As lições do filme “The Big Short” para investidores e traders
No final de 2015 foi lançado o filme “The Big Short”, um trocadilho entre o termo “big”, “grande” em inglês e “short”, que pode ser traduzido como “pequeno” ou como “venda” no mercado financeiro, especialmente a venda a descoberto. No Brasil o filme recebeu o título “A Grande Aposta”.

A película é baseada no livro de mesmo nome de Michael Lewis e traz grandes atores como Christian Bale interpretando Michael Burry, um gestor de hedge fund esquisitão, Ryan Gosling assume a pele de um vendedor de bonds do Deutsche Bank chamado Jared Vennett. Steve Carell interpreta um gestor ranzinza e Brad Pitt um trader idealista que vira um lobo solitário e mentor de outros dois investidores mais jovens que tocam um hedge fund de garagem.
A história real gira em torno do crash de 2008 no mercado financeiro iniciado através do estouro de uma bolha no mercado imobiliário, especialmente pelo alto nível de alavancagem e a baixa qualidade dos devedores no chamado mercado subprime.
Michael Burry é apresentado como o sujeito que primeiro identificou a insustentabilidade dos bonds de crédito imobiliário através do estudo minucioso dos seus componentes, a desaceleração do mercado e a alavancagem exacerbada. Os personagens apresentados têm contato com essa visão de Burry e buscam montar uma posição no mercado para lucrar com a inevitável queda. Esse é o “short” do título.
Diga-se de passagem, os roteiristas produziram um grande esforço para explicar a matéria ao público leigo sem deixá-lo chato para os profissionais ou entusiastas do mercado. As explicações são hilárias e muito didáticas.
Também são apresentados os bastidores do mercado financeiro formado por práticas no mínimo questionáveis. Nessa linha infelizmente a peça aponta os grandes bancos e corretoras como os malvados da história e responsáveis pela crise. Uma conclusão fácil e equivocada, como demonstrarei mais a frente.
De qualquer forma é uma boa diversão para qualquer audiência, mas aqui quero focar em alguns pontos importantes para aqueles que estão sempre em busca da próxima grande operação no mercado financeiro:
- Acreditar numa única grande aposta que te deixe rico é algo extremamente arriscado.
É muito mais fácil trabalhar sistematicamente com pequenas apostas de baixo risco do que dar uma grande tacada. Claro que existem momentos onde os indícios são irrefutáveis e a chance de sucesso beira os 100%. A última grande oportunidade oferecida no mercado brasileiro, por exemplo, foi exatamente a alta do dólar recente.
Mas mesmo nesses casos o ideal é não partir para o tudo ou nada. Você pode montar uma posição que gere grandes ganhos no caso de acerto mas não te quebre no caso de erro.
Claro que enriquecer num único trade é o sonho de muitos, mas como dizem, o cemitério de Wall Street é muito silencioso. Um caso como o do personagem principal do filme é muito barulhento, desperta a cobiça de qualquer um. Mas para cada sujeito que arrisca tudo e vai para casa com um cheque de US$ 100 milhões talvez tenhamos mil sujeitos que perdem tudo. E ninguém faz filme sobre esses sujeitos.
2. Você pode estar certo e mesmo assim perder tudo nesse tipo de aposta
Talvez essa seja a principal dicotomia presente na cabeça de um gestor de recursos. Fundamentos ou timing? Durante um bull market o principal driver não é o fundamento, mas os lucros de curto prazo. Enquanto existir dinheiro disponível para pagar mais caro o mercado não para.
Era óbvio para muita gente durante a bolha das empresas ponto com que um site na internet e alguns moleques numa sala sem projeto, sem ideia, sem capacidade alguma não poderia valer muitos milhões. Mas aqueles que venderam cedo demais foram obrigados a fechar a sua posição porque o mercado seguiu a alta por muito tempo antes de reverter.
É uma situação análoga com a bolha brasileira. Hoje fica muito claro que um país administrado por sindicalistas analfabetos e ladrões não poderia dar certo. Mesmo assim tivemos uma grande alta nos preços de ações, imóveis e de outros ativos brasileiros até que a verdade tenha se apresentado.
Depois que a bolha estoura é fácil de perceber, tudo fica muito claro. Durante um bull market é possível perceber os sinais de perigo mas muito difícil identificar o ponto exato de virada.
De uma maneira geral, entre fundamentos e tendência, eu fico com a tendência. Até porque utilizando as técnicas corretas é possível identificar uma mudança da tendência, não o ponto exato de topo ou fundo.
3. Utilize algum tipo de limite de prejuízo
Nunca monte uma posição sem saber qual será o prejuízo máximo se as coisas derem errado. Essa é uma dica que vale para o mercado e para a vida. No mercado isso pode ser feito de várias formas. Ou você limita uma parcela máxima do seu capital para uma determinada operação, ou um prejuízo máximo permitido, fechando a posição caso o mercado atinja esse limite. É possível utilizar essas duas estratégias ao mesmo tempo para limitar o risco.
4. É possível ganhar dinheiro tanto nas altas quanto nas baixas
Talvez essa seja a melhor lição do filme. Enquanto a esmagadora maioria dos investidores estava perdendo dinheiro um grupo de sujeitos conseguiu gerar ganhos com o mercado em queda. A venda a descoberto é um instrumento pouco conhecido até mesmo por gestores experientes. Talvez até por ser algo contrário ao espírito otimista que permeia a sociedade na maior parte do tempo. Ninguém quer saber do que pode dar errado, mas sim do que pode dar certo.
Não é por acaso que praticamente todos os gestores retratados no filme eram sujeitos “estranhos”: nerds, pessimistas, exóticos e ranzinzas.
Mas não é preciso ser “estranho” para operar na ponta vendedora. É só ter os pés no chão e estar aberto aos dois lados do mercado.
5. Cuidado com o mercado de balcão e derivativos exóticos
No mercado de ações é possível vender a descoberto uma ação com certa facilidade. O mesmo não ocorre em alguns outros mercados. Hoje os CDS’s (credit default swaps) são mais comuns e líquidos, mas ainda fazem parte de um mercado não tão bem regulamentado e organizado.
Na época retratada pela película a situação era diferente. Os bancos basicamente tiveram que criar esses produtos, oferecendo um seguro contra a queda, sendo inclusive a contraparte na operação. Uma mistura que costuma não dar certo. Em primeiro lugar existe um conflito de interesse imediato: a corretora ou banco nesse caso só ganha se o cliente perde. E o risco da operação passa a ser o risco da contraparte.
Tanto é que no final do filma os investidores quase perdem tudo por conta da insolvência dos bancos que eram em última instância os seus devedores.
Nunca opere um instrumento que você não entende completamente e avalie o risco da contraparte.
6. O mercado financeiro não é o culpado de todos os males da Terra
Eu assisti todos os filmes e documentários sobre o crash de 2008. Li dezenas de livros. Há quase uma unanimidade em apontar o livre mercado como um problema. Quase todos denunciam as corretoras e bancos como instituições sem nenhum tipo de escrúpulo e a falta de regulamentação desse mesmo mercado por parte dos governos.
Obviamente que o mercado financeiro não é um convento de freiras e existe muita sacanagem por baixo dos panos e relações espúrias entre a indústria e o governo, mas em qual setor não há bandidos e mocinhos?
O que eu não vi em todos esses trabalhos foi o dedo apontado para os milhões de indivíduos que tomaram empréstimos que não poderiam pagar e utilizaram o mercado para alavancar as suas posições. Ou então aos investidores do mundo inteiro que compraram esses títulos sem nem saber direito o que eles representavam. Será que esses sujeitos não têm responsabilidade nenhuma?
E o que falar do governo? Será que as políticas monetárias frouxas das últimas décadas que produzem uma bonança artificial e os respectivos votos para manter a mesma elite no poder não tem nada a ver com o problema? Como podemos chamar de livre mercado quando é cada vez mais difícil criar um negócio do zero e mantê-lo hoje em dia e quando um grupo de poucos iluminados decidem se a taxa de juros deve subir ou cair? As políticas de subsídio para certos grupos no mercado imobiliário não tiveram um papel importante para a formação da bolha?
Sabemos que milhões de pessoas perderam as suas casas nos EUA e bilhões foram afetadas no mundo pela crise até hoje. Mas se não houvesse a bolha de crédito imobiliário uma boa parte dessas pessoas nunca teriam essas casas de qualquer maneira e muitos negócios pelo mundo não teriam sido iniciados.
O mercado vive de ciclos de expansão e de correção que não se enquadram numa visão idealista de estabilidade e riqueza duradoura, onde apenas boas intenções garantem as necessidades e desejos de todos.
Na verdade sempre que as pessoas se deixaram enganar por essa visão idealista o resultado foi exatamente o contrário: fome, violência, pobreza e morte.
Por mais que seja duro de aceitar para alguns, a evolução ocorre através de idas e vindas. Dois passos para a frente e um para trás. O passo para trás serve justamente para destruir aquilo que não funciona para dar espaço a novas ideias e projetos. Um certo nível de sofrimento e pressão é necessário para que novos movimentemos para frente ocorram.
E por enquanto estamos nesse caminho positivo. Apesar de todos os problemas as pessoas nunca viveram tanto e tiveram tanto acesso a segurança, saúde, educação e liberdade na média da população global.
O mesmo mercado que destrói é o mercado que criou essa realidade positiva.
Coloco isso porque cansei de ver investidores e traders vivenciando um falso conflito entre os lucros das operações e a consciência de estar fazendo “algo errado”.
Eu tenho muito orgulho de fazer parte do mercado financeiro. Abomino algumas práticas correntes nesse mercado e dou a minha contribuição para acabar com elas. Mas aceito os ciclos de expansão e retração. Vou mais longe, creio que quanto mais livre for o mercado, maior será o nível de riqueza e evolução para todos os seres humanos.
Mas voltando ao que interessa, qual é a próxima grande aposta na sua opinião?
Leandro Ruschel opera no mercado financeiro há quase duas décadas além de empreender nas mais diversas áreas. É sócio-fundador da Leandro&Stormer, a maior Escola de Traders do Brasil. Nos últimos anos tem se dedicado as operações no mercado internacional através da Liberta Global. Saiba mais em www.libertaglobal.com ou entre em contato pelo leandro@libertaglobal.com .

Originally published at blog.libertaglobal.com em 28 de janeiro de 2016.