‘Estamos plantando aqui os nossos sonhos’; MTST ocupa terra no Capão Redondo, SP

Fotos.: Leandro Moraes e Texto.: Laio Rocha

Bairro do Capão Redondo, em São Paulo, recebe nova ocupação do MTST na madrugada do último sábado (5).

“A neblina cobre a estrada de Itapecerica”. A frase da música Da Ponte pra Cá, do grupo de RAP Racionais MCs, veio à mente quando os quatro ônibus vindos da Ocupação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Nova Palestina, localizada na Av. M’Boi Mirim, entraram na estrada, na madrugada de sábado (5), em direção a um destino ainda desconhecido, mas que em si guardava o sonho da casa própria para muitos.

Uma nova ocupação nos esperava, mas o caminho, ainda incógnito, se desvendava entre o frio, a apreensão e a adrenalina.

Ainda no trajeto da via que atravessa o bairro de ilustres figuras do Rap Nacional — e do maior número de latrocínios da cidade -, o Capão Redondo, as luzes azul e vermelho da viatura da Polícia Militar se colocaram à frente do nosso ônibus, o último do comboio.

“Estamos indo para a Aparecida do Norte, meu povo!”, orientaram tentando apartar o burburinho que nasceu e se fez ouvir por todos os cantos. A viatura apagou suas luzes e a permaneceu a nossa frente. O medo aumentou, mas as vozes calaram. As perguntas ecoavam no silêncio.

Ônibus à esquerda, polícia à direita. “Tá limpo”, disse rindo o companheiro na cadeira de trás. Adiante o trecho foi pequeno e logo aportamos em uma descida íngreme próxima à estrada de Itapecerica.

Centenas desceram dos coletivos e caminharam apressados com seus colchões, mochilas, sacolas, bolsas, cobertores e materiais outros para o terreno ainda desconhecido. Subimos então uma outra ladeira e logo avistamos o caminhão de onde dezenas de bambus foram descarregados.

Um a um, o trabalho de formiguinha ia acontecendo. A agilidade é crucial: se a Polícia chegar está tudo acabado.

Homens e mulheres, crianças, jovens, velhos, negros, brancos, amarelos: pobres. Da zona sul, leste, norte e oeste: periféricos. Estudantes de uma matéria básica: engenharia do barraco. Nada fácil. A construção de casas com bambu e lona exige experiência e os amadores sofrem nas primeiras “aulas”.

“A primeira vez é difícil mesmo, mas na segunda você pega o jeito”, disse a paraibana Nina, 41, vinda da ocupação Maria Bonita, no bairro do Valo Velho, zona sul. Há 23 anos em São Paulo, ela diz que está ali por sua filha de 19 anos, que está grávida de 7 meses de uma menina. “A lona chegou!”, disse, disparando em direção ao caminhão.

O “professor” da engenharia do barraco, Gilson, 49, faz juz aos cabelos brancos e às 10 ocupações das quais já participou: em pouco menos de 10 minutos, os 3 bambus e o pedaço de lona de cerca de 3x3 tornaram-se uma bela moradia. Com uma fita de plástico ele deu voltas e mais voltas, firmando a estrutura. “Eu quero ver o vento furar a lona agora”, comentou após a ventania agredir com firmeza seu barraco.

Ele foi um dos primeiros a ocupar o acampamento Nova Palestina no ano de 2013. “Em uma semana de ocupação lá, quase 8 mil pessoas estavam morando. Aquele lugar foi a nossa escola”, lembra. “Aqui vai dar 2 mil rápido, se Deus quiser!”, roga o “arquiteto”.

Em pouco mais de 30 minutos, o terreno, uma depressão com gramado baixo em toda sua extensão, que proporcionava uma vista privilegiada da quebrada iluminada pelos postes e pelas luzes das residências, estava tomado. Marcava 0h30 e a favela estava acordada para vigiar a multidão que levantava o sonho da casa própria no pedaço de terra vazio, “que não cumpre nenhuma função social”, como alegou o militante do MTST Michel.

“Isso aqui representa uma forma de organização e de luta por moradia que é o verdadeiro caminho que a esquerda deve seguir”, afirmou Alana, 28, representante do movimento A Rua, que trabalha com ocupações do espaço público na região central da cidade.

“O que estamos fazendo aqui é uma forma de ajudar outras pessoas e de nos fortalecer na luta contra o governo. O trabalho de base realizado pelo movimento mostra a importância da luta pelo direito à moradia garantido pela constituição cidadã de 1988”, explicou Amanda, 40, coordenadora da Ocupação Nova Palestina. “Se tivéssemos moradia digna, não estaríamos nos humilhando dessa forma”, completou.

À frente do espaço, há um conjunto habitacional construído para moradores da favela Jardim das Rosas, destruída há alguns anos pelo governo sob a justificativa de que o local era de risco e representava um perigo aos moradores da região. Os moradores conseguiram a casa através de um financiamento de 10 anos, em que pagam de 25 a 80 reais mensais variáveis proporcionalmente ao salário do beneficiado.

“O que vocês estão achando dessa movimentação?”, questionei um grupo de cinco mulheres que assistiam atentas ao ensejo. “A gente é dessa mesma turma aí”, responderam gargalhando e assim chamando atenção das crianças e dos homens em volta. “Queria um pedaço daí pra mim também”, completou outra, que preferiu não se identificar para a reportagem.

Barracos montados, povo reunido: iniciou a espera, logo a PM inevitavelmente chegaria e todos sabiam que era questão de tempo. Não tardou, batendo à 1h da manhã, duas viaturas encostaram com os faróis baixos. A multidão cercou os guardas. Outras duas e, por fim, mais uma, somando cinco carros da Polícia e cerca de 10 soldados.

Tensão? Medo? Apreensão? Nada disso. Gritos de ordem como “Aqui está o povo sem medo de lutar” e “Pisa ligeiro, se não aguenta com a formiga não atiça o formigueiro” ecoaram na noite gelada do Capão Redondo.

“Quem é o líder”, questionou o oficial que iniciou as negociações assim que desceu do carro. “Não temos lideranças”, responderam de pronto. Dois advogados do movimento já aguardavam para conversar e explicar a situação para os militares, além dos vereadores Nabil Bonduki (PT) e Toninho Vespoli (PSOL). Passando por nós, o comandante comentou rapidamente, “podiam escolher outro dia para ocupar, hoje tá um baita frio”.

A negociação foi rápida. A única exigência dos policiais foi fazer uma verificação no local. Um grupo com cinco subiu o morro que dava entrada ao terreno e parou onde começava a depressão, observando lá de cima os barraquinhos montados e a massa com centenas de pessoas que entoavam os gritos de ordem.

“Como a invasão aqui está consolidada, basicamente eles só podem ser retirados após uma autorização judicial”, informou o tenente Feline, que após a investigação realizada pelo pequeno grupo de PMs no local, reuniu os seus e se retirou, ainda sob o canto dos ocupantes.

“A PM fez a ocorrência, mas só podem nos retirar com ordem judicial. Esse terreno é privado e nossa luta é pacífica. Vamos entrar no terreno e evitar perturbação, agora nossa missão é cuidar dessa comunidade. Vamos descansar agora em nossos barracos porque amanhã é dia de luta. Estamos plantando aqui os nossos sonhos. Vamos esperar o dia amanhecer”, discursou por volta das 2h da manhã, na primeira assembleia da recém formada ocupação, Natália, uma das lideranças do MTST.

Os cantos acabaram e os grupos se recolheram em suas “casas”, sendo que alguns ficaram vigilantes ao entorno do local, para o caso da PM retornar ou de eventos estranhos ocorrerem.

Um desses é o cantor Erivaldo Só Vitória (ou Sorriso), de 51 anos no registro, mas 49 na realidade, porque, vindo da Bahia e com necessidade de trabalhar desde novo, seu pai aumentou 2 anos da idade para antecipar e entrada do filho no mercado de trabalho. Há 30 anos em São Paulo, se emocionou quando perguntei se sentia falta da terra natal. “Sinto muita saudade”, respondeu. Cantor, compositor e cover de Amado Batista, disse que já escreveu mais de 250 hinos religiosos e não se conteve e disparou à capela clássicos como “Pobretão” e “Alto Mar” do intérprete goiano.

Ao seu lado, estava o entusiasta por novas ocupações Ailton, 41, morador desde da ocupação João Cândido, em Taboão da Serra. Vindo de Minas Gerais, está há 22 anos na capital paulista. “Tem um terreno ali no Valo Velho que desde que vim pra São Paulo ta parado lá, sem nada, só acumulando nóia. Dá pra gente ir ver agora, tem um carro ali do menino”, me disse de canto. “Eu já disse pra menina ali, vamos ver, o lugar dá três desse aqui”, argumentou.

Por volta das 3h da manhã, Solange foi uma das primeiras a sair. Preocupada, mas sorridente, disse que precisava dormir e ainda se preparar para o ENEM, que ia prestar dentro de algumas horas. Vestibulanda do curso de Medicina, estava confiante, mas se inscreveu em um curso técnico, para garantir que vai estudar ainda que não vá bem na prova.

Nesse momento, quem ainda trabalhava na organização do acampamento era o Laico, 24, que participa há 12 anos do movimento e já morou nas ocupações João Cândido e Chico Mendes, ambas em Taboão da Serra, região metropolitana de São Paulo. “Minha mãe foi uma das primeiras a levantar barraco lá”, conta enquanto ajusta as toras de madeira lisa que sustenta o maior barraco da ocupação, a cozinha. Hoje ele mora com a mulher no Jardim Salete, Zona Oeste, mas paga aluguel, o que vem inviabilizando a vinda de um “mulequinho” para somar na família.

Há 10 anos no movimento, D. Sueli, 54, antes mesmo de entrar no MTST já participava da luta por moradia no bairro do Capão Redondo. Bem perto do local da ocupação, no ano de 1986, ela e um grupo de moradores realizaram mutirão para construir as casas em que até hoje ela mora.

A madrugada caiu e a cozinha estava em pé. Café quentinho para aplacar o vento gelado. O relógio marcava 6h30 e o sol nasceu acanhado entre as nuvens, mas durou muito pouco. Nesse momento Natália reuniu novamente o povo para a segunda assembleia e deu algumas instruções. “Temos que dar continuidade à nossa luta. Vamos chamar as pessoas da comunidade que querem entrar na luta pela casa própria, precisamos ocupar esse terreno inteiro. Vamos transformar esse espaço em moradia digna”.

Com o raiar do dia muitos começaram a chegar para conhecer o que estava se estabelecendo ali, e muitos partiram para seus trabalhos. Ainda sem nome, a ocupação se reuniu outra vez, às 17h do sábado (5), para explicar aos novos ocupantes o que é o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, sua luta e história, e iniciar junto à eles o novo ciclo de luta que emana dali para toda essa região do extremo sul de São Paulo.