Brigamos

Das verdades mais inconvenientes: ao longo de nossas vidas, brigamos com quem amamos, cedo ou tarde, poucas ou muitas (quase sempre muitas) vezes.

Pode ser pela maior das traições, por pegar dinheiro de onde não devia, por falar mais do que o necessário ou faltar a um compromisso tão importante para nós.

Outras vezes é por motivos tão banais que, quando a raiva passa, sentimos vergonha de nossa exaltação momentânea. Ter raspado o pote de sorvete escondido no canto do congelador, não lembrar uma data marcante, fazer pouco caso de assuntos aos quais dedicamos tanta saliva e dedicação.

Vai ser amanhã ou depois, de forma esperada ou quando só queremos assistir a mais um episódio de nossa série preferida e ele ou ela não sai da frente da TV. E nem precisa chegar às agressões físicas, as verbais são mais doloridas.

Gastamos palavras desnecessárias, voam perdigotos nos momentos de fúria, que nos fazem esquecer da língua como arma mais poderosa do que as bombas atômicas às mãos de Trump ou da Coreia do Norte. Não há Estado Islâmico mais perigoso do que o sangue nos olhos.

Besta é quem acredita que são esses momentos em que assumimos nossa verdadeira personalidade. Machucados, vomitamos todas as palavras que ferem a pessoa do outro lado, seja ela cônjuge, familiar, ou amigo.

O entorpecimento da raiva passa e quando tudo volta ao normal, pisamos em ovos na hora de falar, olhar, interagir. Não sabemos como voltar a puxar assunto com quem nos magoou ou foi por nós chateado.

Essa convivência com seres humanos não é das mais fáceis, talvez por isso tanta gente prefira os animais domésticos em detrimento a gente e suas idiossincrasias. Não importa o que aconteça, eles sempre vão nos recepcionar como a família de um soldado que passou anos em uma guerra do outro lado do mundo, não há festa igual.

É bem mais fácil fazer as pazes com quem enganamos quando jogamos a bolinha para um lado ou adiamos o passeio na rua numa noite qualquer.

Difícil é encarar os olhos de quem acertamos com as mais cruéis palavras, vindas da arma mais mortal que alguém já criou. Carregamos o melhor e o pior de nós o tempo todo, saber a hora certa de usar cada um é uma fórmula que enche as lousas e não foi decifrada ainda. Somos uma invenção imperfeita, que não deu certo.

Gosto dos meus cachorros, mas ainda prefiro os humanos. Mesmo quando brigamos.

Publicado no MAIS SANTOS
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