Como 2017 virou 1984

“Todos os registros foram destruídos ou falsificados, todos os livros foram reescritos, todos os quadros foram repintados, todas as estátuas, todas as ruas, todos os edifícios renomeados, todas as datas foram alteradas. E o processo continua dia a dia, minuto a minuto. A história se interrompeu. Nada existe além de um presente interminável no qual o Partido tem sempre a razão.” George Orwell

O que você lerá nas próximas linhas pode muito bem ser uma visão equivocada da realidade. Posso estar enganado. A única forma de descobrir o grau de acerto desse artigo é através do debate. Caso você não concorde com o meu ponto de vista, pode escrever um outro texto rebatendo o meu. Outras pessoas podem participar da discussão com comentários. Provavelmente eu aprenderei novas perspectivas com a troca de ideias.

Foi exatamente dessa forma que a Civilização Ocidental evoluiu. Entre altas e baixas nos níveis de liberdade ao longo do tempo, sempre com alguns passos à frente e menos passos para trás, fomos criando uma consciência mais abrangente sobre nós mesmos, através da troca de informações, que permitiu desde a aceleração da tecnologia, até a formação de regimes mais abertos, com maior respeito ao indivíduo.

A liberdade de expressão é o maior antídoto contra governos totalitários, pois é a exposição das arbitrariedades cometidas que gera a revolta popular e a queda desse tipo de regime. Não é por acaso que a primeira medida de qualquer governo totalitário é controlar o fluxo de informações, usualmente através da censura e da imposição de penas pesadas para opiniões ou posturas contrárias ao regime.

Esse processo está sob ameaça.

Com o surgimento da Internet, parecia que a guerra pela liberdade de expressão havia sido vencida definitivamente, pois qualquer um, com poucos recursos, poderia ter um espaço para expor as suas ideias, acabando com o oligopólio da grande imprensa.

A primeira fase de crescimento da internet foi extremamente livre. Redes abertas, milhares de sites com quase nenhum controle externo. O Google veio como uma ferramenta inteligente para organizar essa bagunça, facilitando a busca de qualquer informação de forma muito mais precisa. O buscador também ofereceu uma forma revolucionária de anunciar produtos e serviços, já que possibilitava ao anunciante a identificação de um potencial cliente pelo que ele estava buscando.

Tal arranjo ofereceu ao Google um modelo de negócio matador, uma verdadeira máquina de fazer dinheiro, que possibilitou a empresa atingir em pouco tempo a dominância no seu mercado. Percebendo o nível de poder que o buscador alcançou, os seus fundadores prometeram “não fazer o mal”.

Hoje, o Império Google é composto por diversos produtos que vão além do buscador. E-mail, vídeos, mapas, geolocalização, navegador de internet e sistema operacional para telefones são mercados que a empresa domina. Não é exagero afirmar que o Google saiba mais sobre um usuário do que ele mesmo.

Como todo esse poder em mãos, será que a empresa se manteve fiel à promessa de não fazer o mal?

Infelizmente não. Temos cada vez mais indícios sobre uma postura totalitária da empresa. Durante a última campanha eleitoral, alguns usuários relataram uma manipulação de resultados do autocomplete, a funcionalidade que completa a sua busca levando em consideração o comportamento de outros usuários que buscaram os mesmos termos. Não foi possível provar que houve manipulação, mas a luz amarela foi ligada.

Já outra forma de manipulação foi comprovada. A rede utiliza avaliações humanas para treinar o seu algoritmo de ranqueamento de páginas. Para quem não está familiarizado com o funcionamento do sistema, basicamente o Google usa centenas de variáveis para dar nota a uma página na rede. Quando maior a nota, melhor a posição da página no resultado de uma busca. Seguindo manual da própria empresa para quem faz o “treino” do algoritmo, podemos observar um viés claro no tratamento de conteúdo “impróprio” ou “ofensivo.

Aqui temos o ovo da serpente: o tal “discurso de ódio” ou o “discurso ofensivo”, além do termo “fake news”. Para entendê-los, é preciso voltar um pouco no tempo.

A luta contra o “discurso de ódio” é uma bandeira levantada pela União Europeia, que poderia muito bem mudar o seu nome para União das Repúblicas Socialistas Europeias para deixar mais clara as suas intensões.

Em tese, o objetivo seria combater o a discriminação por raça, credo, orientação sexual ou etnia, mas por tras desse verniz de boas intenções temos a clara intenção de controlar o fluxo de informações e calar quem não concorda com o projeto socialista europeu e a sua brutal concentração de poder.

Com saída do Reino Unido da UE, e o crescimento da oposição à Bruxelas, além da insatisfação cada vez maior dos europeus com a entrada de milhões de refugiados muçulmanos e o posterior aumento de atentados e outros crimes, é fundamental para a UE a supressão da livre circulação das informações através do controle das redes sociais e dos mecanismos de busca, visto que a imprensa europeia já é dominada pela esquerda.

Além disso, a eleição de um conservador nos EUA, cujos valores se opõem frontalmente ao socialismo europeu, após oito anos de Obama, cujo claro objetivo era integrar o país ao projeto socialista europeu, demonstrou ainda mais o “perigo” de uma internet livre.

A esquerda explicou em parte a eleição de Trump como decorrente de uma campanha de “fake news” levado a cabo na internet pelos seus apoiadores, onde ele estaria sendo favorecido por mentiras, além de utilizar mentiras para atacar adversários. É verdade que muito conteúdo gerado nas redes era mentiroso, mas isso prejudicou e ajudou todos os candidatos, e não foi um fator determinante para o resultado da eleição.

O que ocorreu na verdade foi um alinhamento da esmagadora maioria da imprensa com a candidata socialista Hillary Clinton. A grande imprensa esquerdista passou então a acobertar os crimes cometidos pela candidata e a sobrevalorizar os defeitos de Trump. A imprensa independente desmascarou o jogo, e o termo “fake news” passou a ser utilizado pelo próprio Trump para denunciar a imprensa.

O tiro saiu pela culatra para a imprensa em relação ao termo “fake news”, mas não o uso do conceito como desculpa para acabar com a livre expressão na internet. O Facebook, Google e Twitter passaram a adotar medidas para suprimir as “noticias falsas” da sua rede. O problema: quem define o que é verdade e o que é mentira? As empresas contrataram “fact checkers”, numa tradução livre, “checadores de fatos” para fazer o trabalho. Um dos sites contratados é o snoopes.com, que tem claramente um viés esquerdista. Ou seja, se algum progressista californiano definir que um post é mentiroso, provavelmente você não terá acesso ao conteúdo, pois ele terá um alcance restrito tanto nas redes quanto nas buscas.

Mas o conceito de “discurso de ódio” é ainda mais tortuoso. Voltando ao papel da União Européia nessa história, temos que abordar as diretrizes criadas ainda em 2008, pela decisão 2008/913/JHA do Conselho da Europa, que definiu a luta contra a xenofobia e o racismo através da Justiça Criminal. Em 31 de maio de 2016, com a crise de refugiados islâmico já dominando as discussões políticas no Continente, é anunciado um acordo entre a UE e as principais empresas que controlam o trânsito de informações na internet: Facebook, Twitter, Microsoft e Google.

Tal acordo define o protocolo para bloqueio e retirada expressa de qualquer mensagem por parte desses empresas para conteúdos que, seguindo

“…visam um grupo de pessoas ou um membro desse grupo, definido por referência à raça, cor, religião, ascendência, origem nacional ou étnica:

– a incitação pública à violência ou ao ódio, incluindo através de difusão ou distribuição públicas de textos, imagens ou outros suportes;

– a apologia, negação ou banalização grosseira públicas

– de crimes de genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra definidos nos artigos 6.°, 7.° e 8.° do Estatuto do Tribunal Penal Internacional (a seguir designado «TPI»); ou

– dos crimes definidos no artigo 6.° do Estatuto do Tribunal Militar Internacional, anexo ao Acordo de Londres de 8 de agosto de 1945,

– quando esses comportamentos forem de natureza a incitar à violência ou ódio contra esse grupo ou os seus membros.”

Além do bloqueio do conteúdo e de punições criminais, a UE incentiva os Estados-Membros a punir quem cometer tais infrações com a perda de benefícios sociais, a perda de licenças de negócios e que sejam mantidos sob supervisão.

Observe que a definição de discurso de ódio é extremamente subjetiva. Dessa forma, ela pode ser usada para bloquear praticamente qualquer conteúdo.

Por exemplo, se a UE defende uma política de abertura de fronteiras e o recebimento de milhões de muçulmanos que apresentam em grande parte valores incompatíveis com aqueles observados na Europa, criticar a UE por isso, ou criticar os valores islâmicos passa a ser tratado como “discurso de ódio”, mesmo que sejam auto-evidentes as transgressões aos direitos humanos nos países muçulmanos.

Foi o que aconteceu com o jornalista alemão Michael Stürzenberger que foi condenado a seis meses de prisão e ainda à prestação de trabalhos comunitários por postar a foto abaixo no Facebook.

A foto traz um registro de um encontro entre o Mufti de Jerusalém, Haj Amin Al Husseini ( tio de Yasser Arafat — ex-líder palestino) e um nazista. Segundo consta, o nazista seria o intérprete de Adolf Hitler, Paul Schmidt.

Postar uma prova que um líder muçulmano colaborou com os nazistas foi considerado discurso de ódio. A hipocrisia fica patente quando observamos que um dos motivos dados pela UE para apertar o cerco contra o “discurso do ódio” foi o aumento dos atentados terroristas na Europa praticados por muçulmanos, onde terroristas teriam usado a rede para disseminar o seu extremismo, alistando novos membros e organizando os ataques.

Mas se você entrar no site http://www.nohatespeechmovement.org / mantido pelo Conselho da Europa, ligado à UE, perceberá que a maioria dos artigos e programas se referem ao combate à “islamofobia” e não ao combate do extremismo islâmico que tantas pessoas matou nos últimos anos.

A má noticia é que os gigantes da internet resolveram adotar a diretriz europeia para o combate ao “ódio” em outros países fora do Continente. Os EUA tem uma tradição na defesa da liberdade de expressão, que é garantida constitucionalmente através da primeira emenda:

“O congresso não deve fazer leis a respeito de se estabelecer uma religião (como religião oficial do Estado), ou proibir o seu livre exercício; ou diminuir a liberdade de expressão, ou da imprensa; ou sobre o direito das pessoas de se reunirem pacificamente, e de fazerem pedidos ao governo para que sejam feitas reparações às queixas. ”

Apesar da primeira emenda se referir ao poder público e não às regras de uso de serviços privados, por que as grandes empresas americanas que controlam o fluxo de informações na internet preferem seguir a diretriz europeia e não o padrão americano?

Talvez porque elas compartilham da mesma visão socialista do mundo. Temos vários subsídios para fazer tal afirmação. Já escrevi sobre uma campanha do Google que apresentava a retrospectiva de 2016 que poderia muito bem ser uma peça da campanha de Bernie Sanders. Mark Zuckerberg, fundador e CEO do Facebook fez um discurso na formatura de Harvard desse ano, onde defendia alguns princípios socialistas como a renda mínima, além de sugerir uma espécie de governo mundial. O CEO do Twitter é praticamente um co-fundador do Black Lives Matter. Se alguém tinha dúvida sobre o alinhamento dessas empresas com a esquerda, após a demissão de James Demore pelo Google elas foram implodidas. O sujeito foi demitido por ter a ousadia de afirmar que homens e mulheres são diferentes e que essa diferença poderia explicar em parte o fato de existirem menos mulheres trabalhando no Vale do Silício. Ele relata um ambiente intolerante com qualquer ideia conservadora.

Ora, o que podemos esperar dessas empresas se os seus executivos e colaboradores são esquerdistas radicais? Hoje em dia nos EUA isso significa acreditar que vivemos numa sociedade racista, machista e opressiva, onde a busca pela igualdade é mais importante do que a eliminação da pobreza e a liberdade de expressão é menos importante que luta contra o “fascismo”, definido como qualquer ideologia que não seja a socialista.

Além disso, empresas que formam um oligopólio tem uma tendência natural a apoiarem governos centralizadores afeitos a uma grande carga de regulamentação, pois em tal ambiente essas empresas devem manter os seus monopólios, já que há cada vez menor liberdade no mercado para surgirem competidores.

Hoje o Google entrou no topo da lista de lobby em Washington, justamente para evitar que leis antitruste sejam aplicadas contra o seu monopólio. Mais, a empresa está bancando pesquisas que sejam favoráveis a ela, lembrando uma prática corrente na indústria tabagista.

Tudo isso acontece ao mesmo tempo que ela aumenta o bloqueio de conteúdo considerado “ofensivo” nos seus canais. Isso pode ser visto no Youtube, a principal rede social da empresa, onde milhões de vídeos foram retirados do ar nas últimas semanas, ou foram colocados no que os usuários estão chamando de “sand box”. Esses vídeos ficam on-line, mas eles são retirados das pesquisas, não apresentam número de views, a possibilidade de serem curtidos, comentados ou compartilhados. Além disso, qualquer vídeo considerado polêmico perde a possibilidade de ser monetizado, retirando a renda de milhares de produtores de conteúdo independente. Na esmagadora maioria dos casos, tais vídeos trazem conteúdo conservador.

Paulo Joseph Watson explica o que está acontecendo:

Uma experiência pessoal

A situação no Facebook não é mais animadora. Eu mesmo fui alvo da empresa, tendo uma artigo retirado da rede quando contava com mais de 3 mil compartilhamentos, sendo bloqueado para novas postagens por 24 horas, com a ameaça de tomar 7 dias de bloqueio caso voltasse a postar conteúdo que não estivesse de acordo com os termos de uso.

O artigo em questão relatava os acontecimentos em Charlottesville de um ponto de vista diferente da grande imprensa, mas de nenhuma forma era ofensivo. Leia aqui e tire as suas próprias conclusões.

Eu mandei reiteradas mensagens ao Facebook solicitando esclarecimentos sobre o bloqueio, perguntando em que ponto eu teria ferido os termos de uso, mas nunca recebi uma resposta. Até que uns dias após o ocorrido recebi a abordagem de um conhecido que trabalha na moderação para o Facebook, através de uma empresa terceirizada. Ele avaliou o texto e afirmou que não havia nada ali contrariando os termos de uso, ou seja, houve uma decisão arbitrária de retirada do conteúdo.

Não estou sozinho nessa onda de bloqueios, dezenas de amigos e de páginas que conheço foram bloqueados pelos motivos mais esdrúxulos, demonstrando que se trata de um grande movimento por parte dessas empresas. Praticamente todos tinham em comum o fato de serem conservadores ou liberais.

Como lutar contra a supressão da liberdade de expressão

O primeiro passo é reconhecer que aquela visão romântica sobre a internet ser a ferramenta que garantiria a liberdade de expressão morreu. Rapidamente o que está acontecendo é o contrário disso. Com a capacidade de controle dessas empresas sob cada aspecto da nossa vida, o potencial uso desse controle para fins totalitários é cada vez mais provável.

Buscar a proteção do Estado em relação a essa situação pode ser equivalente a deixar o lobo cuidando das ovelhas, como já observamos no caso dos países europeus. A única medida que poderia fazer sentido seria a defesa do exercício da regulação antitruste para diminuir o seu poder.

Outro caminho é fazer pressão nessas empresas, através de protestos e boicotes. O ideal seria o surgimento de novas redes sociais e serviços de busca que ameaçassem os atuais líderes de mercado, mas com esse grau de controle de mercado, o movimento é difícil. Apple e Google controlam 98% do mercado de smartphones nos EUA. Recentemente uma nova rede social chamada Gab, que promete livre expressão, teve os seus apps bloqueados nas lojas da Apple e Google.

Mesmo com essas dificuldades, o bloqueio agressivo de milhares, senão milhões de usuários, abre uma oportunidade no mercado para novos players. Empreendedores, aproveitem que há um presidente na Casa Branca que apoia o livre mercado e os valores conservadores, pois essa janela pode ser fechada em breve.

Particularmente, pretendo diminuir ao máximo a dependência desses serviços, investindo num site pessoal e buscando alternativas para as redes. Sugiro que todo produtor independente de conteúdo faça o mesmo, pois muito em breve não restará espaço algum nessas grandes empresas de internet para quem não rezar a cartilha socialista.

Bem-vindo a 1984.