Estou perdido. Quer vir comigo?

Eu, particularmente, nem faço tatuagem porque não tenho certeza de nada. A procura é a minha única permanência e até isso me parece temporário. (Foto: arquivo pessoal/República, São Paulo)

Outro dia, vi um quadrinho com o qual me identifiquei muito. No desenho, um carneirinho simpático segurava uma placa: “Não me siga, estou perdido”. A frase me acompanhou por semanas, até que, aos poucos, comecei a desconstruí-la.

Não se engane: eu estou perdido. Sempre estive. O fato é que não acredito em seguir alguém, porque desconfio de quem afirma saber exatamente quem é e onde quer chegar. Desconfio de certezas.

Mais que isso até. Começo a acreditar que o “modo perdido” é um estado bastante saudável. Porque, se você pensar bem, há informações cruciais sobre existir que permanecem ocultas: você não sabe quando vai morrer, eu não sei o sentido da vida, a gente não sabe o que faz aqui.

Ao mesmo tempo, as figuras mais convictas que me vêm à cabeça são fanáticos religiosos, políticos dissimulados, apresentadores exaltados, chefes do crime organizado e, bem, toda sorte de gente maluca.

Repare: maior a convicção, maior o risco, como bem mostram os discursos de Hitler nos registros audiovisuais da época. O líder militar falava com uma certeza visceral sobre uma superioridade étnica que nunca obteve comprovação científica. Mas falava com eloquência.

Hitler não parecia perdido e foi seguido por uma nação, ainda que houvesse resistências isoladas. É que não saber o que pensar ou fazer tende a deixar as pessoas inseguras e ansiosas. Refletir por conta própria demanda energia, bagunça mais que arruma, cansa. Um líder é um alento, portanto: no banco do carona, você pode apenas apreciar a paisagem, mesmo que não sabia aonde vai.

O poder persuasivo da convicção pode ser percebido em contextos bem mais corriqueiros que o do nazismo, na verdade. Certa vez, o irmão de uma amiga conseguiu entrar na área vip de um show disputado, com outras duas moças, apenas por dissimular a firmeza de quem sabe o que faz. Passou pelo segurança e disse: “Elas estão comigo”. E, assim, os três entraram, sem que ninguém os impedisse.

O rapaz agiu como se o segurança devesse saber quem ele era. Como se fosse uma autoridade. Na prática, acabou sendo. Eu, que sempre me abalo diante do primeiro “Tem certeza?”, tendo a acreditar que convicção é quase sempre um engodo, seja para o engano de si ou dos outros. Mas funciona, hein.

Por outro lado, é fácil observar que muita sabedoria já foi compartilhada por gente confessadamente perdida. “Sei que nada sei”, admitia Sócrates há 2,4 mil anos. Pelo método socrático, um equívoco é exposto não por fatos que o contestem, mas por perguntas que o desconstroem. Aos poucos, essas provocações geram respostas evasivas, titubeantes, que acabam revelando a inconsistência da convicção inicial.

A dúvida é melhor caminho para a verdade. Hum, será?

Você também se inventa enquanto se procura? (Ilustração: Jean Jullien)

Bem, o próprio conceito de verdade talvez seja uma abstração. Fake news à parte, mesmo a interpretação de fatos soa tantas vezes como exercício autoral. Cada um forja inclusive própria realidade, do jeito que pode. Ninguém sabe completamente de si porque parte de sua experiência e de sua identidade permanecem insondáveis, inconscientes. Algum mistério é compulsório.

Freud sempre destacou que o papel do psicanalista não é guiar o paciente, explicá-lo, traduzi-lo, mas deixar que fale livremente para que reflita sobre o que diz, a ponto de chegar a alguns insights, quase que por conta própria. O papel do psicanalista é o de um interlocutor atento mas discreto, que sinaliza padrões, ilumina pontos cegos e, principalmente, escuta sem expressar julgamentos. É a versão idealizada de um amigo, de um parente, de um professor, de um sacerdote, de um deus, que se abstém de uma opinião, de impor ao outro a própria subjetividade, com o desafio de, ao mesmo tempo, permanecer íntimo, humano, presente.

No Construtivismo de Piaget, também é o aprendiz, a criança, quem constrói e organiza o próprio conhecimento. A interação com o ambiente e com outras pessoas apenas fornece novos estímulos para essa curadoria individual. Por essa perspectiva, todo aprendizado, mesmo num curso presencial com professor e colegas, ocorre por um viés autodidata.

Estamos todos perdidos e ninguém pode realmente guiar ninguém. Bem, isso é o que eu acho, porque achar é tudo o que posso fazer. É engraçado, a propósito, que em português o verbo “achar” signifique tanto “acreditar” quanto “encontrar”, possibilidades tão contraditórias. Eu não gosto de “acreditar” — prefiro saber, descobrir, “encontrar”, o que é muito mais difícil, raro e pretensioso.

Por isso, escrevo não para guiar outras pessoas, mas para compartilhar a minha procura. E me orgulho disso. Penso que gente perdida é melhor companhia. Perdido, eu me interesso pela busca do outro. Perdido, você tende a ser mais aberto, mais humilde e mais solidário. Perdidos, nós nos encontramos.

Gosto da ideia de ser lido, mas não quero que me sigam (hum, exceto nas redes, como aqui no aqui no Medium). O fato é que fico contente quando consigo me conectar brevemente com alguém, mesmo que cada um tome o próprio rumo dali por diante. Basta.

Veja só: você nem precisa me seguir. Se leu até aqui, a gente já se fez companhia por um trechinho do caminho.

(Texto editado e atualizado a partir do original, publicado em 2016 no HuffPost Brasil e no LinkedIn.)

Leandro Quintanilha

Written by

Jornalista em dissidência, escritor em processo, psicanalista em formação

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