As mentiras de minha mãe

Muitas foram as ameaças na infância. Desde o “não deixa o chinelo virado que tua mãe morre” até o “videogame estraga a tevê”.

Já adolescente, a ameaça ficou mais sofisticada. Aquele filho que não aprendesse a cozinhar, a lavar e passar a própria roupa, a realizar com as próprias mãos e excelência uma série de tarefas chatas, estaria metido numa grande tragédia na vida adulta. “Aprende agora, porque depois não vai ter seus pais pra ensinar”.

Eis que, anos depois, descobrimos a falsidade dessas ameaças. O que eles queriam mesmo é que os filhos folgados aprendessem todas essas lições não para um futuro distante, mas para o presente. Para ajudá-los nas tarefas da família. Para compartilhar o fardo da organização do lar. O benefício futuro era apenas um bônus.

Hoje, nós — os filhos folgados — sabemos que de um jeito ou de outro todo mundo se vira. Além dos nossos pais (que não conseguem recusar uma consultoria), ainda temos a internet para nos ajudar. Eles não contavam com isso.

Quem tem uma certa independência financeira, come fora na hora do almoço e “lancha” à noite. E não há dois ou três pães noturnos com um copo de leite que não preencha a barriga vazia.

Quem não tem uma vida financeira tranquila, pode se contentar com a dieta do miojo e do velho arroz com mistura banhada em óleo quente — numa grande variedade que vai do hambúrguer ao ovo frito, que também pode se transformar numa complexa omelete com queijo ralado e orégano. Fui daqueles que, sendo de uma família pobre que tinha mistura no prato todo dia, lamentava as semanas de aperto em que o tipo de mistura se repetia. “De novo linguiça, mãe?” Quem hoje de nós se ofende em comer a mesma carne todo dia? Todo dia? Que maravilha, é de lamber os beiços!

É verdade que ninguém se sente ofendido de ter uma roupa passadinha, mas tampouco se incomoda de sair pra rua com a roupa amassada. O que falar então da cama, com lençóis e travesseiros espalhados? Afinal, se há um argumento que preservamos desde a infância neste terreno é: “afinal, por que diabos vou arrumar a cama se daqui a algumas horas vou bagunça-la de novo?” Achávamos ainda crianças um grande argumento. Hoje, já crescidos, continuamos achando. E agora, coerentes, aplicamos essa filosofia.

Não digo que esse modo de vida se aplica a toda juventude. Mas que há um batalhão de preguiçosos na nossa geração, isso há. Entre os homens, nem se fala. Uma legião de jovens que poderiam até melhorar na arte de cozinhar, mas… que preguiça. Poderiam melhorar na eficiência durante a faxina semestral da casa, mas… que preguiça. Sou um deles. Sou fã do MasterChef por entretenimento, não para aprender a cozinhar. Preguiça crônica.

Claro, conheço amigos e amigas de 20 e tantos anos que fogem à regra, que fazem todo tipo de manutenção do lar, que cozinham mais de 5 tipos de mistura, que levaram tão a sério as ameaças de seus pais que são um exemplo de organização e independência. Com sinceridade, os admiro.

Enfim.

Mas todo esse texto é só um pretexto pra dizer que há alguns meses estava com a luz do quarto falhando — ora acendia, ora apagava. A preguiça em chamar um “especialista”, a preguiça em tentar resolver o problema sozinho era maior. Ou, auto-engano, tinha sempre coisas mais urgentes e maiores a resolver.

Pois bem, acabo de resolver o problema sozinho. 
Troquei a lâmpada.

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