MORA[DIA] D

Outubro terminou vermelho com ocupações por moradia, em SP.

Fotos.: Leandro Moraes e Texto.: Laio Rocha

“Para pobre o que sobra é luta, porque ninguém vai bater sua porta oferecendo moradia”, disse a coordenadora do Movimento Moradia Para Todos (MMPT) Welita, no salão social da ocupação Marconi, localizada na rua que leva o mesmo nome no centro de São Paulo. O prédio está sob o controle do grupo há cinco anos e possui cerca de 158 famílias em seus 12 andares.

A noite gelada do último dia 30 não intimidou os moradores. Diversos movimentos por moradia localizados na região central se preparavam para o “Outubro Vermelho”, uma onda de ocupações de prédios que chama atenção para o número de imóveis que não cumprem sua função social — em torno de 2 milhões de m², de acordo com dados da prefeitura de São Paulo. Segundo estimativa da urbanista Raquel Rolnik, o déficit habitacional da cidade é de 230 mil moradias.

Sendo assim, há moradia para quem não possui. O que falta é posse.

“Vamo para o arrebento! Vamo para o tudo ou nada!”, gritou deixando a mostra as marcas das veias no pescoço Edinalva, líder do MMPT, fazendo a concentração se enervar e subir sangue nos olhos para a luta próxima. “Essa é a nossa luta!”.

Até então, às 23h, ninguém sabia quais eram os endereços dos imóveis que seriam ocupados. A linha de frente saiu do prédio para estourar os cadeados e verificar se havia seguranças guardando a entrada. As informações davam conta de dois alvos: um pequeno, cujo endereço não foi divulgado, e um grande, na Bela Vista, no qual havia guardas nos andares superiores.

A ação que luta contra a Proposta de Emenda Constitucional número 55/2016 (Ex PEC 241/2016), estava agendada por todos os movimentos para às 0h do dia 31. A Frente de Luta Por Moradia (FLM) e o Movimento de Moradia Luta por Justiça (MMLJ) iniciaram sua investida em 12 prédios simultaneamente, nas zonas Leste, Oeste, Norte e Sul. Sabendo do início das ocupações, o povo no salão da Marconi lotado aguardava ansioso pelas instruções, sabendo do risco de repressão policial.

O ocupante Giovani estava preparado com sacolas lotadas de bolachas, sucos, refrigerantes e bolos. “Da última vez só fui com a roupa do corpo e passei fome porque não podemos sair por 48 horas, mas agora estou com tudo”, disse sorrindo o ex-lutador de jiu jitsu, que afirma já ter lutado com os ídolos do UFC, Anderson Silva e Victor Belfort na juventude.

PRÉ SAÍDA

O clima pré saída causava tensão em muitos, mas não em José, um dos moradores mais antigos da Marconi. Ele chegou lá no início da ocupação, mesmo sem fazer parte do movimento. Com firmeza afirmou: “não tenho medo, meu pensamento é diferente, meu pensamento é de guerra, coragem e liberdade”. Questionado sobre o porquê de ocupar, respondeu: “Essas são as forças do nosso desejo: Quem tem sede procura água, quem tem fome, comida, quem não tem casa, moradia”.

Já passava da 1h da manhã e a apreensão crescia pois não chegavam informações sobre o grupo que saiu para arrombar os prédios. O cozinheiro Robson, que mora há apenas 4 meses na ocupação, acompanhava o desenrolar, mas não podia participar pois ia sair para trabalhar em algumas horas. “Como vou explicar no meu trabalho, onde estou há pouco tempo, que não fui trabalhar porque estou ocupando prédio no centro? Seria demitido na hora”, lamentou.

Com o passar do tempo, beirando às 3h da manhã, idosos e crianças foram para seus quartos. Os planos A e B estavam cancelados. Os prédios eram seguros por duas portas, sendo que as fechaduras também eram internas, impossibilitando a entrada. A notícia gerou grande tristeza, mas não desmobilizou o grupo, com cerca de 40 pessoas nesse momento.

“Temos uma opção C, e vamos para ela agora. Vocês vêm?”, nos perguntou Roberto, um dos coordenadores. Descemos todos. A ação finalmente iria começar.

NAS RUAS

Duas Kombis brancas estavam estacionadas na rua Marconi. Espremidos, éramos 20 em cada uma, ao som da dupla sertaneja Milionário e Zé Rico, embalando o rádio na madrugada.

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O frio apertou. Michele, uma das porta-vozes do grupo nas negociações com a Polícia Militar, esquentava contando as histórias da repressão. Em tentativa recente, no bairro do Bom Retiro, ela tentou conversar, mas a violência não deixou. Bombas, cassetetes, socos e chutes: esse foi o saldo da ação frustrada. “Três dos nossos não conseguiram sair e os policiais amassaram eles. Nesse dia fui levada para a DP, mas troquei ideia com os caras e ficou suave. Até pediram meu whatsapp no final”, conta às gargalhadas.

A ocupante Milena também foi levada para o distrito nessa ocasião, e conta como a policial feminina se irritou com ela utilizando o celular.

“Ela me perguntou como tenho celular, tenho moto e não tenho uma casa. Queria perguntar pra ela se para comprar essas coisas preciso de financiamento de 20 anos mais entrada de 20 mil reais”.

O MURO

Aportamos, enfim, no número 320 da rua Dias Leme, na Mooca. O muro amarelo com a propaganda do Boteco Seo Joaquim fechava a única entrada para o prédio semelhante ao cenário de um filme de terror. O lugar não foi escolhido ao acaso. Abandonado há pelo menos 10 anos, a dívida de IPTU progressivo ultrapassa um milhão, apontam os militantes.

Em silêncio aguardamos dois saírem para investigar. Deram o ok. “Rápido, corram!”, chamou em voz baixa o líder da ação Péricles. Uma escada foi colocada no muro e um a um pularam.

Como dizem, quem tem estilo não sai do salto, e esse foi o caso da Amora, transsexual que pulou em seu salto de 10 cm e quase caiu, mas não perdeu a pose. Em sua segunda passagem pelo Marconi, ela pagava aluguel de quase mil reais mensais, mas não pôde se manter porque foi demitida. Cozinheira em um restaurante vegano, se orgulha das mudanças pelas quais passou em seu corpo após o tratamento de hormonioterapia, que é a injeção de hormônio feminino. “Eu tive uma vida me escondendo”, lembra. Amora diz que nunca sofreu preconceito na ocupação e participou da cozinha comunitária criada no início, mas “se chamar de Ele, comprou uma briga”, avisa sorrindo.

A entrada ligeira no prédio foi precedida pelo susto do estado calamitoso que se encontra. Com um andar térreo, um subsolo, um galpão ao fundo e o primeiro andar, o edifício estava completamente condenado. Sem fiação elétrica ou sistema hidráulico, as rachaduras se espalhavam junto às infiltrações. O galpão estava tomado por pombos, que cobriam com sua merda todo o chão. A assinatura da crew do PCC (Primeiro Comando da Capital), 1533, marcava a parede, avisando quem passou por ali.

Com precaução e lanternas erguidas, os novos ocupantes desbravaram o local, procurando artefatos para segurarem a porta. Pedaços de pau e ferro com 3 ou 4 metros deram conta do recado e a entrada foi lacrada. Ocupou.

OCUPADO

O baiano Péricles, ex-professor, orientava a arrumação das camas e pedia silêncio, pois logo ao lado os moradores podiam perceber a presença deles ali e denunciar. Os vizinhos — um estacionamento e uma construção — estavam vazios, o que facilitou no início a ação. “Essa é minha parcela de contribuição à sociedade contra a especulação imobiliária”, afirma. Há 10 anos no movimento, ele chama atenção para o número de 6 mil famílias cadastradas para entrar em ocupações do MMPT. O número atual de cadastrados na prefeitura de São Paulo é de 126 mil.

“Estamos aqui contra a PEC 241 [agora PEC 55/2016 no Senado]. Realizamos de 15 em 15 dias reuniões para conscientizar as pessoas sobre os danos dela, e vamos promover oficinas nas ocupações para elas entenderem. Essa é nossa ponte para a moradia”, conclui.
Amora, transsexual que ocupou prédio na Mooca, junto com movimento de moradia para todos.
Momento que os moradores colocaram a bandeira do moivmento de moradia na ocupação Mooca.

VIZINHO [P2]

O chão sujo tornou-se cama e em pouco tempo o sol raiou. Junto à ele, as sirenes e viaturas, 3 delas. O dono do estacionamento ao lado fez a denúncia e dava as coordenadas para a invasão da PM.

Agora até mesmo os mais corajosos estavam tensos. É questão de tempo para eles entrarem. A bandeira foi estendida na janela da frente, com o símbolo MMIS (Movimento Moradia e Inclusão Social). As coordenações orientaram as negociações e a Michele, porta voz nesses casos, foi dialogar com os militares pela janela, pedindo precaução, pois havia uma criança no local e informando que um advogado chegaria em breve para negociar a saída.

“Vocês têm a escolha de sair. Se não saírem agora, basta uma chamada no rádio e a Tropa de Choque vai entrar e aí já não é com a gente. Quem tiver bom senso pode sair agora. O restante pode esperar para ver no que vai dar”, sentenciou a cabo no momento mais tenso da negociação.
Ocupante observar dono do estacionamento ao lado da ocupação junto com a PM.
Momento que a PM, conversar com o movimento que ocupou prédio na região da Mooca, em São Paulo.

OCUPAR E RESISTIR

Michele então virou para o grupo e perguntou, “alguém quer sair?”, e um alto e vibrante “Não!” ecoou nas estruturas vazias do prédio. A soldada olhou para o parceiro que nesse momento estralou os dedos da mão com um olhar penetrante e um sorriso cruel. O terceiro oficial segurava o cassetete e balançava a cabeça em negativa, respondendo o sorriso do companheiro.

Era certa e entrada deles. O temor se alastrou. Camas desfeitas, bolsas arrumadas, grupos reunidos e a espera infinita do advogado.

Já passava das 14h, e há mais de 30 minutos esperávamos o advogado, a última esperança contra a repressão eminente. De repente, o aviso: “eles saíram!”.

O Choque estava por chegar? Eles desistiram? As questões não calavam e o alvoroço só mudou quando o advogado Benedito Barbosa, o Tito, finalmente chegou.

Moradores conversam com PM, dentro da ocupação da Mooca, que ocorreu na madrugada de domingo 30/out.

Representante do Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos, ele defende movimentos de moradias há 20 anos, e acalmou os mais exasperados.

“A polícia só pode entrar quando o dono do imóvel fizer uma denúncia, como não é esse o caso, é ilegal qualquer ação aqui”, informou. “No entanto, não há transparência do procedimento da PM nessas situações. Parece existir um padrão para retirar logo no início, para não haver necessidade de o fazer após o processo judicial de reintegração de posse”.

OS POLICIAIS NÃO VOLTARAM

Essa foi a chave para harmonizar os ânimos. Welita e Roberto, que estavam do lado de fora, conversaram com os trabalhadores da obra e com o dono do estacionamento, informando que o grupo estava na luta por moradia, e garantiu que nada de ruim aconteceria aos seus estabelecimentos. Além disso, providenciaram a aguardada alimentação, pois muitos estavam há horas sem nenhuma refeição. O famigerado pão com mortadela encheu o estômago que roncava alto.

Restabelecida a calma, é hora da faxina, que deve acontecer em breve.

Momento que chegam os mantimentos para os moradores que ocuparam prédio na região da Mooca.

Até a conclusão desta reportagem, oito ocupações do Outubro Vermelho se mantêm firmes, mesmo pressionadas por PMs que vistoriam e bloqueiam a entrada de alimentos e pessoas. Confira a lista completa:

Rua Ana Aslan, — Parque do Engenho
Rua Antônio de França e Silva, 953 — Jardim Adutora — Distrito de Sapopemba
Av. Ipiranga, 908 — República
Av. Nove de Julho, 564
Rua Doutor Alcides C. Bueno Filho — Jardim Peri — Lauzane Paulista
Av. Osvaldo do Vale Cordeiro, esquina com Av. Alziro Zarur, s/nº — Parque Savoy
Rua Dias Lemos, 320 — Mooca (ocupado pelo MMPT).
Rua Refinaria Presidente Bernardes — Jardim Santo Eduardo.

A Frente de Luta por Moradia fez uma carta com as intenções da ação, veja abaixo:

Sem Tetos ao combate

A violência contra os trabalhadores se espalha. A PEC 241, aprovada no congresso faz o salário mínimo virar pó. Se corrigido pela sistemática atual, em 2036 o salário mínimo valerá R$7.082,06. Com a PEC 241 cairá para R$ 2.439,76. Será comido ano a ano. Em 20 anos, em 2036, perderá R$ 4.642,30. Esta desvalorização do salário impactará negativamente no rendimento de todos os trabalhadores. Domésticos, operários, funcionários públicos, prestadores de serviços e aposentados. A violência econômica já bate na porta de quem vive do trabalho e baterá mais forte daqui pra frente. O desemprego já atinge 12 milhões de pessoas. Esta situação ligada ao trabalho informal e os baixos salários que não cobrem as necessidades das pessoas levam o caos na vida dos trabalhadores.

Combinado com o ataque aos salários a PEC 241 busca aniquilar a previdência, a saúde, a educação e a assistência social. Isto tudo para aumentar a exploração dos trabalhadores. Impondo-lhes um massacre econômico e social.

Para isso aprimoram uma máquina de opressão mortífera. Nos últimos cinco anos foram assassinadas no Brasil: 278. 839 pessoas. Lá na guerra da Síria foram assassinadas 256.124 pessoas. Ou seja, matou-se mais no Brasil do que no mesmo período lá na guerra. É uma situação desastrosa tanto para os sírios quanto para os brasileiros.

O quadro econômico que se aprofundará agravará a fome e a desesperança para os trabalhadores.

Os sem tetos serão atingidos em cheio. A máquina opressiva do Estado — Forças de Segurança, Judiciário e mídia oficial, etc. agirão para proteger as propriedades, aqueles que mandam no Estado e os interesses econômicos em geral.

Aos trabalhadores e sem tetos só resta o combate. Combater pelos seus direitos e pela Justiça. Ocupar as propriedades abandonadas, buscando um refúgio para proteger suas famílias e lutar por justiça.

A justiça agora se expressa pela ocupação das propriedades fora da lei. Das propriedades sem função social e que impede, que milhões de trabalhadores tenham uma casa para morar.

Enquanto os estudantes ocupam as escolas e travam uma luta justa para salvar a educação. Nós sem tetos, ocupamos imóveis abandonados fora da lei para assegurar a justiça social e conquistar nossa moradia.

Irmanamo-nos todos: estudantes, sem tetos e trabalhadores na luta por justiça. Esta ação de ocupação de imóveis abandonados tem como fundamento a proteção de nossos filhos e de nossas famílias.

São Paulo, 31 de outubro de 2016

FLM — Frente de Luta por Moradia

23°33'41.7"S 46°35'38.6"W

Localização do prédio ocupado pelo MMPT, na região da Mooca