O lugar do espectador no jogo teatral

Abstrações e aproximações entre teatro e jogo

"Jogos infantis", de Pieter Bruegel

No ensaio O teatro é necessário?, publicado pela primeira vez em 1977, Denis Guénoun analisa as causas da chamada "crise do teatro" e investiga teoricamente a necessidade de sua existência na contemporaneidade uma vez que seu público vem diminuindo em todas as partes. Embora reduzido, é evidente que o teatro ainda tem seu lugar no mundo e Guénoun explica tal perpetuação a partir da seguinte hipótese: o teatro é um jogo e, assim como há a necessidade de jogar, há também a necessidade de olhar o jogo.

Partindo deste princípio, não há como deixar de mencionar a já vulgarizada dubiedade do termo play, em inglês, que pode tanto significar peça de teatro quanto jogo (ou brincadeira). Mas, ainda que esta ambiguidade esteja explícita na língua inglesa, nem sempre a associação é óbvia. Fala-se muito sobre o jogo entre os atores (o jogo cênico) mas raramente inclui-se a plateia neste jogo. Para Guénoun, a solução (se é que podemos chegar a uma) seria trazer também o espectador para dentro da brincadeira.

"O jazz (…) nasceu de um convívio vagamente obsceno entre as partituras profissionais e os balidos de 'amadores' que vieram inscrever ali seus idiomas 'de fora'. É preciso jazzificar o teatro." — Denis Guénoun

Teatro e jogo também são ideias intrínsecas quando pensamos nos “jogos teatrais” — profundamente estudados por Augusto Boal, Viola Spolin, entre outros — que, via de regra, são ferramentas para desenvolver as aptidões de seus participantes (perda da timidez, aprimoramento da expressão corporal etc.) e nem sempre estão diretamente ligados ao ambiente teatral, podendo inclusive ser praticados em dinâmicas de grupo entre funcionários de uma empresa.

Para explorarmos as outras possíveis relações entre teatro e jogo seria fundamental elucidar antes o que é jogo, palavra de difícil definição, dado que o termo comporta inúmeros conceitos que, de acordo com Wittgenstein, "não podem ser agrupados por uma única definição, mas apresentam um conjunto de características que são compartilháveis dentre as definições possíveis." Ou seja, há tantos jogos distintos entre si, com características tão dessemelhantes, que talvez seja impossível alcançar uma definição única. Podemos, no entanto, lançar mão de nossa experiência em jogo e intuir organicamente uma explicação. Ao invés de citar autores e especialistas, arrisco eu mesmo a defini-lo: um jogo é uma atividade (solitária ou partilhada) baseada em regras pré-definidas na qual o(s) participante(s) faz(em) uso de suas habilidades para atingir um objetivo final que pode (ou não) determinar um vencedor.

Tendo em vista que um jogo especificamente teatral prevê ao menos dois participantes (um ator e um espectador), traço a seguir algumas abstrações sobre como o teatro pode convidar o público a jogá-lo:

1. Objetivo em comum

Numa rápida procura por definições de jogo, notei que grande parte destas faz menção à noção de "objetivo", isto é, todo jogo possui um propósito claro, uma meta que deve ser alcançada pelos participantes. Este objetivo geralmente é explicado através de regras. Como se sabe, o teatro também possui suas próprias regras, que costumamos chamar de "pacto implícito entre palco e plateia": os atores fingem que são personagens enquanto o público finge que acredita. Este pacto, porém, é meramente comportamental (não comer, não atrapalhar o andamento do espetáculo, não falar ao telefone etc.) e, sendo assim, não inclui o espectador. Há hoje duas regras diferentes: uma para os atores e uma para os espectadores. É imprescindível, portanto, unificá-las e democratizá-las. Mas, para isso, temos antes que assumir que teatro e jogo são, antes de mais nada, experiências coletivas.

A ideia de teatro como experiência, bem como a de arte como experiência, encontra paralelos com o conceito de experiência científica. Toda experiência ambiciona um objetivo; testa-se uma hipótese a fim de encontrar uma conclusão. O teatro poderia se equivaler deste raciocínio através da interação com a plateia — evidentemente não forçada e constrangedora para o espectador — que a trouxesse para dentro desta experiência. O jogo teatral seria, assim, uma criação artística cujo objetivo final é compartilhado com o público que, junto com os atores, presencia a execução de uma experiência cênica. Outra possibilidade não menos interessante é a realização de experiências com a plateia, que seria "testada" a partir de regras e de um acordo prévio entre todos os "jogadores".

2. Imprevisibilidade e resultado final

Ao iniciarmos um jogo, não somos capazes de prever o que acontecerá pois tudo depende das movimentações, escolhas e, em muitos casos, da sorte dos participantes. Esta imprevisibilidade é comum ao teatro já que, por se tratar de uma arte executada "ao vivo", tudo pode acontecer. De certa maneira, a graça do teatro é que a cena pode ruir a qualquer momento. Quando jogamos um jogo, no entanto, não esperamos pela perfeição. Temos plena consciência de que há um caminho a ser trilhado dentro de uma lógica e de que nem sempre nossas jogadas serão as melhores.

Por mais que conheçamos bem a estrutura de um determinado jogo e que já o tenhamos jogado mil vezes, cada experiência é única. Enquanto isso, no teatro, os ensaios podem passar uma sensação de segurança para os atores, mas nada pode lhes garantir que um desastre não ocorrerá. Se a plateia é convidada a participar do jogo teatral, sabendo que está sujeita à imprevisibilidade daquele instante, o resultado final deixa de ser importante e, tal como num tabuleiro, cada casa passa a contar um ponto a mais.

3. Expansão ou contração do tempo

O tempo no teatro é fundamental. Tudo o que surge em cena acontece em tempo real e, por isso, o teatro é um instante compartilhado por pessoas num mesmo espaço de tempo e local. O tempo que um ator leva para comer uma maçã no palco é o mesmo tempo que os espectadores terão que vê-lo executar esta ação. O tempo teatral vale ouro e deve ser usado com clareza.

Jogos podem ter duração limitada (não por acaso inúmeros jogos contém ampulhetas) ou ilimitada (como, por exemplo, o xadrez e o Banco Imobiliário). A princípio, todos os jogadores sabem e aceitam que a experiência do jogo terá um tempo que pode ser indeterminado ou não. Uma pessoa que dispõe de trinta minutos não se proporá a jogar War, mas talvez concorde em disputar uma partida de jogo da velha.

Digo isto porque estamos muito habituados com a praxe de que o evento teatral tem um tempo delimitado. Assistimos à espetáculos sabendo de antemão sua duração (que raramente passa dos 90 minutos). No jogo teatral que inclui o espectador, todos — palco e plateia — compreendem que aquela experiência durará o tempo que for necessário. Seria no mínimo curioso ver um espetáculo que pode, em teoria, não acabar ou, quem sabe, uma peça que vá aos poucos eliminando atores e espectadores.

4. Estratégias coletivas

Há uma grande diferença entre estratégia solitária e estratégia compartilhada. Nesta última, os jogadores entram em contato com outras formas de pensamento e são auxiliados por seus parceiros em busca de um objetivo comum. Voltando à questão do teatro como jogo coletivo, reconheço que a relação entre teatro e estratégia parece complicada, mas há, nos últimos anos, alguns exemplos de como os espectadores podem intervir estrategicamente no espetáculo a partir do uso da tecnologia. Em Caso a Caso, peça escrita e dirigida por Joao Rodrigo Ostrower em 2014, o público podia enviar mensagens de texto para os atores com sugestões de ações que os mesmos deveriam executar em cena. É, portanto, uma estratégia cênico-narrativa.

Mais recentemente, o espetáculo infantil Makupuni, de Vida Oliveira, também propõe a interferência do público, fazendo com que as crianças escolham os rumos da história através de eleições constantes computadas por um dispositivo eletrônico de contagem de votos. Makupuni, segundo a própria diretora, é uma peça-game. Neste tipo de espetáculo, o espectador leva ao teatro a mesma relação que mantém fora dele com os jogos. É emblemático que esta seja uma peça infantil, já que desde cedo apresenta para crianças a possibilidade de um teatro menos fechado e mais condizente com sua realidade atual.

5. Partilha e transmissão de conhecimento

Forma e conteúdo são conceitos-chave tanto no âmbito da arte quanto no dos jogos. A forma de determinados jogos propicia a partilha e a transmissão direta de conhecimentos entre os participantes. É o caso dos jogos de perguntas e respostas, em que a discussão de temas gera ensinamentos e aprendizados. As narrativas de teatro podem fazer uso deste procedimento. As associações internas do espectador são valiosas, já que as interpretações de uma mesma obra são muito amplas para cada um dos espectadores (que possuem suas bagagens e peculiaridades próprias). O jogo teatral deve absorver as contribuições do público, tornando o espectador um membro construtor do espetáculo (ou aquilo que costumamos conhecer como espect-ator). Trata-se de um teatro menos impositivo.

6. Perdas e ganhos

Para concluir, a preponderância dos jogos traz consigo a noção de perdas e ganhos. Há um perdedor e há um vencedor. São raros os jogos que não se baseiam nestas condições e saber reconhecer a derrota é fundamental. O que nos faz gostar ou não de um jogo não é se o ganhamos ou se o perdemos, mas se o ato de jogar foi positivo ou não. Cito abaixo uma experiência pessoal que penso ilustrar bem este quadro.

Em 2014, dirigi o espetáculo O Processo baseado na obra de Franz Kafka. A cada apresentação um ator diferente era convidado para interpretar o personagem principal sem nunca ter ensaiado e sem nunca ter visto a peça. Neste contexto, era impossível saber se o espetáculo daria certo. Em artigo para Revista NOO, Santiago Perlingeiro escreveu sobre a peça:

O paradigma deixa de ser a contemplação, passiva por princípio, e passa a ser o próprio processo criativo, exigindo cada vez mais a interferência/participação do espectador na construção do sentido (daí a feliz ambigüidade do nome da peça). É também ousada porque, ao deslocar a proposta do produto final para o seu método, a pergunta clássica — você gostou? — deixa de fazer sentido. Não se trata mais de gostar ou não, mas intuir, analisar, apreender e se apropriar. Dito isto, depois de três vezes assistir ao espetáculo, me parece que a singularidade de cada apresentação se evidencia e ganha valor a cada nova audiência. Pode acontecer, como já vi, de o convidado, devido ao estranhamento que lhe provoca tudo aquilo, ficar pasmado e responder muito pouco aos estímulos que o elenco lhe oferece, o que torna o espetáculo mais arrastado, e menos atrativo enquanto entretenimento. Independentemente da reação do convidado, porém, a graça está em cada gesto mínimo, cada detalhe, a personalidade de cada um influencia absolutamente no resultado. É como se não fosse uma, mas várias peças que compartilham apenas o método, o processo.

Ganhar no jogo teatral é o mesmo que aproveitar a experiência que, como produto, pode ser bom ou ruim. Como no jogo, o objetivo é a vitória, mas o mais importante é a ação de jogar e de partilhar o momento com os outros participantes. Acredito que todas essas considerações demonstram caminhos que podem aproximar o público de um teatro mais convidativo ou, nas palavras de Guénoun, mais jazzificado.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.