Gemidão do Zap: vida e obra

Socorro!

Uma epidemia grave tomou conta de todos os cantos e não há perspectiva de cura ou programa do Ministério da Saúde para controle de danos.

Basta um clique em um vídeo recebido pelo aplicativo de mensagens nosso de cada dia, um som baixo que nos intriga e logo em seguida um ooooooh aaaaaanhhhh aaaannn que faz o desespero tomar conta de senhoras, crianças e pais de família em pânico com o celular na mão.

Quem teve a ideia de colocar um áudio de filme pornô no auge dos decibéis e camuflado para causar tanta discórdia por aí? Em tempos de Lava Jato, por que a Polícia Federal não oferece recompensas nababescas para quem encontrar essa mente perversa rindo de todos nós em algum canto isolado diante de um computador em um quarto escuro com pizza na escrivaninha?

O famigerado gemidão do zap (manual das modernidades digitais: evite usar o termo “zap zap” para evitar contratempos) tomou conta dos ambientes de trabalho, das mesas de almoço de domingo, do Senado, de programas de televisão.

Quem ainda não foi vítima de tal sacanagem — em vários sentidos — vive em pânico. Quem já foi, passa por um stress pós-traumático.

Casamentos desfeitos, constrangimentos na casa da sogra, decepções e cochichos na reunião da firma. Tudo em decorrência desse mal que assola o país. Quiçá o mundo.

Agora a prevenção de abaixar o volume ao clicar em um link ou receber um arquivo, mesmo que no grupo da igreja ou da família, tomou proporções quase paranoicas: ninguém quer ser a próxima vítima, apenas rir de terceiros.

Já vi a vergonha tomar conta de gente de todas as idades nos piores momentos possíveis. Ando desesperado por saber que não há vacina ou método milagreiro que me livre do gemidão e suas consequências nefastas para minha imagem.

Um susto, uns botões que não funcionam, um delay, um constrangimento, uma cara vermelha, uma vontade de cavar um buraco no chão de onde estiver e não sair de lá antes que a próxima vítima dessa infâmia ofusque o pior dos momentos na vida de redes sociais nos perseguindo.

Onde isso vai parar? Trump, Coreia do Norte e Estado Islâmico parecem nem dar tanto medo assim. Entre a brincadeira sem graça e o riso solto de uma molecagem, a linha é tênue, rapaz.

Se as palavras escritas se convertessem em som automaticamente, certamente haveria quem tremesse e se prevenisse com receio de se deparar com a venda casada do ooooooh aaaaaanhhhh aaaannn e o coração palpitante.

Bons tempos aqueles em que a loira do banheiro era o auge de nossa desconfiança e temor. As lendas aterrorizantes se renovam com o passar dos anos.

Publicado na MAIS SANTOS
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