Capitão Fantástico, uma interessante janela para a transtornada mente esquerdista

Aviso: contém spoilers.

No filme, Viggo Mortensen interpreta Ben Cash, pai de seis filhos e ultra-esquerdista. A família vive numa floresta em isolamento, alternado tarefas de subsistência como a caça com atividades físicas e estudos gerais através da leitura de livros e provas conduzidos pelo pai. A mãe das crianças está internada, sofrendo de transtorno bipolar.

O filme oferece uma ótima oportunidade para entender a esquerda americana e suas inconsistências. Basicamente é um manifesto contra a “sociedade capitalista consumista”, os “poderosos” que exploram “os desfavorecidos”, além do cristianismo e dos valores conservadores. Na peça, é proposta a substituição do Natal pelo “Dia de Noam Chomsky”. O roubo é tratado como um ato moral, além da profanação de um cemitério. Não é por nada que o Huffington Post, o mais esquerdopata jornal americano, dedicou dezenas de páginas ao filme.

Vamos avaliar as propostas do filme e entender a grave confusão mental e filosófica da esquerda nos dias de hoje.

A cena inicial mostra uma linda floresta, nas montanhas de Washington, onde um veado é caçado pelo filho mais velho de Ben, Bodavan. Ele é morto a facadas por Bodavan. O seu pai chega ao local e faz uma espécie de ritual, pintando o rosto do garoto com o sangue do animal morto e dando o seu coração cru para ele comer, afirmando que agora Bodavan não era mais um menino, mas sim um homem.

O cristianismo é barbárie. Comer o coração de um veado após matá-lo é civilização.

É interessante como a religião organizada, especialmente a cristã, é atacado ao longo de todo o roteiro, mas uma série de rituais indígenas como esse são seguidos pelo grupo. Essa não é uma mera contradição ocasional, mas sim um reflexo natural do pensamento esquerdista.

Explico, quando há uma visão crítica completa ao modo de vida ocidental e as suas bases, como a cultura judaico-cristã, a família patriarcal, o capitalismo, a propriedade privada e o Estado de Direito, é preciso buscar um modelo anterior de vida que seria mais “puro” e “verdadeiro”, que permita o desenvolvimento do ser humano intrinsecamente bondoso, como ensinava Rousseau.

“Quem não acredita em Deus, passa a acreditar em qualquer coisa”, Chesterton.

Assim há uma tendência natural dos revolucionários esquerdistas desenvolverem um apreço quase automático a tradição oriental, aos rituais indígenas ou qualquer coisa que não seja ligado ao judaísmo e ao cristianismo.

Ben e sua família são hippies modernos, numa releitura do movimento de contracultura que surgiu na década de 60 defendendo uma vida mais simples, com maior liberdade sexual e contato com a natureza, além do uso de drogas psicotrópicas com o objetivo de “expandir a consciência”.

As raízes do movimento podem ser encontradas na New Left, a nova organização da esquerda que ganhou impulso após o discurso de Nikita Kruschov no XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética em 1957, onde foram expostos os graves crimes de Stálin, que resultaram na perseguição, prisão e morte de milhões de soviéticos.

A partir de então, os comunistas passaram a buscar um novo caminho para implementação da sua utopia, já que campos de extermínio e regimes totalitários não estavam funcionando muito bem como propaganda para o regime. Não obstante, até hoje a esquerda enxerga as atrocidades cometidas por Stálin, Mao, Pol Pot e outros ditadores comunistas como um mero desvio, uma incompreensão na mensagem “humanista” de Marx. Já outros continuam a defender tal postura, afinal de contas, não é possível fazer omeletes sem quebrar os ovos, mesmo que nessa analogia os ovos representem milhões de vidas humanas. Tudo seria perdoado em nome da utopia comunista.

É espantoso como é socialmente aceito alguém se declarar comunista, sendo que tal ideologia colocada em prática matou no mínimo 10 vezes mais pessoas que o nazismo. Lembremos que as duas ideologias não são tão diferentes assim, substitua classe por raça e elas ficam praticamente iguais.

Mas além do pequeno problema de relações públicas criado com a revelação de Kruschov sobre o companheiro carniceiro Stálin, havia uma outra questão em jogo: a classe operária “oprimida” não estava mais interessada na revolução, pois estava ganhando mais dinheiro do que nunca através do livre mercado capitalista e com proteções legais individuais oferecidas pelos Estados ocidentais impensáveis alguns décadas atrás. Além disso, os trabalhadores podiam eleger os seus representantes ou até mesmo se aventurar como empreendedores e virar os novos burgueses.

A malvada “exploração” capitalista e o Estado de Direito ocidental geraram o maior nível de riqueza da história humana. A revolução da classe operária preconizada por Marx não aconteceu.

A New Left surge então como uma nova abordagem, cujas novas bandeiras eram a liberação sexual absoluta com o objetivo de destruir a família patriarcal, a busca de direitos sociais que deveriam ser garantidos pelo Estado, a crítica ao consumismo exagerado da sociedade capitalista e ao seu “vazio existencial”, além da apresentação das desigualdades apresentadas pelo modelo, mesmo que a base da pirâmide nos países desenvolvidos apresentasse um padrão de vida superior a reis da idade média.

Essa nova esquerda, como a velha, ataca as religiões organizadas como sistemas de opressão e controle das massas através de um código moral que tolhe as liberdades humanas. O mesmo ocorreria com a Justiça, que seria mais um instrumento de opressão utilizado pela classe dominante. Dessa forma, a desobediência às leis e aos costumes dos países ocidentais seria uma forma de protesto e de luta por uma “sociedade mais justa”.

O alvo preferido do movimento não poderia deixar de ser os Estados Unidos da América, que formariam um Império colonialista, buscando explorar o mundo inteiro, segundo a visão da esquerda.

Japão, país derrotado e ocupado pelos EUA na Segunda Guerra mundial, demonstra o resultado de décadas de exploração.

O mais interessante é que o movimento hippie americano, produzido pela New Left, não tinha nada de muito novo. As mesmas bandeiras foram levantadas pela “Lebensreform” na Alemanha, no final do século XIX e início do século XX, um movimento que defendia a volta a natureza, enfatizando o consumo de comidas mais saudáveis, nudismo, liberação sexual, medicina alternativa e paganismo. A única diferença com os hippies modernos era a proibição de drogas em geral. Os hippies alemães chegaram a criar diversas comunidades e um dos ramos do movimento acabou dando origem a uma nova seita frequentada pelos oficiais da SS nazista.

Acampamento Hippie, versão 1.0, na Alemanha, 60 anos antes dos EUA.

O próprio Führer era vegetariano, adorava a natureza e amava os animais. Utilizava tratamentos da medicina alternativa e tinha simpatia pelo paganismo teutônico.

Todas essas posturas não levam necessariamente ao mal, mas é óbvio que o uso delas com o objetivo manifesto de destruir as bases da sociedade tem tudo para criar um sistema muito mais opressivo que aquele originalmente criticado.

Voltando ao filme, tal visão é claríssima!

Na cena onde Bodavan vai com o seu pai num mercadinho próximo a reserva onde vivem, ele acaba esbarrando num grupo de meninas que o deixam encabulado. O pai incentiva o menino a ir conversar com elas, no que ele responde: “Para perguntar o que ela acha da classe trabalhadora criar uma revolução armada contra as classes exploradoras e suas estruturas do Estado? ”

“Bem, marxistas podem ser tão genocidas quanto os capitalistas, ” responde o seu pai. Note a conclusão taxativa que os capitalistas são todos genocidas.

“Ou se ela é ou não é uma materialista dialética e concede primazia à luta de classes? ”

“Evite marxismo. Ou diga que você é um trotskiste, ” sugere o pai.

“Trotskista, ” corrige Bodavan. “Somente stalinistas chamariam um trotskista de trotskiste, e eu não sou mais um trotskista. Eu sou um maoísta! ”

O pai concorda com desdém, afinal de contas é só um jovem em busca de identidade ideológica, não é mesmo? Será que seria socialmente aceito num filme um jovem em formação se descrever como nazista?

Alguém pode me chamar de pedante, mas esse é exatamente o ponto. Quando os piores ditadores da história humana são vistos com simpatia, é porque o mesmo tipo de opressão pode acontecer novamente, tudo em nome da implementação do paraíso comunista na Terra.

Além disso, fica claro na postura de Bodavan a típica superioridade auto atribuída. As meninas maquiadas faziam parte do mundo capitalista alienante, elas não teriam condições de conversar com ele.

No acampamento de Ben e sua família, alta importância é dada a educação, tanto as ciências sociais quanto as exatas. Fica claro em vários diálogos como Ben considera o seu esquerdismo como algo natural para qualquer pessoa educada, tratando católicos ou conservadores como ignorantes completos. Esse é um traço comum entre todos os revolucionários em qualquer tempo, eles se consideram a “vanguarda revolucionária”, aqueles que conduzirão a humanidade para uma nova fase da evolução humana. Como “iluminados”, eles têm uma licença perpétua para cometer as maiores atrocidades que o mundo já viu. Na verdade, eles confundem opinião política com tese científica, gerando consequências devastadoras.

As teses marxistas foram sistematicamente desbancadas, em todas as tentativas de implementação de um regime socialista, houve fome, sofrimento e morte numa escala jamais vista. E mesmo assim, há uma parcela significativa de apoiadores do socialismo, especialmente entre os mais jovens. Podemos explicar tal fenômeno parcialmente pelo absoluto controle que a esquerda tem do meio artístico, sendo o filme “Capitão Fantástico” um bom exemplo de propaganda socialista. A geração Hippie americana das décadas de 60 e 70 ocupa hoje os principais cargos na Academia e na imprensa, além de assentos no Congresso e nas maiores corporações americanas.

É irônico o filme tratar a sociedade de hoje como “fascista”, nas palavras de Zaja, a filha mais nova de Ben, pois nunca a esquerda teve tanto poder quanto nos dias atuais. A família precisa voltar para essa sociedade falida e cumprir o desejo da mãe, que acabou de cometer suicídio. O pai de Leslie, esposa de Ben, quer enterrar a filha seguindo a prática cristã, enquanto Ben quer cumprir o desejo manifesto por Leslie de ser cremada, seguindo a filosofia budista e jogada num “vaso sanitário”. Jack, o pai de Leslie, imputa a Ben a culpa pelo agravamento dos problemas psicológicos da filha e ameaça prendê-lo caso ele tente impedir o enterro.

Novamente observamos a falta de coerência de Ben. Em diversas passagens ele demonstra o seu total desprezo por qualquer religião e mesmo assim respeita a religião da esposa. Quer dizer, respeita em termos, pois o budismo condena qualquer tipo de agressão, como por exemplo a morte de animais. É especialmente degradante o desejo de ter os seus restos jogados num vaso sanitário, mas é por esse nobre fim que Ben e sua família enfrentarão o pai de Leslie. Seria esse o desejo verdadeiro desejo dela ou o devaneio de uma pessoa profundamente perturbada, a ponto de cometer suicídio?

Depois de um discurso sobre como o mundo é injusto, Ben reúne a família para “resgatar” o corpo da mãe, mostrando as crianças, no caminho, o mundo onde “a principal interação social são as compras”, as pessoas são “gordas” e para escapar de uma abordagem policial, eles passam por cristãos ortodoxos adeptos de homeschooling, apresentados de uma maneira jocosa.

Depois de uma tentativa frustrada de comer numa lanchonete, onde só há junk food a disposição, a família resolve roubar um supermercado, simulando o infarto de Ben. Ou seja, o roubo é algo moralmente aceitável, já que os malvados capitalistas estariam em primeiro lugar explorando o povo. Roubá-los é um ato de resistência.

Segue então a cena mais absurda e ofensiva do filme. Com a comida roubada, a família faz um banquete em comemoração ao nascimento de Noam Chomsky, substituindo a comemoração do Natal, que “celebra um elfo mágico fictício”, bem menos importante que um “grande humanista” como Chomsky, “promotor de direitos humanos e do entendimento”.

O culto ao canalha.

A afirmação é uma dupla mentira. O Natal não celebra um “elfo”, mas sim o nascimento de Jesus Cristo, o Filho de Deus! E Noam Chomsky não é um “humanista”. Apesar de ser um grande nome no campo da linguística, o sujeito é um belo canalha no campo político. Ele se define como anarco-sindicalista ou socialista libertário, mas na verdade apoiou os regimes totalitários socialistas. Ele considera os EUA um Império opressor e durante a guerra do Vietnã, deu apoio aos vietcongs, chegando a ir até Hanói para dar aulas em nome da “paz”. Quando os EUA finalmente abandonaram a região, graças ao movimento pacifista apoiado por Chomsky e promovido pela esquerda, os vietnamitas sofreram na mão de uma ditadura comunista brutal. Pior destino teve os cambojanos, que foram exterminados por Pol Pot. Até hoje o canalha Chomsky defende que os relatos sobre as atrocidades cometidas no Camboja são “parte da propaganda americana contra a rebelião dos povos oprimidos”.

Para Noam Chomsky, o maior genocídio da história humana em termos de percentual de um mesmo povo assassinado por um regime foi exagerado pela imprensa.

As suas obras políticas apontam a imprensa como um instrumento de poder controlada pelo establishment, o que é verdade. Só esquece de mencionar que esse establishment utiliza os ideais socialistas defendidos pelo autor para aumentar o nível de controle sobre a sociedade.

Chomsky é um dos generais esquerdistas na Guerra Cultural e como linguista tem uma grande capacidade de impor a sua visão de mundo de forma ardilosa.

No final das contas, essa é a grande diferença entre a esquerda e a direita. Conservadores que percebem os problemas da sociedade moderna preferem adotar uma postura de afastamento, querendo viver as suas vidas em paz, garantindo a sua liberdade. Ou então buscam utilizar os meios existentes e legais para mudar a sociedade de forma lenta e gradual. Já a esquerda tem como objetivo mudar radicalmente a sociedade, de forma aguda e rápida, utilizando usualmente meios violentos, ilegais e imorais.

Os conservadores baseiam a sua luta na defesa do indivíduo, enquanto a esquerda sempre se coloca como representante de um grupo, mesmo que esse grupo nunca tenha escolhido tais sujeitos como seus representantes.

Para os conservadores, a maneira mais eficiente de proteger o indivíduo é fragmentando o poder, enquanto a esquerda quer concentrar poder para então modificar a sociedade de cabo a rabo. Em alguns casos a intenção pode ser positiva, na maioria das vezes tal postura apenas mascara os desejos totalitários de um grupo que ocupará o poder e o usará para fins individuais. Qualquer que seja o motivador, historicamente o final desse processo revolucionário sempre acabou em tragédia.

Os conservadores dão muito peso aos valores que fizeram a sociedade humana evoluir, especialmente ao código moral desenvolvido pela cultura judaico-cristã, enquanto a esquerda quer destruir esses valores em nome de projeto social que nunca deu certo.

Na mesma cena, Ben dá presentes a esse Natal Chomskyano, para a maioria dos filhos, armas de caça, ou seriam também armas para a revolução? A filha mais nova, com 8 anos de idade, recebe um livro adulto sobre sexo.

Um livro adulto sobre sexo para uma criança de 8 anos. Why not?

Um dos filhos de Ben se revolta com a situação, dizendo que “apenas pessoas doentes” poderiam comemorar o nascimento de Chomsky ao invés do Natal tradicional, no que Ben oferece o filho a possibilidade de defender a sua tese. O menino se retrai, sem conseguir explicar por que o Natal cristão é mais importante. Aí fica clara outra falácia da esquerda, a tese do livre discurso. Como uma criança que não teve acesso a livros conservadores conseguirá ter as informações necessárias para rebater argumentos esquerdistas ou mesmo para poder escolher qual caminho seguir? A educação hoje é um quase monopólio do Estado, dominada pela esquerda. Apenas fora desse ambiente é possível ter acesso a uma outra visão de mundo.

O filme segue com Ben e os filhos entrando em conflito com a sua irmã e com o seu sogro, ao ponto dele perceber que pode de fato estar fazendo mal aos filhos com a sua postura radical. Ele chega a deixar os filhos com os avós, mas ao final eles chegam a uma solução intermediária, onde pai e filhos vivem numa casa no campo mas frequentando uma escola. Sem antes ter desenterrado a mãe, a cremado e jogado as suas cinzas numa privada. Lindo!

A cena do corpo da mãe, desenterrada depois de alguns dias recebendo carinhos dos filhos é horrenda. Será que os roteiristas não perceberam que nesse estágio de decomposição do corpo, o odor seria insuportável?

Os restos mortais da esposa de Ben jogada no vaso sanitário de um aeroporto. Pura poesia!

De qualquer forma, a busca por uma vida mais simples e saudável, além do isolamento como forma de proteção dos valores mais caros a qualquer família é algo positivo. Mas no filme vemos a defesa de antivalores, o ataque inescrupuloso a fé cristã e aos valores ocidentais, mascarados por uma bela paisagem e pela crítica legítima a alguns aspectos da sociedade moderna. Na verdade, tudo não passa de uma peça de propaganda esquerdista, perigosa para quem não está familiarizado com os métodos desses sujeitos, mas interessante para quem já estuda o tema há mais tempo e está vacinado.

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