim.

Evidentemente, como não sou nenhum tipo de fanático religioso/espiritualista (e nem alguém que sempre viu as coisas de forma espiritual “light” e leve, mas que exige uma necessária precisão dos conceitos, importante), nem um dogmático e algum estúpido de pouca inteligência, é claro que considero ler e entender a realidade de um ponto de vista materialista ou completamente laico, sem o pensamento de que haveria qualquer outro elemento, tal qual a metafísica budista sobre a realidade ou a ciência (ou saber, que assim a considero) astrológico possa nos dizer. Penso em termos de filosofia da história, e acho essa disciplina interessantíssima, como chave de entendimento racional dos caminhos da história humana.

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Enfim, retomando à minha própria vida, que era quando iniciei essa escrita: é muito difícil pensar que perdi mais de dez anos da minha vida, achando que a vida não poderia ser outra coisa que não isso. Que não necessariamente uma grande injustiça do qual sou vítima. De não ter esse profundo ressentimento contra ela. De não, reiteradamente, dizer que preferiria estar morto do que vivo. É difícil, talvez não tanto mais por enxergar tanto ela assim, mas por saber que o tempo não volta atrás. Meu sentimento desses mais de dez últimos anos, é de que minha vida parou, e eu sempre achava algum problema e tinha alguma reação brusca de raiva ou fuga para com quaisquer intempéries da vida. De alguma maneira, preciso partir e tentar fazer algo, a partir dos meus 19 anos de idade. De onde eu ainda, de alguma maneira e em alguma medida, nunca sai esse tempo todo.

Talvez agora, a você meu amigo, ou bom conhecido, ou você com quem eu interajo aqui nessa rede social e que eu gostaria de conhecer, tomar uma cerveja em qualquer bar num dia de sol, ver algum filme do circuito alternativo na paulista, que possa gostar de mim ou se identificar de alguma forma, agora sim talvez você possa conhecer só um pouco de mim. Mas não antes de saber esse mínimo da minha história, da minha psiquê, dos meus sentimentos, do meu modo de encarar a vida e tudo isso.

E se eu nunca pude conversar contigo sobre tudo isso, e dessa maneira, num bar qualquer, nos encontros da vida, é porque você realmente não pôde me conhecer de verdade, esse mínimo, tanto quanto eu gostaria, e precisaria mesmo.

E a quem me conhece bem, outras coisas sobre mim, sabe que eu gosto de conhecer pessoas novas e conversar, mas conhecer as pessoas de verdade. Saber da suas histórias. Saber delas, a quem estiver aberto. Encontrar potência de vida e tentar retirar o máximo delas mesmas, que inclusive muitas vezes as próprias pessoas não enxergam.

Então, agora finalmente sim, a você que me conhece alguma coisa, depois de ler todo esse texto mal escrito (já fui bem melhor nisso rs) eu digo: prazer, vamos tomar uma e ver o novo filme argentino que acabou de estrear.

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