Eu nem ligo muito pra futebol

Perdeu de novo? Estava trabalhando, acabei nem acompanhando muito essa última rodada, não. Ah, se quer saber a verdade, nem tenho visto esses jogos recentes e nem sei dizer muito os motivos. Um tipo de cansaço, talvez.

A gente cresce e inevitavelmente vai perdendo o encanto pelo futebol. Fica impossível não ligar o que acontece dentro de campo aos desmandos e aberrações fora dele, com tanta gente enriquecendo sem saber quantos lados tem uma bola.

Não tem nada a ver com essa má fase que nunca passa, parece até que o time é o retrato do país: viveu seus bons dias por alguns anos, pensou que duraria para sempre, se acomodou e hoje é esse trem desgovernado, sem perspectiva de parar, só de bater e quebrar tudo — em todos os sentidos.

Aquela coisa romântica e o encanto eu não tenho mais. Bons tempos em que corria para a banca de jornal e comprava os guias do Paulistão, Brasileirão, Libertadores. Álbum da Copa eu ainda compro, ano que vem terei 27 e não será nenhum espanto me ver naquela avenida, no ponto de encontro em frente à livraria pra trocar as figurinhas faltantes. Copa do Mundo é outra coisa, convenhamos.

Mas eu acordo cedo para conciliar tantos empregos e suar feito chaleira pra conseguir meus minguados trocados, ligo a televisão antes do almoço e vejo um circo na TV, com gente ganhando centenas de milhares de reais para dar opinião engraçadinha, pensando estar em um stand-up.

Não tenho mais saco para isso, sou chato.

Mas são tantos esquemas com empresários plantando jogadores pessimamente ruins em grandes clubes, enquanto amigos meus tiveram talentos rifados por não se submeterem a essas máfias. A gente cansa.

Os dirigentes repetindo as mesmas fórmulas de ufanismo para enganar a torcida, os elencos milionários e chinelinhos que pouco se importam com nosso sofrimento ao vê-los rastejando-se em campo, as histórias de bastidores que ouvimos. Não sei se volto a ver tudo isso com os olhos de outra época.

Foquei no trabalho e em outras coisas minhas, futebol só de vez em quando. Ah, pode ter certeza que não vou adiar um encontro por causa de jogo, esquece. Se for Libertadores eu acompanho pelo celular, disfarçadamente, são tantos grupos atualizando todos os lances. Numa final já é outra história, né?

Sei que já não é a mesma coisa, não ando muito preocupado com os últimos jogos, a tabela, o que tem acontecido. Ainda acompanho os campeonatos em si, as rodadas, os golaços e as grandes decisões. Sempre que posso ligo o rádio no carro para ouvir a narração do Silvério, deve ser algum vício de infância, como quem fuma desde os 14 anos.

Pode me zoar se perdermos o clássico, só não polua minha linha do tempo do no Facebook com montagens me enchendo de notificações inúteis. Nem ligo muito se ganhar ou se perder, de verdade.

Já falei: essa indiferença não tem nada a ver com a má fase. Só mantenho o pay per view por causa do meu pai. Até pelos programas de debates da TV por assinatura perdi o gosto. Eram bons tempos aqueles em que repercutíamos sua repercussão dos fatos, no colégio.

Há tempos não vou ao estádio também. Evito gastar dinheiro com isso. Acho que a última vez foi quando um amigo de longe veio para cá. Nem sinto falta, é tanta violência, mortes, torcidas quase te obrigando a gritar os nomes de cartolas notoriamente corruptos e preocupados com seu bolso.

Superei a fissura, já não faz muito sentido para mim a preocupação com as tabelas, cores, artilheiros. Pouco me importa. Gosto mesmo é das grandes histórias ao redor disso tudo, os personagens interessantes, a construção dos times marcantes. Números e estatísticas não são minha praia.

Torço mesmo — e muito — apenas para não ser rebaixado. Eu nem ligo muito para futebol, o problema é a zoeira no dia seguinte.

Publicado no LUDOPÉDIO
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