Entre sujeito e obra

Leandro Romano
Aug 23, 2017 · 3 min read

Uma das questões éticas mais delicadas no campo das artes é, possivelmente, a distinção (ou não) que fazemos entre sujeito e obra. Em muitos casos, os limites que separam estas duas instâncias são nebulosos e dificilmente conseguimos separar aquilo que é exclusivo da obra de arte daquilo que é específico do homem. Uso o termo "homem" de maneira proposital: os últimos exemplos de machismo no meio artístico expuseram (justa ou injustamente) figuras masculinas como Johnny Depp, José Mayer, Chico Buarque e, mais recentemente, integrantes da banda gaúcha Apanhador Só.

O dilema moral que se coloca aqui é: devemos desconsiderar a obra de um artista por conta de um desvio de comportamento no âmbito pessoal? Nas redes sociais — que hoje representam o principal veículo de comunicação entre artista e público — o boicote tem adquirido cada vez mais força, fazendo com que os agentes do machismo sejam penalizados através do compartilhamento em massa de seus erros e da consequente perda de seus seguidores. É uma (r)evolução e uma conquista para o direto das mulheres, algo que, antes de se tornar uma realidade, praticamente livrou a cara de homens como Polanski e Woody Allen. Afinal, ninguém boicota seus filmes e ambos são considerados artistas geniais. Isso se explica porque, objetivamente, seus trabalhos são mais inofensivos do que suas vidas. Se analisamos qualquer obra de arte de autoria desconhecida, vemos apenas aquilo que a obra tem a nos oferecer.

Mas o que ocorre hoje com a prática do boicote é uma espécie de Eichmann às avessas, isto é, julga-se a obra pelo sujeito (e não a obra pela obra e o sujeito pelo sujeito). Segundo esta lógica, não importa a qualidade do trabalho mas o caráter do artista. Numa época em que expomos conscientemente nossas vidas nas redes sociais, quase já não existe mais separação entre o público e o privado e, portanto, a falta de dissociação entre sujeito e obra talvez seja um espelhamento destas novas relações.

O boicote a Chico Buarque é um atestado desta amálgama. Fazendo lembrar atores que são confundidos com seus personagens nas ruas, o cantor foi pessoalmente atacado por ter escrito a canção Tua Cantiga cujos versos dizem: "Quando teu coração suplicar/Ou quando teu capricho exigir/Largo mulher e filhos e de joelhos vou te seguir". Afirmar que, por causa desta letra, Chico Buarque é um homem machista é tão absurdo quanto sugerir que o mesmo seja uma mulher abandonada já que compôs os versos de Atrás da Porta. O artista precisa ter a liberdade de criar o que quiser sem que a ficção seja irresponsavelmente embaralhada com a realidade. Ou ninguém jamais percebeu que a letra de Feijoada Completa é extremamente misógina?

O machismo precisa e deve ser combatido a todo custo, mas a cultura do boicote (pelo menos quando tão apressada) pode tomar direções perigosas. Isto não significa diminuir o discurso da mulher, mas é fundamental tomar certos cuidados antes de invalidar o trabalho de um artista. Primeiro porque, como sabemos, injustiças acontecem. Mas também porque estamos caminhando para um futuro no qual aqueles que cometerão erros serão eternamente isolados dos demais sem direito ao perdão. Como qualquer dilema ético, é necessário compreender as especificidades e contextos de cada situação para, num segundo momento, avaliar suas consequências.

Do meu ponto de vista, acabo automaticamente mudando meu olhar sobre artistas machistas. Continuo gostando do trabalho do Johnny Depp, mas não admiro mais sua figura. Adoro e ouço as músicas do Apanhador Só, mas não tenho nenhum interesse nos membros da banda. A repulsa é inevitável e lamento que vivamos em um país onde quase não há punição.

É possível que, na atual conjuntura, o boicote seja compreensível se visto como a única saída possível diante de uma sociedade machista e de governos e justiças tão coniventes com o feminicídio. Neste sentido, a luta das mulheres merece todo o respeito. Só nos resta torcer para que seus esforços gerem resultados menos impotentes. O boicote é um grito de socorro porque ainda é preciso gritar para ser ouvido. A separação entre público e privado, profissional e pessoal, sujeito e obra, talvez seja a grande aporia contemporânea.

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Diretor e produtor de teatro, integrante da companhia carioca Teatro Voador Não Identificado.

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