O erro de Padilha ao descrever “O Mecanismo”

“O Mecanismo” descrito pelo seriado de José Padilha

“Isso é o mecanismo. O mecanismo tem o mesmo padrão dos fractais. Uma coisa infinita, um modo de funcionamento que se auto-alimenta e expele o que não faz parte. O mecanismo está em tudo. Do governo federal ao seu João. No macro e no micro, o mesmo padrão. O poder econômico e os agentes públicos agem juntos. Os políticos nomeiam as diretorias, que contratam sempre as mesmas empreiteiras, que superfaturam e devolvem parte do dinheiro aos políticos em fora de propina, num sistema que se auto-perpetua… o mecanismo está em tudo, da Petrobrás à empreiteira, do Ibrahim ao Alfredo, do flanelinha que receita talão, da carteira falsificada para pagar meia entrada, no suborno para o guarda pra aliviar a multa, os ricos mais ricos e os pobres cada vez mais pobre, não tem partido, não tem ideologia, não existe esquerda e direita. Quem está no governo tem que colocar a roda para girar. Esse esquema elegeu todos os presidentes. Quem não adere não vinga. É preciso colocar a roda para girar. Esse é o mecanismo.”

Ao descrever a sua epifania, o personagem Marco Rufo, policial linha dura da PF, chega a conclusão que é impossível lutar contra o crime, anunciando à sua esposa que largará a luta e se dedicará mais à família.

Padilha está sendo atacado pesadamente pelo PT e pela esquerda em geral por ter ousado expor os crimes da quadrilha utilizando a sua arte. Se tem um espaço que a esquerda protege com unhas e dentes é o meio cultural, no qual possui uma hegemonia avassaladora, não apenas no Brasil, mas no mundo. A própria Netflix, plataforma que bancou a série e a disponibilizou, é dominada por obras de cunho esquerdista. A esquerda sabe do poder da cultura para moldar a consciência das pessoas. A desconstrução dos seus líderes numa ficção é muito mais poderosa que a simples apresentação dos seus crimes no noticiário diário. O jornal de ontem vai para o pó da história, uma ficção bem feita vive na eternidade, habitando o imaginário popular.

Tirando a exposição dos atos de corrupção da quadrilha petista, a esquerda deveria agradecer Padilha, pois o diretor resolveu mostrá-los como participantes de um esquema maior do que eles, o seu “mecanismo”. De uma certa forma, tal postura diminui a responsabilidade deles pelos crimes cometidos. Afinal de contas, “…quem não adere, não vinga”.

Também não deixa de ser uma visão derrotista de mundo, demonstrada pela postura do policial Rufo, que resolve abandonar a luta, já que “o mecanismo” seria invencível. Na pior das hipóteses, tal postura até justifica os crimes da quadrilha petista. Cansei de ouvir de simpatizantes da quadrilha que “…todos roubam, mas o PT pelo menos se preocupa com o povo”.

Mas estaria Padilha correto? A culpa é do “mecanismo”? Seria ele invencível?

Se o “mecanismo” fosse algo invencível, ele deveria ser universal, não é mesmo? Então como explicar sociedade mais avançadas, onde há segurança nas ruas, há mais liberdade para viver e produzir riqueza e menores níveis de corrupção?

Diante do problema proposto por Padilha, idealistas esquerdistas podem sugerir que os líderes petistas foram tentados pelo poder e pelo dinheiro, se afastando do verdadeiro projeto socialista. O que precisamos é de líderes realmente honestos, verdadeiros santos que colocariam os interesses do povo acima dos seus próprios interesses, produzindo assim a revolução que implementaria um sistema igualitário, inspirado pelos teóricos marxistas.

Há fortíssimas evidências sobre a impossibilidade de tal desdobramento. Em primeiro lugar, em TODAS as vezes que tal revolução foi tentada, o resultado foi o fim das liberdades individuais, pobreza, violência e morte. O resultado sempre foi uma sociedade mais desigual e totalitária que a sociedade “burguesa” destruída. O segundo ponto é a impossibilidade lógica de não se chegar nesse resultado. Um projeto de reconstrução completa da estrutura social requer necessariamente a violência e o fim da liberdade, pois de outra forma, o que será feito com quem não concordar com a ideia?

Todo esquerdista que relativiza os crimes de Lênin, Stalin, Mao, Pol Pot, Fidel e outros ditadores comunistas está no fundo demonstrando apenas o seu nível de narcisismo patológico e perigoso: “se fosse eu no poder, conseguiria fazer da maneira correta”. A verdade é que o ser humano é falho. Qualquer sistema que concentre poder num grupo de poucos está fadado a descambar em totalitarismo.

Todo esquerdista é um ególatra ressentido que buscará o poder a qualquer custo. Ele não quer um mundo igualitário, mas sim um mundo que perceba a sua grandeza, pois será ele que liderará a sociedade em busca de um futuro melhor. Se os piores crimes forem cometidos no caminho, eles foram necessários, ora bolas. Ou seja, a mente revolucionária gera o ciclo da auto-indulgência que transforma um mero militante em monstro, pois tudo seria não só permitido mas justificado em nome da revolução. Há também aqueles esquerdistas que tem como único objetivo uma espécie de vingança contra um mundo injusto. Movidos pela inveja e ressentimento, querem destruir a sociedade que seria culpada pelos seus infortúnios e limitações.

É esse “mecanismo” que Padilha não entendeu ou não quis expor.

Ele explica muito bem a atuação do Estado brasileiro do ponto de vista da velha oligarquia política e econômica que Raimundo Faoro chamou de estamento burocrático. O PT inicialmente se colocou como o inimigo número um desse estamento, oferecendo em troca algo muito pior, a implementação de um regime socialista. Ao longo do processo gramsciano de ocupação de espaços e de tomada do poder, o PT acabou virando o estamento burocrático, o que popularmente pode ser definido como a união da fome com a vontade de comer. Quem magistralmente matou essa charada foi o filósofo Olavo de Carvalho.

Nessa fusão de “mecanismo” com revolução comunista, podemos entender a tragédia brasileira. No processo, o PT usava as engrenagens do mecanismo para levantar recursos para a revolução, não só no Brasil, pagando as suas campanhas, como também em outros países, especialmente a Venezuela, que o partido e seus satélites viam como a vanguarda da revolução.

Um dos efeitos mais visíveis desse processo revolucionário que esquerda impõem ao país é a violência exponencial. Ao transformar bandidos em vítimas da sociedade, destruindo a justiça, criamos a situação de caos na segurança pública. O Brasil virou o paraíso dos criminosos de toda as matizes. Para uma pessoa comum, que ainda guarda algum senso de moral, tal violência é inaceitável. Já para a esquerda revolucionária, a violência é apenas uma das fases da revolução, onde os criminosos “oprimidos” são soldados da revolução. Eles não seriam culpados pelos seus crimes, mas sim vítimas de uma sociedade desigual. Logo, a solução para o crime é a revolução socialista que acabaria com a desigualdade e colocaria fim à violência. Não era exatamente essa a mensagem da vereadora assassinada no Rio? A cobertura jornalística exacerbada do caso demonstra que quase todos os jornalistas do país subscrevem a tese, demonstrando o nível de infiltração da esquerda na imprensa.

Há muito tempo a esquerda alcançou a hegemonia do poder político e intelectual no Brasil. O PMDB, hoje e ontem MDB, e o seu filhote PSDB, representam a esquerda não revolucionária, aquela que está há décadas implementando o socialismo no Brasil sem rupturas. A Constituição de 88 foi a sua grande conquista, aquela que tirou todas as chances do Brasil ter algum futuro, pois dava direitos infinitos a todos os cidadãos e poder absoluto no Estado que “garantiria” tais direitos. Os direitos nunca foram respeitados, como não poderiam ser, mas os sanguessugas do Estado ficaram cada vez mais gordos. O PT não subscreveu a Constituição, pois sempre foi um partido revolucionário, acreditava num ritmo mais intenso para impor o socialismo, mas quando chegou ao poder pela via “democrática”, produziu a fusão com a velha oligarquia vampira. De qualquer forma, o que une esses partidos é o objetivo final de impor um regime socialista que nos levaria ao “paraíso” comunista. Eles só discordam do caminho e no final estão juntos.

Está aí o verdadeiro “mecanismo”. A busca de concentração de poder através de um Estado que está na mão de poucos políticos bandidos, com representantes no Executivo, Legislativo e Judiciário, solapando cada vez mais a autonomia dos entes federados e fortalecendo o controle central em Brasília, a capital criada distante dos grandes centros urbanos justamente para facilitar a sacanagem. Exigindo cada vez mais impostos dos cidadãos que efetivamente trabalham, criando estatais e dezenas de órgãos que viram cabides de empregos, regulando fortemente cada aspecto da vida das pessoas e das atividades empresariais, os privilegiados no poder agem como sanguessugas de um corpo cada vez mais magro. Sem Estado de Direito, livre mercado e com a inversão do princípio democrático de poder nas mãos dos indivíduos, famílias, cidades, estados e finalmente na União, temos a receita para a ineficiência e corrupção cada mais endêmicas. O povo cada vez mais pobre e deseducado clama pela ajuda do Estado que o escraviza, reforçando o ciclo.

O nosso sistema político é feito sob medida para garantir que as mesmas famílias e grupos permaneçam no poder para sempre. Sem voto distrital, com verbas estatais para partidos e o tal quociente eleitoral, a renovação é praticamente impossível. Para garantir que o povo não possa, num surto de consciência e sorte, expulsar os bandidos de sempre, as urnas eletrônicas são passíveis de fraude e inauditáveis. E para proteger as vossas excrescências, há o foro privilegiado, onde o STF, com ministros indicados pelos políticos podres, trata de barrar eventuais investigações e prisões. Boa parte dos nossos empresários são cartoriais, como bem definiu o saudoso Roberto Campos, não querem saber de livre mercado, mas sim de reservas de mercado e crédito subsidiado do BNDES, apoiando qualquer governo que oferecer tais privilégios. Ademais, com o combo de impostos, justiça trabalhista e falta de infraestrutura fica realmente complicado competir com o mundo.

A hegemonia da esquerda não é visível apenas na estrutura estatal. Na verdade, o seu sustento é dado pelo meio cultural, formado pela atuação de professores nas escolas e universidades, na produção de livros, filmes e novelas, transbordando para associações profissionais, sindicatos, ONG’s e na própria imprensa, além da Igreja.

É uma pena que Padilha tenha perdido a oportunidade de expor esse “mecanismo”. Mas talvez seria esperar demais de um integrante do meio cultural corrompido por décadas a fio.

De qualquer forma, se não acabarmos com o “mecanismo” socialista, o resultado será um só: viraremos uma Venezuela.

Venezuela, outrora o país mais rico da América Latina, hoje figura entre os mais pobres, com 87% da população abaixo da linha da pobreza. A violência é comparável com a observada na Síria, a fome e a falta de absolutamente tudo fazem parte do dia a dia do venezuelano, além da opressão cada vez maior por parte das autoridades chavistas, aquelas que a esquerda brasileira ajudou a consolidar no poder.